
Se o P2P e os downloads não autorizados de música servem frequentemente como bode de expiatório para as maleitas da indústria discográfica, a verdade é que existe muito boa gente que de forma mais ou menos anedótica ou científica tem vindo a evidenciar que o grande culpado da descida das receitas é a venda individual de singles em separado dos álbuns.
Nesse aspecto, o facto da principal galinha de ovos de ouro das editoras discográficas ter durante muitos anos consistido num pacote de músicas a que se convencionou chamar álbum fez com que estas se sentissem tentadas a incentivar as bandas a gravarem uma série de faixas em catadupa – não obstante a mais do que frequente falta de coerência estética do conjunto final.
Quando a Apple abriu a sua loja de música online esse esquema de dinheiro fácil veio automaticamente por água abaixo: as pessoas passaram a comprar apenas a “carne” (as duas ou três músicas que realmente se aproveitam) para deixar de lado os “ossos” (as restantes oito a dez músicas que constam do disco apenas para encher o pacote e induzir as pessoas a pagar mais)
Isso explica que hoje em dia editoras como a Warner Music Group retirem singles de novos artistas da loja do iTunes de modo a forçar os fãs a comprar o álbum – fracasso! – enquanto que artistas com uma longa carreira como Kid Rock e os AC/DC impeçam a venda de músicas individuais.

Recentemente, foi divulgado um estudo da autoria de Anita Elberse, uma professora associada da Harvard Business School já nossa conhecida por ter criticado a teoria da “Cauda Longa”, que tenta novamente quantificar os efeitos da passagem dos formatos físicos para as plataformas digitais legais como o iTunes. O estudo baseia-se numa amostra aleatória de dados da Nielsen SoundScan – a firma que monitoriza as vendas de discos nos Estados Unidos – relativos a 200 artistas entre Janeiro de 2005 e Abril de 2007. Elberse resumiu algumas das conclusões da sua pesquisa – intitulada “Bye Bye Bundles: The Unblunding of Music in Digital Channels” (PDF) – numa entrevista ao HBS Working Knowledge mas a Billboard também fez um bom apanhado:
- Uma descida de um terço das vendas semanais totais do álbum e das músicas a ele associadas é directamente atribuível ao facto das pessoas terem passado a comprar música online.
- Por cada aumento de um por cento na taxa de downloads, verifica-se uma diminuição de seis por cento nas vendas de álbuns e um aumento de nove por cento nas vendas de faixas individuais por pacote da música de um artista. Ou seja: quanto mais pessoas começarem a comprar música digital, menos dinheiro acabarão por gastar uma vez que irão comprar menos álbuns e mais faixas.
- Álbuns com uma ou duas faixas sólidas são mais susceptíveis de serem alvo do “desempacotamento” do que álbuns com músicas com uma maior qualidade global.
- Adicionar mais músicas a um álbum não reduz este efeito de “desempacotamento”. Segundo os dados de Elberse, os consumidores não estão mais predispostos a pagar por um álbum completo com 14 faixas do que por um com apenas dez músicas.
A professora de marketing da Universidade de Harvard deixa ainda algumas pistas de como é que as editoras e os artistas poderão contornar este problema do desmanche (para usar o termo do Tiago Dória):
Penso que as editoras devem repensar a essência de um pacote. Um álbum com cerca de 12 canções poderá ser um formato adequado para alguns artistas, mas porque razão é que é necessariamente o mais indicado para a maioria dos artistas? Os canais digitais oferecem às editoras uma grande flexibilidade quanto a experimentar novos formatos. Os meus resultados demonstram que poderá ser mais vantajoso atribuir uma maior importância à qualidade do que à quantidade, bem como conceber pacotes mais reduzidos mas mais consistentes.
No final, a investigadora alerta ainda para a necessidade dos restantes produtores de conteúdos (estúdios de cinema, cadeias de televisão, jornais e editores livreiros) evitarem cometer o mesmos erro das editoras discográficas de se deixarem arrastar por uma relação de dependência para com um intermediário como a Apple que não passa de um mero fabricante de hardware. E deixa uma sugestão: porque não serem eles os seus próprios intermediários.
Ainda em relação à desagregação dos conteúdos, convém notar que as produtoras de cinema de Hollywood têm uma vantagem comparativa: uma vez que o seu produto consiste apenas num único item que não pode ser vendido separadamente, elas podem dar-se ao luxo de continuar a cobrar caro pelas suas fitas e até mesmo de impor esquemas de DRM que obrigam os consumidores a pagar mais caso pretendem ver os filmes que adquiriram noutros dispositivos. O problema é que, ao contrário da música, os consumidores só estão interessados em ver um filme uma única vez. Daí o sucesso dos serviços de streaming (legais ou ilegais) de vídeo.
(foto de binaryCoco segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0); foto de Patricia Dury segundo licença CC-BY 2.0)
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Sou um que não vejo porquê mais álbuns com 13 músicas. E sim EP com 6 boas. RT @remixtures: A venda de singles digitais http://bit.ly/7NaqDN
Pois … a época de dar palha ao burro … já lá vai …
Dizer que " Apple que não passa de um mero fabricante de hardware" é como dizer que o ar não passa de oxigénio. É sabido que a Apple tem palavra em vários sectores, não só no hardware mas também no software,sistemas operativos(Mac OS X), Musica(iPod, iTunes), telecomunicações(iFone), brausers(Safari),etc. e com pesquisas de mercado em outras áreas.
A tentativa da professora da Universidade de Harvard de culpabilizar a Apple(ou as pessoas/empresas que puseram as musicas na mão dela) é errónea, tratasse de negócios, ou corre bem ou corre mal, a Apple só sede o serviço, e pelos vistos bem, se os artistas/editoras não tiveram a mesma sorte no negocio não é culpa da Apple, é óbvio que as pessoas não vão querer comprar um pack de musicas em que só gostam de 2 ou 3 e podem compra-las mais baratas. É bom para o cliente e foi nisso que a Apple pensou quando se virou para esta vertente.
Se as outras musicas não vendem é porque não tem qualidade ou porque não estão na moda(musicas que estão na moda tem sempre mercado).
PS. Não trabalho nem recebo nada na publicitação da marca referida, nem faço parte da comunidade de fanáticos pela marca(não possuo nenhum dos seus artigos).
PS2. Não é justo minimizar uma uma Marca/Empresa de forma tão picuinhas.
As reflexões deste post serão úteis para minha pesquisa. Fiz um comentário em meu blog. Coloquei o link no campo do URL. Continuarei acompanhando suas postagens.
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