No Reino Unido, a Spotify nem precisa de gastar dinheiro em marketing para gerar “boa imprensa”. Na verdade, até hoje a companhia sueca só gastou 30 mil euros para promover a sua marca no continente europeu e dois mil euros no Reino Unido. Basta um dos seus responsáveis aparecer num qualquer evento para surgirem dezenas de histórias a respeito do serviço de streaming de música da empresa sueca, bem como inúmeras especulações sobre a sua (in)sustentabilidade económica.
Percebe-se facilmente porquê. De fãs de música a analistas, passando por jornalistas e até mesmo partilhadores, a Spotify tem maravilhado tudo e todos com a sua facilidade de navegação, o seu catálogo riquíssimo e as suas aplicações para telemóveis iPhone e Android que permitem escutar música em modo offline quando não existe uma ligação 3G ou Wifi nas proximidades. O modelo de funcionamento parece ser tão eficaz que até as grandes editoras discográficas resolveram investir na companhia. Daí que para muitos, o sucesso ou insucesso da Spotify seja uma questão crucial para determinar a viabilidade do negócio da música digital.
Ontem à noite, o director de conteúdos Niklas Ivarsson participou num evento em Edinburgo organizado pela Scottish Society for Computers & Law que contou também com a presença de Will Page, economista da sociedade britânica de gestão colectiva de direitos de autor PRS for Music. Ivarsson aproveitou a oportunidade para divulgar alguns dados estatísticos relativos ao desempenho do serviço da Spotify no Reino Unido até ao final de Julho deste ano:
- Mais de 2,7 milhões de britânicos já utilizam o serviço, estando os homens em maioria face às mulheres;
- O número de subscritores da modalidade premium (que custa dez libras por mês) anda já na casa dos seis digitos (mais de 100 mil);
- Mais de três milhões dos 4,5 milhões de temas disponibilizados pela Spotify foram acedidos, gerando um total superior a mil milhões de streams;
- A faixa etária de indivíduos entre os 20 e os 29 anos é a que mais utiliza o serviço, representando um total de 1,1 milhões de utilizadores (40,7%).
- Mais de metade dos utilizadores têm mais de 30 anos.
Estes dados dizem apenas respeito ao Reino Unido, mas segundo o que a própria Spotify afirmou ao Out-Law, o número global de utilizadores do serviço nos seis países onde se encontra disponível (Reino Unido, Suécia, Espanha, França, FInlândia e Noruega) ultrapassa os seis milhões. Com base neste número, este mesmo site estima que o total de utilizadores Premium do serviço deverá situar-se entre os 100 e os 600 mil.
Tal estimativa tem em conta a revelação feita há semanas atrás pelo director-executivo e co-fundador da Spotify durante uma conferência em Londres de que o número de subscritores era inferior a dez por cento do número total de utilizadores, de acordo com o TechCrunch Europe. Partindo do pressuposto de que o total de assinantes deverá andar entre os 100 e os 600 mil, o Out-Law calcula que as receitas mensais do serviço deverão rondar entre um milhão e os milhões de libras (cerca de 1,1 e 6,5 milhões de euros), o que equivale a uma receita anual entre 12 milhões e 72 milhões de libras (entre 13 e 78 milhões de euros).
É claro que esses números não abrangem tanto as despesas com alojamento dos ficheiros e largura de banda como o pagamento das licenças de direitos de autor às sociedades de gestão colectiva em representação dos compositores e autores e às editoras discográficas em representação dos artistas-intérpretes. De foram ficaram também as receitas geradas com a publicidade no serviço grátis bem como as comissões resultantes de vendas de downloads da 7Digital.
Daí que seja bastantes difícil saber se o negócio da Spotify já é lucrativo ou se ainda continua a dar prejuízo. Glenn Peoples da Billboard tentou realizar o exercício especulativo de determinar quanto é que o tão aguardado lançamento da Spotify nos Estados Unidos custaria. A conclusão a que ele chegou: o streaming de música não sai nada barato.
Do outro lado do Atlântico, Charles Arthur do The Guardian também tentou fazer algo semelhante para averiguar quanto dinheiro é que a Spotify estava a ganhar (ou a perder…) mas esqueceu-se de incluir os royalties que um serviço de streaming necessita de pagar às editoras discográficas. Partindo do pressuposto que este valor deverá rondar entre os nove milhões e os 18 milhões de libras (cerca de 10 e 20 milhões de euros), as perspectivas da empresa que trouxe a “jukebox celestial” aos fãs de música europeus são insustentáveis - a menos que as editoras tenham acordado em conceder termos de licenciamento mais flexíveis.
Acordos e parcerias em socorro
Justamente devido à sua periclitante situação económica a longo prazo, a Spotify tem se multiplicado em tentativas de obtenção de fontes de receitas adicionais. Anteriormente, a empresa já tinha assinado um acordo com o fornecedor sueco de banda larga Bredbandsbolaget – detido pela Telenor, uma operadora de telecomunicações escandinava – que permitia que os seus assinantes incluam o montante da subscrição na sua factura de Internet.
O prazo desse acordo terminou recentemente. Mas hoje a Spotify anunciou mais um acordo com outro ISP sueco, a Telia. Válida por dois anos, a parceria visa disponibilizar aos clientes da Telia a versão Premium do serviço a partir de computadores, telemóveis e televisores. Segundo o TechCrunch, a Telia pretende mesmo lançar em breve um telemóvel de marca Spotify que deverá ser fabricado pela britânica INQ.
Mas será esse tipo de acordos suficiente para atrair os internautas suecas ou continuarão eles a optar pelo Pirate Bay e outras alternativas ilegais? Se é provável que a base de assinantes continue a crescer durante mais um tempo, também é mais ou menos seguro prever que mais tarde ou mais cedo esse crescimento irá parar. Isto porque os fãs de música continuam a preferir pagar para ter acesso permanente e ilimitado à música do que a pagar por um “aluguer temporário” que poderá ser suspenso a qualquer momento. Daí a necessidade urgente de introduzir serviços de downloads realmente ilimitados de MP3s. Mas para que isso aconteça será primeiro preciso que os detentores de direitos diminuam as suas expectativas de contrapartidas.
(foto de Funkbreaks segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0; foto de earnoud e foto de umpcportal.com segundo licença CC-BY-NC-ND 2.0; foto
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Números, dados e especulações a respeito da Spotify http://migre.me/8EoR
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