Há uns dias atrás, o Edu Tex (AKA Eduardo Carvalho Junior) enviou-me um email a anunciar o lançamento da Trevo Digital, uma nova loja brasileira de música online para bandas independentes e a convidar-me para testar a compra de algumas músicas através do recurso a um Trevocard, um cartão virtual carregado com o montante de dez reais (cerca de 4,20 euros) para adquirir músicas até esse valor.
Depois de ter passado algum tempo a explorar o site, devo dizer que gostei da experiência e posso dizer que já fazia falta uma plataforma de venda directa de música online para bandas independentes ou como esta em português. O único site cujo modelo mais se aproxima deste é o da Trama Virtual através do seu programa Download Remunerado, mas a diferença é que este apenas se limita a arranjar patrocinadores para as bandas.
Apesar do balanço positivo, tenho que admitir que encontrei algumas falhas, a principal das quais é que a Trevo Digital apenas se encontra aberta a utilizadores e artistas brasileiros. Tudo bem que o mercado musical independente brasileiro é suficientemente grande e diversificado por si só, mas ao menos por uma vez poderíamos ter uma loja direccionada para toda a produção musical do mundo lusófono.
Em contrapartida, o grande ponto forte da Trevo Digital é a loja portátil que funciona como um widget cujo código pode ser copiado e colado em qualquer blog, site da Web ou perfil de rede social. Mas vamos por partes, ou por outra, pelo começo do projecto. Como já deu para entender, o Edu Tex é um dos criadores da Trevo Digital, juntamente com Tulio Jr. AKA Luiz Eduardo Tulio (leiam mais sobre a história da Trevo Digital num artigo do portal Bem Paraná).

Os dois são respectivamente o guitarrista e vocalista dos Celestines, uma banda de Curitiba, no estado brasileiro do Paraná que fazem um som a lembrar a vaga Madchester no final dos 80/início dos 90. Muito Stone Roses, Charlatans… Basta visitar o site deles para perceber que eles percebem de música online. O interface é um todo ele um trocadilho engraçado com referências de todos os melómanos modernos (AllMusicGuide, NewMusicalExpress, MySpace, Amazon, YouTube). Estamos claramente perante uma banda que não se limita a ter uma página no MySpace.
Voltando à Trevo Digital, para além da referida loja portátil – que é uma funcionalidade bastante simples que todas as plataformas de música online deviam oferecer nos dias de hoje mas que muitas se continuam a esquecer -, o site tem como outra grande vantagem o facto de distribuir 80 por cento do preço de venda de cada música para os artistas ou editoras. Os restantes 20 por cento ficam com a Trevo Digital, o que corresponde a cerca de 0,39 reais (16 cêntimos) por cada faixa com um preço de 1,99 reais (82 cêntimos). Nada mau negócio, hein?
Os artistas que prezam a sua liberdade também vão ter motivos para se registarem na Trevo Digital, uma vez que a empresa não exige qualquer tipo de exclusividade e eles podem escolher o montante a que querem vender as suas músicas: 0,99 reais (41 cêntimos), 1,99 reais ou 2,99 reais (1,24 reais). O que poderá contudo deixar alguns de pé atrás é que cada artista ou banda que quiser vender as suas músicas no site da Trevo Digital ou da loja portátil terá que pagar uma anuidade de 30 reais (12,50 euros) para despesas legais e de manutenção, certificados digitais das transacções electrónicas, pessoal, etc. Digo isto porque muitas lojas de música online norte-americanas já permitem que qualquer pessoa faça o upload das suas músicas sem pagar absolutamente nada, mas talvez isso não seja tão viável no contexto brasileiro. Talvez uma boa solução para resolver essa restrição seja recorrer a publicidade.
Quanto ao site da Trevo Digital em si, não tenho nenhuma crítica importante a fazer. Pessoalmente achei o layout demasiado escuro mas de resto o Edu e o Túlio pensaram em todas as possíveis dúvidas dos utilizadores e artistas e respondem a tudo. Sempre que entramos na página inicial, o leitor dá-nos acesso directo à loja portátil de um novo artista escolhido aleatoriamente. Ao carregar numa música, podemos ouvir um excerto de 30 segundos – será que não dava para aumentar para um minuto ou mesmo 90 segundos? 30 segundos parece coisa de uma grande editora major…
Actualmente, cerca de 53 artistas já criaram uma loja portátil na Trevo Digital. A partir da homepage temos acesso aos 10 artistas mais acessados/visitados. Como não conheço muita música brasileira contemporânea, começo por aceder à loja da banda mais bem classificada: os Charme Chulo, uma banda local de Curitiba que parece uma mistura de Franz Ferdinand, Belle & Sebastien & R.E.M. Escolhi duas faixas do álbum homónimo de estreia da banda (2006), “Não Deixa A Vida Te Levar” e “Mazzaropi Incriminado”, cada uma por 0,99 reais. Mas como só tinha acesso aos tais 30 segundos tive que ir à procura do MySpace da banda para ouvir as faixas completas para saber se valiam mesmo a pena.
Como já tinha ouvido falar muito bem de Curumin, e como sabia que ele tinha sido uma das presenças brasileiras no festival SXSW (Austin) deste ano, cliquei na loja dele. Gostei tanto do que ouvi que escolhi três músicas do seu último álbum Japan Pop Show (2008) (“Salto no Vácuo com Joelhada”, “Dançando no Escuro” e “Compacto”) e uma de Achados e Perdidos (2005) (“Vem Menina”). Cada uma custou 0,99 reais. Por fim, depois de ver nome de Wilson Simoninha em destaque na página inicial e de pesquisar mais pelo nome deste artista – fiquei a saber que teve a honra de tocar com o “mestre” Jorge Ben Jor em meados dos anos 80 e é um dos responsáveis pela editora Trama. Acabei escolhendo duas músicas do seu novo álbum Melhor (“Mareio” e “Sossega”) ao preço de 1,99 reais.

Tudo somado, “comprei” oito músicas correspondendo a um total de 9,92 reais. No final, apenas tive que seleccionar as músicas e confirmar o download para receber passados poucos segundos um ficheiro comprimido em formato RAR com todas as músicas. As faixas de Curumim vieram com a identificação errada do artista, mas nada por aí além. Tal como a equipa da Trevo Digital recomenda aos artistas, a maioria dos MP3 vêm com um bitrate magnífico de 320 Kbps. A excepção foram os Charme Chulo que me “deram” dois ficheiros com qualidade medíocre de 128 Kbps. Um conselho adicional para o Edu e o Tulio: porque não exigir uploads de apenas 320 Kbps? De qualquer forma, o balanço final da minha experiência com a Trevo Digital é extremamente positivo. Agora só falta invadirem Portugal
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