O que é que diferencia um autor de um empregado de mesa?

by Miguel Caetano on 1 de Abril de 2009

Desculpem pelo offtopic e por voltar ao mesmo tema mas este comentário a este post fez-me pensar nesta questão: se os clientes de um restaurante deixam 70 cêntimos a um euro de gorjeta a um empregado de mesa que consideram que prestou um bom atendimento em termos de simpatia, eficácia e atenciosidade, porque é que os leitores de um blog ou os visitantes do site de um artista ou de uma banda não hão-de recompensar o blogger e os músicos que escreveram ou criaram um texto ou uma música de que gostaram?

É certo que os portugueses não são propriamente conhecidos por serem “mãos largas” no que toca às gorjetas e que este é um costume que se encontra mais arreigado na sociedade norte-americana mas francamente esperava uma resposta mais encorajadora ao apelo que eu fiz aqui. Obviamente que tenho um interesse especial no assunto mas acho que isto interessa não só aos bloggers como também a músicos, fotógrafos, escritores de ficção, cineastas e outros criadores de conteúdos online em português.

O que eu quero dizer é que custa-me a acreditar que as pessoas sejam renitentes à ideia de recompensar o trabalho intelectual que valorizam. Quem deixa uma gorjeta ao empregado de restaurante que costuma visitar de 15 em 15 dias ou uma vez por mês está a fazer uma escolha deliberada, voluntária e intencional baseada numa série de factores racionais e irracionais. E isto apesar de existirem dezenas de alternativas – mais ou menos baratas, com uma ementa menos ou mais diversificada, melhores ou piores cozinheiros, etc. – nas proximidades do local em que se encontram. Em alternativa, podiam mesmo optar por um self-service.

É claro que na maior parte das vezes nós pura e simplesmente não temos acesso a esses indicadores, ao contrário do que acontece no caso de um blog ou de uma banda em que existem panóplias de indicadores comparativos. Mas a questão é que em ambos os casos a gorjeta funciona de uma forma não compulsória e inteiramente voluntária. Só que num dos casos, ela é socialmente aceite e até incentivada e no outro pelos vistos ainda não. O que é pena pois…

Os autores têm que aprender a sobreviver sem a ajuda de subsídios do Estado

A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) denunciou hoje que há mais de mil autores e artistas portugueses endividados (…)

Segundo a SPA, este cenário resulta da actual crise económica, do empobrecimento da vida cultural, da pirataria informática e digital e dos ataques aos direitos de autor e conexos dos artistas portugueses. “O poder político trata os autores e os artistas de uma forma minorizante”, diz Letria, culpando a lentidão desses poderes pelo aumento do consumo de produtos de pirataria e subsequente economia paralela.

Mas quer os senhores da Sociedade Portuguesa de Autores queiram ou não, não há volta a dar. A partir de agora, se os autores quiserem sobreviver condignamente terão que colocar-se na pele de “reles” empregados de mesa. As vendas de CDs, DVDs e livros – sim também! – passarão dentro de poucos anos a ser meras gorjetas simbólicas, tal como acontece actualmente com as doações. O verdadeiro ganha-pão virá não só dos concertos e de pacotes de serviços que proporcionam experiências únicas com os autores mas também dos patrocínios, de conferências, de audiobooks lidos pelos autores, de serviços de consultoria, etc.

Os “criadores” portugueses começam a aperceber-se que deixaram de ser seres intocáveis que têm o direito de cometer todas as excentricidades apenas porque têm amigalhaços nos lugares do Estado que lhes atribuem o sagrado subsidiozinho. A Internet é uma tecnologia que faz com que a palavra “pirataria” perca todo o seu sentido. No seu sentido etimológico o conceito de copyright enquanto direito exclusivo à cópia tornou-se obsoleto precisamente porque a Internet democratizou o direito à cópia.

É meu entender que o Estado não deve financiar a produção cultural porque isso apenas encoraja o parasitismo. O que o Estado deve sim fazer é incentivar a democratização do acesso à cultura – através da implementação de uma licença voluntária global – e financiar a formação de novos autores e criadores, dando-lhes os meios suficientes para eles subsistirem por si próprios no mercado, para se profissionalizarem e competirem em igualdade de circunstâncias com o melhor que se faz pelo mundo fora.

Na minha opinião, o governo faria muito bem em canalizar o dinheiro mal gasto em peças de teatro e filmes que apenas os amigos e familiares acabam por ir ver para a compra de câmaras e outro equipamento de filmagem bem como para a construção de mini-salas de teatro pelas escolas deste país fora. As escolas deveriam proporcionar uma educação musical de qualidade aos jovens deste país, oferecendo-lhes o acesso a instrumentos musicais clássicos assim como às mais recentes tecnologias de composição e edição musical.

