A segunda parte do artigo de opinião que eu escrevi a propósito dos “Anónimos Cobardes” gerou um enorme debate no Fórum Sons por parte de músicos e outros agentes do sector, o que só é salutar. A única desvantagem é que isso fez com que a minha atenção se tenha desviado quase totalmente para essa discussão. Daí a escassez de actualizações neste espaço ao longo das últimas 24 horas. Para ccompensar os leitores do Remixtures, decidi por isso fazer aqui um balanço da minha posição de forma a desfazer alguns mal-entendidos.
O meu ponto de vista é este: quem dá demasiada importância à “pirataria” está a desprestigiar a música porque isso equivale a tratá-la como uma mercadoria semelhante a um sabonete ou a um chocolate. Mas a música, tal como toda a cultura, não é um produto como outro qualquer. O seu valor vai muito para além dos 99 cêntimos de um simples MP3 ou dos 18 euros de um CD ou mesmo dos 22 euros de um disco em vinil. Na medida em que se trata de uma experiência simbólica, ela não pode ser compreendida como se se tratasse de um mero produto empacotado pois depende de vários factores irracionais.
Nós gostamos da obra de um artista ou de uma banda quando ela nos toca no fundo das nossas almas porque de alguma maneira aquilo que estamos a ouvir parece fazer sentido com a nossa personalidade ou com o nosso estado de espírito num determinado momento. A ponto de chegarmos por vezes a sonhar com ela. Quando atingimos esse nível de proximidade com a obra de um artista, é inevitável sentirmos-nos tentados a recompensá-lo de alguma forma. Em última análise, tudo depende da qualidade, dedicação e talento dos músicos. E é por isso que apenas aqueles que não acreditam totalmente na sua arte se queixam dos downloads ilegais.
Porque se trata no fundo e acima de tudo de uma relação baseada no amor. Se um músico não inspira amor e devoção, então ele é apenas um mercenário que está a tentar sacar uns trocos aos seus fãs. E estes percebem isso porque tiveram oportunidade de ouvir de antemão os seus temas. Essa pessoa tanto faz música como poderia estar a trabalhar num banco. Pode até lançar um ou dois discos e obter algum sucesso momentâneo, mas nunca as suas músicas ficarão cravadas a longo prazo nas memórias das outras pessoas. Nunca serão a banda sonora de namorados, nunca marcarão momentos inesquecíveis como bebedeiras entre amigos, viagens de carro ao fim de semana, longas caminhadas solitárias ou patuscadas domingueiras em família. A música é mais do domínio dos sonhos e da fé do que do comércio.
Há pessoas que acreditam em Deus ou noutras entidades sobrenaturais. E apesar das religiões do “Livro” (Catolicismo, o Budismo, o Judaísmo, Islamismo) continuarem a ser preponderantes nos dias de hoje, isso não impediu o florescimento de milhares de seitas com as mais diversas crenças e filosofias de vida um pouco por todos os cantos do mundo. Quem é crente não obtém quaisquer vantagens racionais e imediatas em resultado da sua fé. Mas isso não significa que as pessoas não façam doações. Estas doações de fieis continuam a ser a principal fonte de financiamento de enormes obras magnificentes como catedrais, templos, mesquitas, etc. As pessoas dão porque acreditam nas promessas de vida para além da morte, de felicidade terrena para si e para os seus e de esperança para a humanidade que as mensagens religiosas desses movimentos transmitem.
Eu não sou religioso. Considero-me agnóstico. Mas reconheço que a música poderá ter em mim os mesmos efeitos que a mensagem religiosa. Talvez seja por isso que me sinto algo incomodado sempre que ouço músicas extremamente belas de cariz religioso como “God Is Love” de Marvin Gaye, “Jesus Meu Rei” de Marcos Valle ou “Leia o Livro Universo Em Desencanto” de Tim Maia. Apesar das letras não me dizerem especialmente nada, o tom emotivo dessas vozes e as melodias lindas de fundo deixam-me extremamente emocionado. Esse é um exemplo nítido de que a música pode ser tão ou mesmo mais poderosa que a religião.
Nessa perspectiva, comparar uma coisa para mim tão sagrada como a música a uma mercadoria como um pacote de batatas ou um detergente para a roupa é humilhante para todo o músico que se orgulha daquilo que faz. A força da música vai para além do objecto físico a que se encontra temporariamente acorrentada.
É por isso que há pessoas chamadas fãs que coleccionam tudo o que está relacionado com o seu artista ou banda favorita. Os fãs são capazes de percorrer quilómetros para assistir a um concerto da banda, de perder horas em filas intermináveis para comprar um bilhete, de gastar centenas de euros para comprar um bootleg em segunda mão gravado em vinil na eBay.
