O mercado da música no Reino Unido revela um crescimento sustentado, muito à custa do sector dos concertos ao vivo e do licenciamento dos catálogos das editoras discográficas para serviços de streaming. No entanto, há quem se continue a queixar de que os artistas independentes ou em início de carreira estão a ser relegados para as franjas dos nichos ao passo que os dinossauros do rock e do pop enchem estádios inteiros. Mas será que isso é culpa do P2P ou do próprio sector que continua a ter uma perspectiva a curto prazo da música?
Os dados baseiam-se num estudo recentemente publicado pelo economista Will Page da PRS for Music, a sociedade britânica de gestão colectiva dos direitos de execução pública dos autores, compositores, editores e artistas-intérpretes britânicos segundo o qual as receitas globais do negócio da música ascenderam aos 3,6 mil milhões de libras (4,2 mil milhões de euros) em 2008, o que representa um crescimento de 4,7 por cento em comparação com o ano anterior.
Os principais beneficiados com esta subida das receitas acabam por ser os artistas com uma carreira já estabelecida que conseguem encher mais facilmente a sua agenda de concertos e assim cobrar mais.
Segundo os cálculos de Page, o mercado ao vivo já é hoje em dia mais importante do que o disco em termos de receitas globais. No ano passado, os concertos geraram 1,4 mil milhões de libras (1,6 mil milhões de euros), o que representou uma subida de 13 por cento em relação ao ano anterior. Por seu lado, os discos ficaram-se pelos 1,3 mil milhões de libras (1,5 mil milhões de euros), equivalente a uma descida de seis por cento.
Se juntarmos o sector do ao vivo ao dos fonogramas na categoria de negócios B2C (Business-to-Consumers), verificamos um crescimento de três por cento ao ano, o equivalente a um total de 2,7 mil milhões de libras (3,1 mil milhões de euros). Se em 2007 este sector B2C representava 80 por cento do volume de negócios da indústria musical do Reino Unido, no ano passado essa percentagem desceu para 75 por cento.
Quanto aos restantes 25 por cento eles estão relacionados com actividades pertencentes ao segmento B2B (Business-to-Business) e incluem licenças, publicidade e patrocínios. Este sector também sofreu um aumento de dez por cento, situando-se actualmente nos 926 milhões de libras (1,07 mil milhões de euros).
Não obstante a diminuição das receitas obtidas com os direitos de reprodução mecânica em resultado da descida das vendas de discos, os editores ou publishers de música conseguiram ainda assim registar uma subida de sete por cento nas suas receitas para os 90 milhões de libras (104 milhões de euros)
O que também subiu sete por cento foram as receitas das companhias discográficas para além da venda unitária de música e que inclui categorias como 1) acordos de sincronização para integração das músicas em filmes, séries de televisão, jogos e publicidade; 2) acordos de licenciamento celebrados com serviços de streaming; 3) direitos de execução pública, etc. Actualmente já representam 195 milhões de libras (226 milhões de euros).
Neste segmento, foram os negócios assinados com empresas como a Spotify e a We7 que mais cresceram, tendo o seu mais que quadruplicado em 2008 para se situar nos 13,8 milhões de libras (16 milhões de euros). No que toca às vendas digitais, elas cresceram 51 por cento para os 212 milhões de libras (245 milhões de euros). Em contrapartida, as vendas físicas desceram para os dez por cento.
Apesar dos patrocínios e da publicidade serem considerados por muitos como a “solução mágica” para garantir a sustentabilidade dos artistas independentes, a verdade é que eles apenas representaram um total de 89 milhões de libras (103 milhões de euros) em 2008.
Mas apesar do balanço final do estudo ser francamente positivo para a indústria musical britânica, Will Page não deixa contudo de recear que o crescimento do sector ao vivo esteja a beneficiar apenas os dinnosauros do rock como os The Police e Neil Young em detrimento dos novos músicos e bandas em início de carreira:
As vendas de fonogramas estão a descer e o ao vivo está a subir – mas são os discos que constituem o principal investimento em novos talentos e dado o prejuízo que o P2P já gerou nos cálculos de investimento, coloca-se então a questão: quem irá investir no desenvolvimento da carreira de artistas de modo a gerar as estrelas de amanhã?
Esta questão não é propriamente de admirar tendo em conta que Will Page já por várias vezes refutou a tese de Chris Anderson de que a nova era digital asseguraria uma maior igualdade de oportunidades aos artistas de nicho face aos grandes êxitos. O problema é que ela parte de pressupostos errados. Até hoje, nunca ninguém conseguiu provar até que ponto é que a partilha de ficheiros contribui para reduzir as vendas de discos.
Por outro lado, ao abordar o assunto de uma perspectiva estritamente economicista Page ignora muito convenientemente que nem sempre os artistas em que as editoras investiram foram os que produziram música de melhor qualidade. De facto, boa parte das obras da música popular que hoje em dia consideramos como clássicas foram ostracizadas durante décadas pela indústria discográfica. E se fossemos por essa lógica, também poderíamos dizer que sem o P2P muitos dos fãs de música não se teriam atrevido a descobrir bandas menos conhecidas, acabando assim por ir aos concertos e por adquirir merchandising e edições limitadas.
Por fim, Page ignora que na nova era digital assinar ou não um contrato com uma grande editora discográfica não é garantia nenhuma de sucesso financeiro nem artístico, muito pelo contrário. Factores como carisma, marketing e capacidade de estabelecer um diálogo directo com os fãs são tão ou mais importantes para construir uma base de fãs dispostos a comprarem todo o tipo de artigos com a marca do artista associada. É este tipo de crowdfunding que o senhor Will Page parece ignorar.
Não vale a pena chorar pelo leite derramado. Aliás, atitudes nostálgicas como as de Will Page devem ser olhadas com suspeição. Afinal de contas, ele pertence a uma das entidades que durante décadas se puderam orgulhar de deter um monopólio absoluto sobre o negócio da música. Hoje em dia, com as Creative Commons e outras licenças livres isso já não é bem assim.
Artigos relacionados:
- EMI pior que estragada com as novas tarifas de streaming da britânica PRS
- Banda Calypso: O sucesso sem a ajuda da indústria discográfica
- Quem confia na indústria discográfica?
- Concertos já geram mais receitas que os discos no Reino Unido
- 2/3 dos partihadores britânicos deixaram de fazer downloads ilegais devido ao Spotify



{ 1 trackback }
{ 1 comment }
Sorteio aqui no twitter, RT's valendo a coleção Brilhos do Cerrado da @BlantColors meta 2000 seguidores RT http://migre.me/3XfM
Comments on this entry are closed.