Reino Unido: Sete milhões de partilhadores ou 3,9 milhões?

by Miguel Caetano on 8 de Setembro de 2009

Em Junho passado, um órgão consultivo do governo britânico designado Strategic Advisory Board for Intellectual Property (SABIP) divulgou um relatório de 85 páginas realizado pelo Centre for Information Behaviour and the Evaluation of Research (CIBER) do University College de Londres (UCL) que continha uma conclusão tão sensacionalista como catastrófica: a partilha não autorizada de ficheiros está a provocar o desaparecimento de milhares de postos de trabalho.

Logo naquela altura eu fiz questão de denunciar a metodologia mais que duvidosa deste “estudo”. E com a razão, como se veio agora a provar. Com efeito, o relatório parece estar recheado de estatistícas de fiabilidade bastante diminuta. Por exemplo, um dos dados mais destacados pelos media tradicionais britânicos foi o facto de os autores estimarem o número de internautas que descarregam ficheiros protegidos por direitos de autor em mais de sete milhões. Segundo eles, esse número foi retirado de um artigo publicado pela empresa de estudos de mercado Forrester Research. Mas quando a equipa de jornalistas do programa More or Less da Radio 4 da BBC decidiu procurar esse número no arigo em questão tal não foi possível. O número pura e simplesmente não aparecia. Não convencidos, os repórteres decidiram contactar um dos autores do artigo da Forrester, o analista Mark Mulligan, que por sua vez explicou que o número teve origem num outro relatório elaborado pela Jupiter Research, uma subsidiária da Forrester. Adivinhem quem encomendou esse estudo? Nada mais, nada menos que a British Phonographic Industry (BPI), a associação representante dos interesses da indústria discográfica britânica. Um cliente totalmente (im)parcial, não haja dúvida!

Mas os problemas com o estudo encomendado pelo governo britânico – que, curiosamente, se encontra neste momento a planear implementar um sistema de resposta gradual contra a partilha de ficheiros… – não acabam por aqui. Com efeito, o The Register indica que esses tais sete milhões são um arredondamento do número original de 6,7 milhões.

Pior ainda, o estudo que chegou a esse número baseia-se num inquérito realizado a 1176 lares britânicos dotados de uma ligação à Internet, dos quais 11,6 por cento dos inquiridos (umas “míseras” 136 pessoas) afirmaram terem usado software de partilha de ficheiros. Essa percentagem foi então ajustada para os 16,3 por cento de forma a reflectir o pressuposto de que a maioria das pessoas não admitiria a sua condição de partilhadores.

Como se isto não bastasse, a pesquisa encomendada pela BPI à Jupiter também considerou que o número de internautas no Reino Unido em 2008 foi de 40 milhões quando as estimativas oficiais do Office of National Statistics (ONS) apontam para apenas 33,9 milhões.

Feitas as contas mesmo se assumíssemos como certa essa estatística segundo a qual 16,3 por cento dos internautas britânicos partilham ficheiros não autorizados e a correlacionássemos com os números do ONS, chegaríamos apenas a 5,6 milhões de partilhadores britânicos. Não fazendo qualquer ajuste, esse número baixaria para os 3,9 milhões, ou seja, quase metade do que o organismo financiado pelo governo sustenta no seu estudo.

3,9 milhões não deixa de ser um número imponente. Mas então porque é que a indústria de entretenimento tentou impingir os tais sete milhões ao governo britânico? Não se dá ela conta de que desta forma está a cavar a sua própria sepultura e a ajudar o recém-lançado Partido Pirata Britânico a cativar mais membros? E porque é que o governo britânico se deixou convencer tão facilmente da veracidade destes números a ponto de querer agora cortar a ligação à Internet dos alegados partilhadores?

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1 Sua fonte de música! 9 de Setembro de 2009 às 0:17

Reino Unido: Sete milhões de partilhadores ou 3,9 milhões? http://migre.me/6CLm

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2 Fábio Alexandre 9 de Setembro de 2009 às 0:41

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