“Muita da actividade online relacionada com a partilha de música coincide frequentemente com um enorme apoio dos fãs pelo artista em causa (…) O contributo económico de um fã partilhador para a carreira de um artista poderá residir na aquisição de merchandising e de bilhetes para concertos.” Estas foram as palavras usadas no início do mês pela Featured Artists Coaltion (FAC), uma associação representando os interesses dos artistas britânicos – no início do mês na sua resposta enviada à consulta sobre partilha de ficheiros do Department for Business Innovation & Skills do governo do Reino Unido.
O documento era uma crítica veemente aos planos do secretário dos Negócios Peter Mandelson de suspender a ligação à Internet dos internautas alegadamente apanhados a descarregar conteúdos protegidos por direitos de autor após o envio de duas notificações.
Mais de duas semanas depois e depois de uma reunião de três horas em Londes que juntou cerca de 100 artistas – incluindo a própria Lily Allen que tinha anteriormente se oposto ao ponto de vista da organização-, a mesma FAC dá o dito pelo não dito e manifesta-se a favor do sistema em três etapas contra a partilha de ficheiros que o executivo de Gordon Brown sugeriu.
Mas ao contrário do defendido por Lily Allen e pelas editoras discográficas representadas pela British Phonographic Industry (BPI), a posição da FAC não é pelo menos tão extremista a ponto de defender a suspensão do acesso à Internet dos alegados partilhadores:
O nosso encontro também resultou numa votação maioritariamente em favor de um sistema de sanções em três etapas para aqueles que descarregarem persistentemente ficheiros legais, sanções essas que poderão consistir numa carta de notificação, numa carta de notificação em tom mais severo e uma sanção final de modo a restringir a largura de banda do infractor a um nível que tornaria a partilha de ficheiros multimédia impraticável sem afectar em nada a funcionalidade do acesso básico ao email e à Web.
Compreende-se que os membros da FAC tenham sentido a necessidade de chegar a um consenso em relação a este tema. As divergências entre os membros da associação estavam a chegar a níveis insuportáveis. Ontem mesmo, Colin Lester, manager de artistas como Craig David e Remi Nicole, tinha já anunciado a sua demissão bem como a dos seus artistas da FAC por ser “a favor de uma acção punitiva contra aqueles que roubam o ganha-pão” dos artistas. Numa carta enviada a Mandelson, o empresário defendia uma abordagem de tolerância zero contra a partilha de ficheiros de forma a impedir o desaparecimento da indústria.
Mas a verdade é que a moção ontem aprovada pelos membros da FAC não constitui mais do que uma medida “insonsa” para acalmar os desentendimentos internos. Não passa de uma decisão politicamente correcta para evitar enfrentar o inevitável.
Mais uma vez, volto a repetir: não é possível esperar que as pessoas confiem em quem dá primeiro com o pau e só depois oferece a cenoura. Antes e acima de qualquer tentativa de intimidação, é necessário pensar em serviços que ofereçam realmente valor aos fãs de música como ofertas de downloads ilimitados de MP3s como a que o ISP britânico Virgin Media está há que tempos a tentar lançar mas que tem vindo a enfrentar a renitência das editoras discográficas.
Esta é a lição que alguns dos membros da FAC teimam em não dar ouvidos e à qual a UK Music de Feargal Sharkey continua indiferente. Numa carta enviada a Peter Mandelson e que foi também assinada pela sociedade de gestão colectiva de direitos de autor PRS e pelo Sindicato dos Músicos, a associação da indústria musical britânica defende uma diferenciação entre as sanções a serem aplicadas aos “infractores ocasionais” e as aplicadas aos “infractores persistentes”, indo ao ponto de defender a suspensão temporária das ligações de banda larga destes como solução de último recurso.
Mas como é que é possível distinguir um partilhador ocasional de um regular, numa altura em que o preço dos discos rígidos externos de 1 Terabyte nunca foram tão baixos? Não estará a UK Music a ser excessivamente “ingénua”?
Para não destoar do coro, a Associação de Música Independente (AIM)– a organização que representa as editoras discográficas britânicas – também já se mostrou a favor do corte da ligação à Internet na resposta que enviou ao processo consultivo sobre a partilha de ficheiros iniciado pelo governo e que termina já a 29 de Setembro. Tal como outras partes do sector, a AIM acha que os serviços de valor acrescentado irão surgir do ar aos trambolhões assim que os ISPs começarem a cortar o acesso à Internet dos alegados partilhadores. Será que não percebem que assim estão a cavar a sepultura da indústria? Será que não entendem que o consumidor nunca aceitará dar dinheiro a quem não suscita a sua confiança?
(foto de meneldor segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0)
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Aê Miguel,
Olha só q música legal.
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