Depois de ter escrito este artigo sobre a mudança de tom por parte do ministro da Cultura em relação às suas afirmações iniciais, fiquei a saber que a Sociedade Portuguesa de Autores sempre conseguiu – mais uma vez… – levar a água ao seu moinho.
O que se deve ter passado foi o seguinte: José António Pinto Ribeiro começou por demonstrar falta de tacto político ao divulgar por intermédio da comunicação social uma mensagem que não era bem aquela que ele queria. Isso gerou um mal-entendido.
Até aqui, não tenho nenhuma objecção a colocar. Lá que um governante seja inepto em termos de relações públicas não é comigo. Sinceramente, até comecei por pensar que o ministro se opunha mesmo à prorrogação dos direitos de autor dos artistas-intérpretes dos 50 para os 70 anos. Que ingénuo que eu sou! Está-se mesmo a ver que um ministro tem que agradar aos lobbies do seu sector, mesmo que para tal acabe por prejudicar o público em geral!
O que me deixou bastante furioso foi o facto da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) ter aproveitado a falha do ministro para extrair daí um brinde bastante jeitoso. Com efeito, num comunicado desta sociedade de gestão colectiva praticamente copiado e colado tanto pela LUSA como pela Fábrica de Conteúdos, ficamos a saber que o Pinto Ribeiro confirmou a criação de um grupo de trabalho no sentido de combater a pirataria na Internet e discutir a Lei da Cópia Privada.
Se nos baseássemos apenas nestas notícias, ficaríamos com a impressão de que a SPA é a única entidade a constar desse grupo de trabalho. Ora se isto fosse mesmo verdade, não era grave. Seria muito grave! Felizmente que se deve ter tratado apenas de mais um exemplo de jornalismo desleixado.
Como é óbvio, este grupo de trabalho terá que integrar outras associações representantes de outros titulares de direitos como a Associação Fonográfica Portuguesa, Passmúsica (Audiogeste e GDA), etc. Sem esquecer, é claro, os próprios fornecedores de acesso à Internet, que certamente não veriam de bom grado a adopção de medidas extremas como o corte da ligação à Internet dos seus clientes acusados de partilharem conteúdos protegidos por direitos de autor. Afinal de contas, quem é que quer perder clientes? É que, em última análise, sempre haveria um ISP que se recusaria a tornar-se informador de associações de direito privado.
Mas caso o ministro da Cultura esteja mesmo a preparar um grupo trabalho para estudar propostas contra os downloads ilegais, eu – enquanto internauta, cidadão português e eleitor – exijo saber quem me irá representar nessas conversações.
Maior representatividade na comunicação social
E já agora que falo nisso, aproveito também para colocar a questão: porque é que os jornais e os órgãos de comunicação social portugueses em geral se prestam a publicar apenas artigos de opinião representando sempre os pontos de vista daqueles que defendem um maior controlo e estão persistentemente contra a inovação?
Estou a falar de gente que não percebe e não quer compreender a Rede e a sua arquitectura precisamente porque sabe que a rede torna os seus modelos de negócios totalmente obsoletos. Outros há que são tão ingénuos – para não dizer ignorantes – que nem sequer têm noção das barbaridades que proferem.
Veja-se o exemplo de Carlos Nobre AKA Pacman dos Da Weasel. Num artigo publicado este domingo no Correio da Manhã e intitulado “A alienação dos nossos direitos”:
Enquanto que os direitos de autor são protegidos pelo tempo de vida do criador mais setenta anos, o que a lei prevê neste momento em relação aos direitos de artista é que passados cinquenta anos sobre a gravação de um disco, por exemplo, o artista deixe de ter qualquer poder sobre a obra, ficando esta à mercê do domínio público. Cá para mim, tanto os direitos de autor como os de artista não deveriam ter qualquer tipo de ‘prazo de protecção’. Deveriam ser passados infinitamente, reconhecidos como a herança que representam.
Deixando de lado o juridicamente correcto – deduzo que o termo que Pacman queria ter utilizado era direitos conexos e não “direitos de artista” -, o que me faz mais impressão é que um músico de uma banda como os Da Weasel que mistura Hip-Hop com o velho Rock N’ Roll não compreenda a extrema importância do domínio público para a sociedade em geral.
