Zémaria – autopublicação em português

by Miguel Caetano on 21 de Fevereiro de 2007

São raros os casos de bandas que publicam trabalhos exclusivamente online no seu próprio site, em acesso livre e sem recurso a uma netlabel. Mais surpreendente, contudo, é quando uma banda opta por reincidir num lançamento online no seu segundo trabalho. Os Zémaria, um grupo originário de Vitória – no estado brasileiro de Espírito Santo – com um som electro que puxa irresistivelmente os pés para a pista de dança, aventurou-se pelo caminho da autopublicação em 2004, com o EP 17:42. Em Dezembro do ano passado colocou para download no seu site todas as sete faixas do novo EP Aqui não tem silêncio. Coisa de doidos, poderão comentar os mais cépticos.

Pelo contrário, estes brasileiros sabem muito bem o que fazem. Com 17:42, que alcançou 20 mil downloads em dois anos, conseguiu arranjar contactos para duas digressões por terras europeias, incluindo Lisboa (em Julho passaram pelo Texas Bar) e um prémio na categoria de música electrónica. E agora com o mais recente disco, que no primeiro mês de lançamento quase atingiu a marca dos cinco mil downloads, uma companhia discográfica portuguesa parece estar interessada em editar uma versão em suporte físico no mercado europeu. Para uma banda como os Zémaria, a autopublicação livre a partir da rede faz todo o sentido. Afinal de contas, a música é produzida em computador e escutada em computador. Mas o que importa mesmo e o que serve de ganha-pão para os músicos são os espectáculos ao vivo, marcados por uma mistura explosiva de guitarras a abrir, sintetizadores e sons maníacos vindos de laptops, como se pode comprovar com o vídeo que acompanha este post, gravado num concerto em Vitória, no passado mês de Setembro. Para ficarem a conhecer melhor a história da aventura dos Zémaria no mundo da música digital, recomendo a leitura do artigo “Aqui não tem silêncio” do Erly Vieira Jr. no Overmundo. Podem também visitar a página da banda no MySpace.

Actualização (22 de Fevereiro): Alterei o título e o endereço do post porque, como é evidente, autoprodução é completamente diferente de autopublicação. Já agora, aproveito para salientar o trabalho pioneiro dos Mombojó, uma banda de Recife, Pernambuco, que em 2004 disponibilizou para download gratuito no seu site o seu primeiro lançamento, intitulado Nada de Novo, sob licença Creative Commons, tendo voltado a repetir a façanha em 2006 com Homem-espuma. O exemplo dos Mombojó, ainda que contando com a edição em formato CD por parte da Tratore e da Trama, respectivamente, inspirou outras bandas brasileiras como os Seminovos. Este grupo de Rock humorístico herdeiro dos Mamonas Assassinas e originário de Uberlândia, uma cidade de Minas Gerais, colocou online todas as faixas do seu álbum Não Tem Preço. Vale a pena ler o que Ronaldo Lemos escreveu a respeito deles no Overmundo (obrigadão pela referência, Daniel “Duende”).

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{ 3 trackbacks }

» Músicos profissionais aderem ao livre
4 de Maio de 2007 às 20:52
inaudible.co.uk » Blog Archive » More Album & Gig Reviews
7 de Junho de 2007 às 17:43
falando em auto-publicação… « (o outro) Caderno do Cluracão
2 de Fevereiro de 2010 às 4:55

{ 5 comments… read them below or add one }

1 Daniel Duende 23 de Fevereiro de 2007 às 5:38

Não há de quê, colega blogueiro d’além mar. :)

Só para fazer uma pequena correção, é interessante salientar que os Mamonas Assassinas fizeram muito sucesso com letras bastante irreverentes em um momento que o rock brasileiro estava começando a sair de seu período “reflexivo” e começando a não se levar mais tanto a sério (coisa que vinha desde o início da década de 90 com bandas com Os Raimundos, de Brasília). Por outro lado, os Mamonas Assassinas podem ser considerados uma banda bastante comercial (já que além de seu lançamento “engendrado” pela mídia tradicional, nos moldes tradicionais, faziam música irreverente de letras inócuas, afastadas de qualquer tipo de reflexão social). Já o Os Seminovos são uma banda que faz letras irreverentes e adere a algo que podemos ainda chamar de “pop rock” (embora estes rótulos venham se dissolvendo cada vez mais, no Brasil e no Mundo), mas por suas letras sarcásticas e ácidas (e antenadas), e sua proposta de auto-publicação, não podem ser chamados de uma banda comercial. Tanto os Mamonas quanto Os Seminovos são irreverentes, tem uma veia pop muito exposta e são, cada um em seu tempo, bastante antenados na atualidade na temática de suas letras. Mas Os Seminovos dão um passo à frente, conseguindo fazer (em minha opinião) tudo que os Mamonas fizeram, só que sem se render aos comercialismos e mantendo o tom de protesto e de atenção constante com a atualidade social (e não apenas midiática) brasileira, coisa que os Mamonas não fizeram. Acho, portanto, que a comparação com os Mamonas não é muito adequada se não se fizer esta ressalva.

