
A teoria da cauda longa de Chris Anderson segundo o qual a abundância do ecossistema digital da Internet permite que os fãs de música se arrisquem a descobrir artistas menos comerciais foi mais uma vez desacreditada. Apesar do tamanho e da diversidade da oferta ser muito maior no meio online do que nas grandes superfícies comerciais que são limitadas pelo espaço que dispõem para exposição dos artigos, isto não parece afectar significativamente o desempenho dos êxitos tradicionais.
Os dados anteriores da BigChampagne, a empresa de monitorização dos conteúdos em circulação nas redes de P2P, já davam a indicar que os artistas e músicas mais descarregados de forma ilegal são também os mais populares do mercado discográfico legal.
Mas um estudo elaborado pelo economista Will Page da sociedade britânica de gestão colectiva de direitos de autor PRS For Music em conjunto com o director executivo da BigChampagne Eric Garland intitulado “A Cauda Longa do P2P” (via Music Ally) que a partilha de ficheiros está a contribuir para aumentar o fosso entre os “êxitos” e os nichos. “Por outras palavras, o que é popular é sempre popular.” Na sua opinião, este fenómeno de concentração da procura tende a ser ainda maior nos filmes e séries de televisão.
A pesquisa baseou-se numa análise efectuada aos hábitos de downloads ilegais longo de 12 meses e concluiu que 95 por cento das músicas foram responsáveis por apenas 20 por cento das partilhas efectuadas nas redes P2P. Ora no artigo de 2004 da revista Wired que veio a dar origem ao livro A Cauda Longa, Chris Anderson apresentou a hipótese de que a curva da oferta e da procura de conteúdos seguiria a forma de uma Power Law correspondente ao gráfico da cauda longa segundo a qual 80 por cento dos artigos representam 20 por cento das vendas.
No entanto, os dados recolhidos por Page e Garland colocam em causa essa teoria. Analisando o Top dos 100 Álbuns mais populares da revista Billboard para a última semana de Abril, os investigadores concluíram que todos os títulos se encontravam disponíveis no Pirate Bay, tendo cada um sido descarregados uma média de 58 mil vezes durante esse período. The Fame das Lady GaGa foi mesmo descarregado 388 mil vezes.
Ou seja, a curva gerada a partir desses dados aproxima-se mais de uma distribuição log-normal do que de uma cauda longa. Essa tinha já sido a conclusão de um estudo anterior da mesma dupla relativo ao mercado digital legal onde concluíram que 10 dos 13 milhões de temas disponibilizados online no ano passado no mercado britânico não tiveram qualquer comprador. De facto, o comportamento dos mercados “ilegais” de P2P é tão semelhante aos mercados legais que até hoje a Big Champagne não encontrou um grande sucesso nos tops das redes e sites de P2P que não tenha sido um fenómeno de vendas no mercado legal.
Outros dados interessantes deste estudo agora disponibilizado é que os ficheiros mais populares foram descarregadas em média cerca de 14 milhões de vezes durante os 12 meses abrangidos pela análise e que mais de 13 milhões ficheiros foram descarregados pelo menos uma vez.
Segundo Page e Gardland, este fenómeno de consolidação pode ser explicado como uma reacção dos utilizadores ao excesso de opções à escolha que a abundância de uma plataforma ilegal de partilha de ficheiros oferece. Uma vez que as pessoas não dispõem de tempo para pesquisar e ouvir aquilo que realmente poderão gostar, os seus gostos acabam por ser constrangidos por aquilo que vêm nos meios de comunicação social tradicionais e pelos hábitos musicais dos seus amigos. No fundo, todos nós somos seres sociais e por isso temos tendência a sermos influenciados por aquilo que nos está mais próximo.
Todavia ou por isso mesmo, os investigadores concluem que a indústria discográfica faria bem em encarar as redes e os sites de P2P como apenas mais um veículo promocional, tal como acontece de há muito com a rádio e com a televisão, que passaram a poder transmitir músicas protegidas por direitos de autor mediante o pagamento de uma licença. Na verdade, consideram, os maiores agentes do mercado só sairão beneficiados com a legalização da partilha de ficheiros: “Ironicamente, a resposta à pirataria que temos vindo a evitar poderá tornar alguns dos artistas mais ricos do mundo ainda mais ricos” sem com isso os pobres fiquem mais pobres.

Artigos relacionados:



{ 8 comments }
@chrisvidoto essa eh pra vc http://bit.ly/18kaaQ
@chrisvidoto essa eh pra vc http://bit.ly/18kaaQ
Caro Miguel, no seu livro "A Cauda Longa" em momento algum o Chris Anderson nega a continuação de existência dos hits, ele apenas defende é que as novas tecnologias vieram dar outra visibilidade aos nichos, o que eu acho que é extremamente fácil de constatar, basta dar uma volta na web (blogues, fóruns, etc). Hits continuarão sempre a existir, mas a proliferação e desenvolvimento das tecnologias também, e cada vez mais, darão oportunidades aos e voz aos nichos e a cada vez mais nichos.
SIm, mas a grande diferença é que Anderson acredita que o poder desses nichos seria maior: na sua opinião, 80 por cento desses itens de nicho representariam 20 por cento das "receitas". O que este estudo do Page e do Garland conclui é que afinal são 95 e não 80 por cento. Mas concordo que existem duas grandes falhas neste estudo:
1) Não esclarecer que a oferta disponível ilegalmente via redes e sites de P2P é no seu conjunto muito maior e mais vasta do que no próprio mercado legal de música online. Portanto, se estamos de falar de números em termos brutos muito superiores, significa que há mais artistas e bandas de nicho a serem ouvidos, o que de qualquer das formas positivo.
2) Não indicar claramente na metodologia se a pesquisa apenas abrangeu sites públicos de BitTorrent. Isto já por si pode enviesar totalmente as bases da discussão. É evidente que é muito mais difícil encontrar conteúdos de nicho em trackers públicos como o Pirate Bay do que em trackers privados especializados em música como o What.cd e o Waffles.fm. Desconfio que aí a causa longa dominaria completamente.
Basicamente acho que a cauda poderá ser mais desproporcional face ao corpo do que o que o Chris Anderson defende, mas também temos de ter em conta a altura em que a pesquisa foi feita e o livro foi escrito, por outro lado acho que ela (cauda) é ainda e cada vez mais longa do que inicialmente ele defendia.
Não existe cauda longa no P2P by Miguel Caetano http://bit.ly/18kaaQ
Eheheheh gato escondido com cauda de fora
Caro Miguel, acho que a explicação é simples. Redes P2P dependem de pessoas "subindo" conteúdo. Se algo é focado em um nicho, naturalmente haverá um número pequeno de pessoas fazendo upload, dificultando ao interessado tanto encontrar o conteúdo quando fazer um download rápido e com qualidade.
Comments on this entry are closed.