Poder-me-ão dizer que sendo os Da Weasel uma banda composta por “músicos a sério” que tocam instrumentos e não apenas um grupo feito à base de DJs e samples, eles nunca precisaram do domínio público para nada. Mas será que não é essa ausência de samples capazes de cativar a atenção do ouvinte que fazem dos Da Weasel uma banda tão – vamos lá – sensaborona, insípida e insonsa?
Talvez Pacman não o saiba, mas a verdade é que o melhor do Hip-Hop e do Rap da última década tem sido resultado da fusão de samples das mais diversas proveniências, de uma forma mais ou menos legal, mais ou menos criminosa. Aquilo que Pacman e os seus amigos certamente designarão de “pilhagem” sonora é nada mais, nada menos do que o ápice da criatividade que as ferramentas digitais que os computadores e a Internet possibilitam nos dias de hoje a qualquer miúdo que disponha de um computador portátil e muita imaginação. O que isto significa é que é contraproducente proteger a remuneração ad eternum dos criadores originais se isto implica privar a sociedade em geral da possibilidade de aceder a mais obras criativas. Trata-se de uma questão de democratização cultural.
Se artigos de opinião como este fossem uma excepção nas páginas dos jornais portugueses até não estaríamos muito mal. Mas a verdade é que nós, internautas e defensores da democratização do acesso à cultura e ao conhecimento, somos periodicamente alvo de ataques que afrontam os nossos interesses e a nossa inteligência*.
Basta olhar para a vizinha Espanha que rapidamente encontramos bloggers influentes como Enrique Dans que têm regularmente “espaço de antena” em colunas de opinião nos media tradicionais como esta falando abertamente em defesa dos utilizadores da Rede e contra os dinossauros, juristas argutos como David Bravo e associações como a EXGAE que não hesitam em defender a causas das vítimas dessas indústrias que dependem de um monopólio concedido pelo Estado. Onde está a Associación de Internautas portuguesa? Onde está o nosso Partido Pirata?
O JM Cerqueira Esteves disse-me há dias que ele e mais uns amigos estão a tentar criar a LED – Associação Liberdade na Era Digital – no sentido de colmatar este enorme vácuo**. Mas é bom que eles se despachem porque senão corremos o risco de já ser demasiado tarde. É que não há ninguém que nos defenda e represente os nossos interesses! Mas já repararam que somos muito mais numerosos que todos os titulares de direito associados da SPA, AFP, Passmúsica, etc.?
* Neste artigo refiro-me concretamente à questão dos direitos de autor e àquilo a que eles chamam de “pirataria” na Internet. Mas o panorama do tratamento noticioso da Internet nos jornais e nas televisões portuguesas é, em regra geral, medíocre, para não dizer bastante “reles”. Um utilizador não regular da Internet que apenas se informe sobre o meio online através dos media tradicionais corre sérios riscos de ficar com a ideia de que “isto aqui” só serve para:
- grupos extremistas difundirem ódio e recrutarem novos militantes;
- cibercriminosos lançarem ataques de phising e roubarem números de cartões de crédito;
- crackers russos ou ucranianos espalharem vírus;
- aldrabões nigerianos enganarem os incautos com spam fraudulento;
- pedófilos e violadores de menores;
- viciados em porno:
** o projecto mais semelhante desse tipo que eu conheço é o Beats Play Free mas esta associação tem como fim mais específico promover o netaudio e a música livre.
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Se formos cada um de nós por si e se só nos reservarem o espaço dos comentários nos sites dos jornais, acho muito pouco… É preciso maior concertação e pressão junto de quem de direito!
OK, já completei o meu artigo “Quem representa os interesses dos internautas portugueses?”. A ler aqui http://migre.me/1f7E
RT: @remixtures: OK, já completei o meu artigo “Quem representa os interesses dos internautas portugueses?”. A ler aqui http://migre.me/1f7E
#musicaos Quem representa os interesses dos internautas portugueses?
http://buzzup.com/2ffl
A tentativa de criar uma EFF portuguesa já falhou por duas vezes. Acho que não ha uma capacidade de organização suficientemente eficiente e coesa para que tal aconteça. Melhor que eu, o Paulo Querido de certeza que tem algo a dizer (ou não) neste capitulo.