Quero aproveitar para adicionar mais alguns nomes que estão “se mostrando” no mercado de auto-publicação brasileiro. Bandas como o Lixo Extraordinário (http://www.overmundo.com.br/banco/tregua-lixoextraordinario) e o Supercordas (http://www.overmundo.com.br/banco/banda-supercordas) também já estão enveredando pelo mesmo caminho, mostrando não apenas um trabalho de qualidade, multi-referenciado e bem feito, como também seguindo (e expandindo) a cartilha da música independente brasileira auto-publicada na internet. O momento da musica independente brasileira é muito bom mesmo, e fico feliz que tenha recebido sua atenção, meu amigo.

Abraços do Verde.

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2 Daniel Duende 23 de Fevereiro de 2007 às 5:40

Em tempo… fiz uma blogada (meio coisa de fã temporão) sobre Os Seminovos lá no Caderno do Cluracão. Sò para constar, o link do post é http://cadernodocluracao.blogspot.com/2007/02/eu-tambm-curto-os-seminovos_19.html

Abraços do Verde.

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3 Miguel Caetano 23 de Fevereiro de 2007 às 11:40

Daniel,

Gostei muito do teu comentário e registei a tua ressalva em relação à comparação entre Mamonas e Seminovos. Aqui em Portugal os Mamonas foram bastante famosos na altura, chegando as suas músicas a passar insistentemente na rádio. Mas é de lamentar que durante muito tempo tenham sido os artistas brasileiros mais “bregas” e comerciais os únicos a chegar ao público em geral. Com essa dependência das grandes gravadoras e dos media tradicionais, muitos nomes interessantes ficaram por descobrir. Esperemos que agora todos os portões que existiam possam ser derrubados e que se gere um intercâmbio musical Brasil-Portugal mais livre.

É que por mais patriota que eu seja, não consigo ignorar o facto de que a qualidade global da música brasileira é muito superior à da que se faz por cá. Gostava que as relações culturais entre os dois países lusófonos fossem mais equilibradas. Mas cada vez que eu ouço algum músico ou alguma banda a cantar em português com sotaque tropical, mais eu me deixo surpreender com a criatividade, a fusão, a vivacidade e a capacidade de assimilação de novas ideias vindas de fora que vocês têm por aí.

Já agora, se souberes de alguma netlabel brazuca que ainda não faça parte da barra lateral de links da direita, diz.

Abraços atlânticos,

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4 Daniel Duende 23 de Fevereiro de 2007 às 16:48

Fico feliz que tenhas considerado úteis as minhas colocações. Acho também lastimável que por tantos anos a “big media” tenha sido a única ponte entre a produção musical brasileira e as terras dos irmãos d’além mar. Mas agora, nestes tempos de auto-publicação, esta maré há de mudar.

E por falar em auto-publicação, estamos começando uns papos (nos comentários deste post sobre a banda Lixo Extraordinário) sobre produzir um (ou uns) uma conversa a respeito nascendo lá nos foruns do Overmundo também. E por falar em Overmundo, aproveito para dar a dica da excelente matéria sobre o Zémaria que rolou por lá há algum tempo.

É hora de dar um gás para a auto-publicação das bandas (e dos artistas de todas as outras medias, além das musicais) e para as netlabels e ações semelhantes. A solução contra os ditames midiaticos das “empresas de comunicação” é a auto-publicação.

Abraços apertados do Verde.

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5 Daniel Duende 23 de Fevereiro de 2007 às 16:49

ops… o link do papo nos forums do Overmundo não saiu. o endereço é http://www.overmundo.com.br/forum/manual-de-auto-publicacao-na-rede-para-musicos-independentes

abraços do verde.

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