
Se o Pirate Bay constitui a armada dos piratas e o Partido Pirata Sueco (Piratpartiet) o braço ideológico, então o “Gabinete de Pirataria” ou Piratbyrån pode ser considerado como o grupo filosófico e de reflexão de um movimento que tem vindo a aumentar de importância no conjunto da população jovem sueca ao longo dos últimos três anos.
Os elementos do vêem-no como um think tank da pirataria da era digital e advogam uma filosofia de propriedade intelectual chamada kopimi ou “copia-me” que funciona como o oposto do copyright convencional. Em termos práticos, o kopimi constitui um símbolo que informa o utilizador que uma obra pode ser copiada para quaisquer fins, sejam eles comerciais ou não comerciais.
Pode-se dizer que foi graças ao trabalho teórico e de activismo destes oficiais infatigáveis da pirataria que os suecos começaram a tomar consciência da importância em combater o direito de autor e a propriedade intelectual através da partilha de informação e de artefactos culturais.
Daí que a atribuição de uma menção honrosa pelo júri do Prix Ars Electronica ao Piratbyrån na categoria de comunidades digitais seja completamente justificada. Para quem não sabe, o Ars Electronica é unanimemente considerado o mais prestigiado prémio do mundo no campo da intersecção entre arte, tecnologia e media. Como os piratas referem no blog da Embaixada da Pirataria (Embassy of Piracy), o seu mais recente projecto de intervenção, o prémio no valor de cinco mil euros será entregue este Setembro, numa cerimónia a ter lugar durante o festival Ars Electronica que se realiza anualmente em Linz, na Áustria.
Boa parte deste montante será investido na compra de espaço em servidores com vista à realização de actividades artísticas futuras. O que sobrar será gasto na renovação e pintura do S23, o famoso autocarro vermelho que no Verão passado andou em digressão pela Europa fora e que serviu de centro de imprensa do Pirate Bay durante o julgamento Spectrial.
A Embaixada da Pirataria é um projecto no âmbito da Bienal de Veneza – que tem data de abertura marcada para 7 de Junho, decorrendo até 22 de Novembro – e que surge no seguimento da participação do Piratbyrån na Bienal Manifesta no ano passado. Quem também teve direito a uma menção honrosa do Prix Ars Electronica foi o WikiLeaks, um site em forma de wiki que promete vir a ser o futuro do jornalismo de investigação na medida em que é aí possível publicar de uma forma anónima documentos confidenciais. Em alguns países não democráticos, estes dados poderiam mesmo custar a vida das “fontes”, caso a sua identidade fosse revelada.
Com a atribuição desta menção honrosa ao think tank dos piratas, parece-me que a organização do Ars Electronica pretendeu passar uma mensagem indirecta de apoio àqueles que lutam contra o monopólio do conhecimento e da cultura nas mãos de certos e determinados conglomerados multimédia em detrimento dos cidadãos em geral. De notar que já em 2007, o júri do Prix Ars Electronica tinha premiado na mesma categoria de comunidades digitais outra iniciativa que tem como missão democratizar o acesso à cultura: o brasileiro Overmundo.
(foto de jortklingd segundo licença CC-BY 2.0)
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