Apesar dos rumores em sentido contrário, continuam a existir fãs fervorosos nos dias de hoje. É a eles que se devem os blogs de partilha de MP3s e que ajudam a espalhar mensagem, a boa nova; é através deles que ficamos a saber dos melhores discos do momento; são eles que se apropriam dos media sociais como o Twitter, a Last.fm e o YouTube para exprimir a sua devoção aos seus ídolos. Porque eles sabem que desde há muito que a máquina tradicional de promoção e divulgação de música assente na rádio deixou de estar ao serviço da arte e do talento para se submeter ao jugo das grandes editoras que dispõem dos meios ($) para fazer com que os seus artistas medíocres ocupem as playlists.
Se a música fosse uma actividade estritamente regida por critérios economicistas e racionais, então as pessoas já teriam deixado de comprar discos há muito tempo uma vez que é bastante fácil descarregá-los de borla a partir da Internet. Na prática, o preço de mercado da música é nulo. Só que os fãs de música não são homo economicus. Os seres humanos seguem outros princípios que não apenas os do consumo e da produção.
Acabar com os downloads ilegais e implementar um sistema de controlo total da Internet teria como consequência um esvaziamento imediato das salas de concertos e uma enorme retracção dos gastos directos e indirectos com música. Porque as regras do jogo mudaram: não se pode obrigar alguém a gostar de um álbum sem o poder ouvir de antemão. Aquilo que alguns músicos chamam de pirataria é a melhor forma de promoção do seu trabalho se não pretendem depender de uma grande editora discográfica que só lhe quer extorquir dinheiro até ao tutano!
As provas estão aí e só não vê quem tem má fé: os “piratas” são os maiores clientes da indústria discográfica. Há cerca de duas semanas, um estudo da Escola Norueguesa de Gestão BI revelou que aqueles que descarregam gratuitamente música a partir de sites e redes ilegais adquirem legalmente dez vezes mais música do que os restantes internautas. Em Novembro de 2007 um estudo encomendado pelo governo canadiano concluiu que quantos mais downloads ilegais se faz, mais CDs se acaba por comprar.
Noutra pesquisa realizada na Suécia por uma sociedade de direitos de autor, 86,2 por cento dos inquiridos afirmaram que estariam dispostos a pagar por uma subscrição voluntária para terem o direito de partilharem música entre si com toda a legalidade. Estes resultados corroboram os de uma investigação anterior junto de adolescentes britânicos segundo a qual 74 por cento dos inquiridos estava disposto a pagar por um serviço legal de partilha de ficheiros.
Outro estudo holandês divulgado em Janeiro deste ano revelou que a partilha de ficheiros ilegais contribui para um óbvio aumento do bem-estar social e ganho económico da população. A mesma pesquisa demonstrou que o acesso grátis não exclui inevitavelmente o pagamento pelos conteúdos: os partilhadores compram em média o mesmo montante por música que os outros utilizadores e acabam por ir mais vezes a concertos e comprar mais artigos de merchandising.
Por último e mesmo que os downloads ilegais sejam em parte responsáveis pela diminuição da vendas de discos, existem outros factores muito mais importantes: a passagem de venda de álbuns completos a singles individuais via iTunes, bem como a concorrência de serviços de streaming e de outros suportes de entretenimento (DVDs, videojogos, etc.). Esta foi a conclusão a que a consultora Cap Gemini chegou num estudo de Outubro de 2007 relativo ao mercado britânico.
apenas 18 por cento dos 480 milhões de libras perdidas (689 milhões de euros) em receitas pelo sector do disco na Grã Bretanha podem ser atribuídas à “pirataria”. A grande parte, 368 milhões de libras (528 milhões de euros), ficou a dever-se à transição tecnológica rumo ao digital, em particular à venda de faixas individuais que dantes só poderiam ser adquiridas em conjunto com o CD.
Mas se as vendas de discos estão de facto a descer em todo o mundo, o que é que um músico que pensa ganhar a vida com a sua arte pode fazer para alcançar esse objectivo? A única resposta que eu posso dar é: ensaiar, ensaiar, ensaiar; tocar, tocar, tocar; dar concertos em tudo quanto é lado. Nada se consegue sem esforço, dedicação e devoção! Isto foi sempre assim. Mesmo antes da Internet. Apenas uma pequena percentagem dos artistas editados conseguiram ganhar dinheiro com a venda de discos. Quem vos disser o contrário está a mentir desalmadamente! Quem ganhou dinheiro com a música conseguiu-o graças às digressões, ao licenciamento para rádio, anúncios, cinema e à venda de merchandising.
Portanto, há que admitir que a situação não se modificou tanto assim com a massificação da Internet. O que mudou foi que hoje em dia é possível erguer uma base de fãs espalhados pelo mundo sem gastar balúrdios em dinheiro com campanhas promocionais para media tradicionais como rádio e imprensa especializada que proporcionam apenas um destaque a curto prazo. Ferramentas de media sociais como blogs, Twitter e YouTube são neste aspecto bastante importantes porque proporcionam uma interacção directa e permanente com os fãs. Se for bem explorada, essa relação irá inevitavelmente converter-se em ganhos financeiros directos para o bolso do artista.
