Reino Unido: Músicos, compositores e managers de costas voltadas face à partilha de ficheiros

by Miguel Caetano on 14 de Setembro de 2009

Há dias traduzi aqui um comunicado da responsabilidade da Featured Artists Coalition (FAC) em colaboração com a British Academy of Songwriters, Composers and Authors e a Music Producers Guild que criticava brilhantemente os planos do governo britẫnico de cortar a ligação à Internet dos internautas acusados de partilharem músicas protegidas por direitos de autor.

O argumento defendido pela FAC – uma associação de músicos que representa artistas e bandas como Radiohead, Tom Jones, Annie Lennox, Kate Nash, Billy Bragg, Dave Rowntree dos Blur e Nick Mason dos Pink Floyd -, não existem quaisquer provas substanciais demonstrando que a partilha de ficheiros provoca uma redução nas vendas de discos uma vez que os partilhadores são também em regra geral aqueles que compram mais discos. Mais importante do que isso, os downloads realizados via Internet podem contribuir para aumentar significativamente outras fontes de receitas mais vantajosas para os artistas como o merchandising e os bilhetes para concertos.

“O facto da partilha de ficheiros se manter e ser tão popular nos dias de hoje é uma coisa extremamente positiva para a indústria musical. A verdade é que a música é tão popular que as pessoas estão dispostas a violar a lei para obtê-la.” comentou Dave Rowntree, baterista dos Blur, ao Times. O 0Floyd’ Mason, por seu lado, considera que a última coisa que a indústria musical devia fazer era entrar em guerra com os fãs: “A partilha de ficheiros garante-nos uma nova geração de fãs.”

Como era de se esperar, estes pontos de vista não têm sido lá muito bem recebidos por outros agentes interessados no negócio da música no Reino Unido, em particular e as sociedades de gestão colectiva de direitos de autor e os empresários de artistas famosos.

Um desses managers é Paul Loasby, responsável pelas carreiras de David Gilmour dos Pink Floyd e de Jools Holland, entre outros. Em declarações ao The Telegraph, Loasby afirmou que o ponto de vista defendido pela FAC irá conduzir a uma destruição total das carreiras de novos artistas:

O governo está a fazer alguma coisa, o que é uma boa notícia após ter adiado lidar com esta questão durante anos. Trata-se de uma mera suspensão e não é como se [a partilha de ficheiros] peer-to-peer ilícita fosse considerada uma actividade criminal.

Quem também pensa da mesma maneira é Colin Lester, empresário dos Artic Monkeys: “É muito fácil ser-se caridosos quando se é rico. A maioria destes artistas [da FAC] não recebem dinheiro do negócio da venda de discos. Eles ganham dinheiro com o negócio da música ao vivo. Parece impossível que não possamos concordar a respeito do rumo que a indústria deve seguir. Precisamos de unirmo-nos de modo a dificultar a tarefa dos ISPs”

Do lado das sociedades de gestão colectiva, as reacções não foram menos negativas. “Isto não é meramente inútil. É destrutivo,” afirmou Fran Nevrkla, director da PPL ao The Guardian. “Nós não compreendemos porque é eles se acham no direito de insinuarem que falam em nome de todos os artistas e músicos. Os seus pontos de vista não são partilhados pela maioria.”

Mas se os músicos poderão ganhar até mais dinheiro em camisolas e bilhetes para concertos graças à partilha de ficheiros, o que é que irá acontecer aos compositores, àqueles que se dedicam unica e exclusivamente à composição de melodias? Vão ficar a chupar no dedo? Essa é a opinião de Bjòrn Ulvaeus, antigo guitarrista dos ABBA e compositor. Depois de em Fevereiro deste ano ter acusado os apoiantes do Pirate Bay de lutarem em nome da “liberdade de serem preguiçosos e forretas”, Ulvaeus aproveitou agora uma coluna de opinião no Times para defender a posição dos compositores em início de carreira que aparentemente dependem unicamente das vendas de discos, ganha-pão que na sua opinião está a ser severamente reduzido devido à partilha de ficheiros.

Mas não só existem diversos estudos que apontam que isso é falso – na medida em que os partilhadores são maiores consumidores de música – como também Ulvaeus oculta muito convenientemente o crescimento das outras inúmeras fontes de receitas à disposição dos compositores, conforme os dados mais recentes da própria PRS – a sociedade de gestão colectiva britânica que representa os interesses dos compositores e autores de canções – indicam. Nesse campo, incluem-se o licenciamento para publicidade, cinema e televisão, as próprias interpretações ao vivo dos seus temas por outros artistas e as taxas de royalties pagas pelas estações de rádio e serviços de streaming. Daí que só quem não perceba nada do negócio da música é que poderá acreditar na honestidade das declarações de Ulvaeus.

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Ofensiva mundial contra a “pirataria” digital « Travessias
20 de Setembro de 2009 às 1:45

{ 2 comments }

1 Sua fonte de música! 15 de Setembro de 2009 às 0:28

Reino Unido: Músicos, compositores e managers de costas voltadas face à partilha de ficheiros http://migre.me/6Zjw

2 Sua fonte de música! 15 de Setembro de 2009 às 2:28

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