Ora isto é coisa que a SPA e amigos têm q.b. e é de facto um trunfo, para se apresentarem perante os governos, como entidades que transmitem uma seriedade de causa justa, quando na realidade têm apenas uma agenda escondida de manter e maximizar a margem de lucro das editoras, no modelo de negocio tradicional (porque não conhecem. nem querem conhecer, outro).
Os artistas pelo meio ou são usados, ou deixam-se deliberadamente usar.
Os Da Weasel são um pessimo exemplo para dar a cara, pois uma banda que passa quase o ano inteiro em digressão e depois vem falar das perdas no suporte plastico, não é de modo algum a mais prejudicada.
netshark: falhou por duas vezes, venha a terceira tentativa. A LED está aqui para ficar, não é um esforço para falhar. http://led.pt/
Perdão, afinal enganei-me. Falhou uma vez.
Esta é ainda (e finalmente) a segunda tentativa, que já conhecia, e finalmente vê a luz do dia. Vamos ver se é desta que tem pernas para andar
Quanto ás mixtapes, sampling e remixing, IMHO se for feito pelo Dj de esquina leva processos em tribunal; se for feito por bandas comercialmente boas, está tudo bem, somos todos amigos.
Faz-me lembrar do remix "Profissional Widow" do DJ Armand Van helden, feito sem autorização da Tori Amos. Van Helden era entao desconhecido e a musica foi um sucesso mundial, muito maior que o original. Ele não recebeu nada pelo remix, a não ser a gratidão dos fans e da Cantora.
Mas, e se tivesse sido um fracasso? Haveria gratidão, ou daria lugar á hipocrisia?
Seja como for estas organizações estão a usar todas as vias que podem, para prosseguirem com a sua agenda. Ainda ontem no seu discurso de aceitação do globo de ouro, a Mariza pediu ao Ministro (temos de adivinhar qual em particular) para fazer mais pelos artistas, em tom emocional, completamente descontextualizada dos agradecimentos que estava a fazer. De imediato, Rui Reininho aplaude de pé.
Por outro lado, os pontos que assinalas no fim, tambem são usado como munição pelas organizações anti pirataria, para difamar as redes p2p, sociais, enfim, qualquer tipo de rede que possa ser usada para a transferencia de ficheiros (legais ou não).
O slogan mais conhecido é: "Ao combaterem as redes p2p estão a combater a pedofilia". Fantastico Mike!
Já eu era miúdo e cantarolava trechos de outros artistas e com esse cantarolar aprendi o que sei. Se me cortassem esse cantarolar não poderia aprender o que sei hoje.
O que quero dizer é que a criatividade advém da partilha de conhecimentos e não da restrição dos mesmos.
Imaginem: Se a restrição for como o descrito (e o caminho é esse) que seria de mim com 9 anos a cantarolar em trecho, o qual seria restrito!
Enfim os fins económicos permitem tudo. E depois a crise também.
Se analizar-mos bem restringir os conteúdos é que leva á ruína, não só dos lobbies como da cultura.
Ah, a cultura não são só os artistas, também são as actividades (que dependem dos subsídios) das Associações.
“quem me irá representar nessas conversações” http://bit.ly/8bjrL
“Quanto ás mixtapes, sampling e remixing, IMHO se for feito pelo Dj de esquina leva processos em tribunal; se for feito por bandas comercialmente boas, está tudo bem, somos todos amigos.”
A história é sempre a mesma: cria-se um sistema repressivo, ao qual uns (os “amigos”) não estão sujeitos (ou só parcialmente). Acho que não é preciso citar exemplos passados de regimes com abordagens semelhantes :/
http://led.pt/
Penso que esta Associação para a Liberdade na Era Digital será uma forte entidade nos interesses dos internautas no futuro. Quem sabe um faísca de ignição para a criação de um Partido Pirata à imagem de alguns europeus.
Já existe. Partido Pirata Português http://partidopirata.co.cc e o forum http://partidopirata.co.cc/forum