Ao mesmo tempo, o número de potenciais fontes de receitas e de monetização também se tornou bastante mais vasto. Mas há também que ter em atenção que a Internet é uma enorme fotocopiadora pelo que apenas aquilo que não pode ser facilmente digitalizado e copiado poderá ter algum valor para os fãs.
Por outras palavras, se eu quero vender a minha música eu tenho que pensar em oferecer algo que valha realmente a pena, que transmita uma experiência única e irreproduzível. Isso pode passar por edições limitadas e exclusivas que combinem CD e vinil e que incluam imagens autografadas, um booklet, etc. A ideia é propor ao fã um objecto artístico único que tenha um valor artístico em si mesmo, que se diferencie dos outros produtos massificados por ser a expressão do imaginário artístico do criador. Porque como eu já referi, vender música não é o mesmo que vender sabonetes. É preciso pôr muita paixão naquilo que se faz.

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Em cheio.
Eu acho a musica actualmente cara. E é pela teimosia das editoras em manterem a sua margem de lucro com os modelos de negocio tradicionais. Veem a Internet como um bicho papao, qual Freddy Kruger pronto a destrui-lo.
É uma oportunidade e não uma ameaça. Existem pessoas na industria que já o provaram.
Se para voces ser musico é um gajo que vai para um estudio, na companhia de um tecnico de som, com um gajo que da uns acordes na guitarra, escrevem umas letras fanhosas, tem a voz tratada electronicamente e depois esperam sentados que as vossas 10 000 copias se vendam, porque não tem capacidades para fazer mais nada (ex: tocar ao vivo), então mudem de vida ou reinventem a vossa forma de estar, pois estao condenados e a enganar-se a voces proprios. Não são, nem nunca foram musicos, embora se tiverem o minimo de capacidades talvez o possam ser.
Essa era em que nada faziam, á custa de venda do plastico, acabou.
Como em todos os processos de negocio inovadores, há os visionarios e há os inadaptados. Está nas mãos das editoras, decidirem em que campo querem ficar. E o tempo está a contar. É so verem o exemplo do Video on demand via ISPs.
Foi um tubarao branco a comer as focas. E as focas tiveram muito tempo para evoluir. Não o quiseram, extinguiram-se.
Boa leitura : “quem dá demasiada importância à “pirataria” está a desprestigiar” http://is.gd/wXDm – thanks for the link @mind_booster
Fica claro, ainda mais com este teu post, que a indústria fonográfica e seus correlatos estão preocupados apenas em defender o seu negócio lucrativo e não evoluir ou acompanhar a evolução da sociedade… eles mesmo, se não fossem tão mesquinhos poderiam estar ganhando também com essa evolução e ainda fazendo um bem enorme para a humanidade, mas pau que nasce torto, tende a morrer torto.
Por outro lado gostava que não se pudesse fazer esses downloads, com o movimento que anda a circular não vejo futuro para “artistas e outros”, espero não estar enganado, mas…
Miguel, ótimo texto. Parabéns ! Conseguiu resumir e provar no que acredita. Sabes que compartilho uma visão muito próxima a sua. Por isso, peço sua licença para ilustrar seu texto com frases de pessoas que acreditam e contribuem nesse mesmo caminho.
"The labels were never in the business of selling music. They were in the business of selling plastic discs."
David Kusek
“Why will these resourseful open models start emerging with tremendous force ? Because they multiply our productive resources. They turn users into producers and consumers into designers.” Charles Leadbeater
“Our mission is to create a middle-class in the music industry by giving all artists simple tools to generate revenue so they can spend time on what they love and do best – making music!” Audiolife
@PauloQuerido: o acesso livre está completamente institucionalizado. A única coisa que o pode evitar é a licença global http://migre.me/XgJ
O Miguel do @remixtures é um gajo que *pensa música* e por isso merece o seu follow. Veja que supimpa este texto http://tr.im/kHnz
Música é religião e não uma mercadoria como sabonetes (by @remixtures) http://is.gd/wXDm (via @penas)
Não lembro quem jogou isso aqui, mas é um post foda: http://bit.ly/vYe27
“Música é religião e não uma mercadoria como sabonetes” – http://bit.ly/vYe27 (não lembro quem postou isso aqui, mas é foda)
De certa forma como resposta a este artigo: http://rmartins.org/musica/partilhar-partilhar
RT @joaosergio: Música é religião e não uma mercadoria como sabonetes (by @remixtures) http://is.gd/wXDm <leia>
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RTW @penas RT @joaosergio: Música é religião e não uma mercadoria como sabonetes (by @remixtures) http://is.gd/wXDm <leia>
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