Mas depois de apetrechados com essa formação, os estudantes teriam que combater com as suas próprias armas no mercado cultural, cá dentro ou lá fora, onde quer que a sua arte fosse apreciada. Só assim se pode encetar com seriedade uma discussão honesta sobre termos como cadeia produtiva da música e indústria musical. Só assim se pode falar seriamente em indústrias criativas, economia criativa e outros “lugares comuns” que muitas vezes não passam de eufemismos para catar mais subsídios ao Estado.

(foto de Cali2Okiene segundo licença CC-BY-NC-ND 2.0 e foto de afagen segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0)

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{ 9 comments }

1 Miguel Caetano 1 de Abril de 2009 às 17:10

Creio que tens razão em parte mas por outro lado há cada vez mais gente a pagar com multibanco ou mesmo cartão de crédito que no entanto continua a deixar gorjeta. Mas cada situação insere-se num contexto específico. Isto é, não podemos ignorar os condicionantes culturais, sociais, económicos, etc. de onde nos encontramos inseridos. Veja-se o caso de Jill Soluble ou de outros músicos lá fora que conseguem gerar um buzz positivo em torno de iniciativas semelhantes. E depois tudo também depende de uma dimensão de escala. Passam por aqui mais de mil pessoas por dia e mais de 35 mil pessoas por mês. E no entanto…

Não fica bem dizer isto, mas acho que a sociedade portuguesa não está habituada a deixar "gorjetas" em geral – haverá algum estudo económico comparativo nesse sentido? Ainda existe muito aquela mentalidade tacanha de subserviência e dependência em relação ao Estado que faz com que os actos voluntários que não resultem da mera caridadezinha sejam considerados com estranheza. Não é há toa que os portugueses têm fama de leechers nos tracker privados de BitTorrent ;) Shiii… Prontos, está dito xD

Por outro lado, creio que no caso do Remixtures existe um estereótipo que dificulta ainda mais as coisas: a de que eu defendo que a música deve ser grátis e que é fixe "roubar" discos, filmes e etc pelo que os autores merecem morrer à fome. É uma estupidez total pois basta ser um pouco inteligente para reparar que tudo o que escrevi em cima é uma negação total desse cliché!

2 Mind Booster Noori 2 de Abril de 2009 às 17:30

Até pode não estar habituado a deixar grojetas no geral, mas o que é certo é que existe muito dinheiro em "grojetas", em particular. Em breve (espero eu) farei um post no meu blog sobre a minha experiência, pode ser que sirva como contributo para a tua reflexão sobre este assunto ;-)

3 Miguel Caetano 2 de Abril de 2009 às 18:09

Fico então à espera ;)

4 Mind Booster Noori 3 de Abril de 2009 às 15:31
5 Miguel Caetano 1 de Abril de 2009 às 17:14

Creio que tens razão em parte mas por outro lado há cada vez mais gente a pagar com multibanco ou mesmo cartão de crédito que no entanto continua a deixar gorjeta. Mas cada situação insere-se num contexto específico. Isto é, não podemos ignorar os condicionantes culturais, sociais, económicos, etc. de onde nos encontramos inseridos. Veja-se o caso de Jill Soluble ou de outros músicos lá fora que conseguem gerar um buzz positivo em torno de iniciativas semelhantes. E depois tudo também depende de uma dimensão de escala. Passam por aqui mais de mil pessoas por dia e mais de 35 mil pessoas por mês. E no entanto…

Não fica bem dizer isto, mas acho que a sociedade portuguesa não está habituada a deixar "gorjetas" em geral – haverá algum estudo económico comparativo nesse sentido? Ainda existe muito aquela mentalidade tacanha de subserviência e dependência em relação ao Estado que é incompatível com actos voluntários que não resultem da mera caridadezinha. Não é há toa que os portugueses têm fama de leechers nos tracker privados de BitTorrent ;) Shiii… Prontos, está dito xD

Por outro lado, creio que no caso do Remixtures existe um estereótipo que dificulta ainda mais as coisas: a de que eu defendo que a música deve ser grátis e que é fixe "roubar" discos, filmes e etc. pelo que os autores merecem morrer à fome. É uma estupidez total pois basta ser um pouco inteligente para reparar que tudo o que escrevi em cima é uma negação total desse cliché!

6 achutti 11 de Abril de 2009 às 19:19

Fazer música é trabalhar. Ou não? http://migre.me/qCf

7 achutti 11 de Abril de 2009 às 21:19

Fazer música é trabalhar. Ou não? http://migre.me/qCf

8 A. G. P. Almeida 2 de Fevereiro de 2010 às 12:28

RT @dabliodablio: Ironia sutil. Num dia a Sônia Abrão contrata o Rodolfo http://migre.me/iupO, no outro, o ET morre. http://migre.me/iuq

9 rateecatlet 3 de Maio de 2010 às 1:48

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