Por este título vocês poderão estar a pensar algo do género “Olha! O pirata passou-se!” E até admito que possa parecer um pouco estranho estar aqui a dedicar um post em homenagem às lojas independentes de discos quando já há mais de cinco anos que não compro um CD. Mas a verdade é que por detrás desta minha “casca” de pirata/partilhador inveterado esconde-se um grande fã de música que adoraria comprar em vinil pérolas como a discografia completa dos Velvet Underground, os clássicos de Jorge Ben, Tim Maia e Rolling Stones ou obras-prima mais recentes como todos os de Four Tet, Caribou/Manitoba, J Dilla, Madlib, DJ Shadow, No Age, Atlas Sound e outras inúmeras bandas que eu só conheci graças à Internet e aos sites de BitTorrent.
Só não compro porque pura e simplesmente o dinheiro escasseia. Mas se eu tivesse, sem dúvida que não hesitaria em comprar a versão em vinil destes e alguns outros discos que desde há muito se tornaram nos meus melhores companheiros. Mesmo! Porque há certos discos que só podem ser desfrutados até ao limite no formato a que originalmente se destinaram. E porque há outros que pura e simplesmente soam melhor em vinil
Foi por isso que acompanhei com um misto de curiosidade e nostalgia os preparativos que ao longo desta semana antecederam os festejos do Record Store Day marcado para o dia de hoje – 18 de Abril. Esta iniciativa foi lançada em 2007 nos Estados Unidos para celebrar a importância das lojas independentes de músicas como agentes de revitalização dos circuitos musicais locais em contraposição aos gigantes armazéns multimédia impessoais controlados por conglomerados transnacionais sem face (FNAC, El Corte Inglẽs, etc.).
Não era fixe se todas as discotecas tivessem um tipo baril como o John Cusack a atender-nos?
A ideia de base retomar aquele espírito que ao longo das últimas décadas se foi perdendo da loja de esquina cujo dono é um tipo baril e porreiraço que conhece todos os miúdos das redondezas e que tem pinta para recomendar os mais recentes lançamentos musicais porque já sabe de trás para a frente os gostos de cada um. Estão a ver a cena mesmo à Alta Fidelidade com o John Cusack mesmo atrás do balcão, não estão? É claro que esse cenário idílico só acontece mesmo no cinema porque na vida real as coisas nunca se passaram assim, como bem lembra Luke Lewis do NME:
Há dez anos atrás, o gajo pretensioso da loja de discos era um personagem extremamente desprezado – o tipo de snob chato que tinha prazer em gozar com a fraca qualidade das nossas aquisições (…) Naquela altura, a loja de discos do bairro era uma zona de intimidação e medo.
Esta moda de revivalismo em torno das lojas de discos vem mesmo a calhar numa altura em que as lojas de discos andam pelas ruas da amargura e em que o número de “vítimas” não pára de aumentar. Por exemplo, no Reino Unido cerca de um quarto das lojas fecharam as portas no ano passado. Estes são números da responsabilidade da Entertainment Retailers Association citados pelo jornal The Guardian. Se nos anos 80 o seu número rondava as 2200, em 1994 já só eram 1200. Actualmente restam apenas 305.
Nestas ocasiões é sempre muito fácil e cómodo apontar o dedo aos downloads ilegais realizados via P2P mas se há uma coisa que estes dados indicam é que a tendência já vinha de um tempo muito anterior ao do Napster. Para além dos relatos maniqueístas, existem muitos outros factos que contribuíram para a situação actual, seja a concentração da actividade em grandes superfícies comerciais que vendem DVDs, CDs, videojogos e livros como se se tratassem de mercadorias indiferenciadas, quer seja a concorrência cada vez maior com outros suportes de entretenimento como os DVDs e as consolas.
Mas este não é o lugar indicado para voltar aqui a denunciar a má fé do choradinho do costume. O que importa é que durante o dia de hoje mais de 700 lojas nos Estados Unidos e mil lojas espalhadas pelo mundo inteiro deverão participar nas festividades. Em Portugal três lojas de discos juntam-se à festa: Louie Louie, Carbono e Flur. Esta loja lisboeta situada em Santa Apolónia tem já marcada uma série de concertos ao vivo de artistas nacionais como Samuel Úria e Aquaparque. Os Macacos do Chinês também estavam previstos mas à última da hora desmarcaram.
Apesar do programa prometer, não me parece que vá por lá aparecer. Em primeiro lugar porque sentiria-me mal meter lá os pés sem comprar nada. Depois e mesmo que eu tivesse dinheiro para gastar, é bastante provável que não encontrasse por lá nada que me agradasse. Esta nostalgia para com as lojas de discos locais é muito bonita e ternurenta e coisa e tal mas o que é facto é que, não obstante os portes e as despesas de envio, é muito mais fácil obter um disco de que gostamos realmente a um preço acessível na eBay ou noutro site qualquer da Internet.
E tudo começou com um disco dos U2
Prefiro então homenagear aqui as lojas de discos à minha maneira, recordando alguns dos momentos mais marcantes da minha relação pessoal com elas. Tal como boa parte do pessoal da minha idade, a primeira banda de que me lembro de ter gostado foi dos U2. Tinha eu ainda os meus 10 anos quando me deixei apaixonar pela música melódica, romântica e idealista de Bono, The Edge e companhia – a milhares de milhas de distância da Pop politicamente correcta mas despida de alma que eles fazem hoje em dia. Como nunca tinha comprado antes um disco aproveitei o dinheiro que a minha mãe ou o meu pai – já não me lembro ao certo qual dos dois – me deram para oferecer uma prenda ao meu irmão pelo dia do seu 16º aniversário a 18 de Fevereiro de 1986. Foi então que me lembrei de presenteá-lo com o The Unforgettable Fire na expectativa de que seria também do seu agrado. Tudo num espírito de altruísmo fraterno, claro
O álbum foi comprado na loja de discos do Centro Comercial Kaué de Odivelas. Se me perguntarem, não tenho a certeza se essa loja ainda existe. Receio bem que não. Mas para falar com sinceridade, não sei nem me importa. Não sou saudosista. Alguns meses mais tarde comprei nessa mesma loja uma camisola dos U2 que pouco tempo depois acabou por se esfarelar toda. Continuei a ser um fã devoto dos U2 até 1993, quando eles lançaram o medíocre Zooropa. A partir daí o génio criativo dos rapazes deixou de ser o mesmo e eu optei por navegar para outros mares musicais.
Um outro episódio marcante da minha história com os discos foi por volta de 87/88, quando o meu irmão trouxe para casa o “nosso” primeiro CD, o álbum Calenture dos australianos The Triffids. Como eu já expliquei uma vez, naquele tempo ele vendia discos em segunda mão na Feira da Ladra. Na altura já era possível encontrar CDs à venda em lojas de discos de Lisboa mas infelizmente tivemos que esperar até Novembro de 1989 para que o meu irmão conseguisse juntar dinheiro para comprar uma aparelhagem com leitor de CDs, uma Pioneer que na altura custou 110 contos no Continente de Alfragide. É claro que o primeiro CD a estrear a aparelhagem foi o tal dos Triffids.
Dois ou três anos mais tarde, lembro-me muito bem foi de ter ficado extremamente chateado com o meu pai quando lhe pedi para me arranjar um emprego como part-time na loja das Amoreiras da Strauss. Ele conhecia o dono da empresa e frequentava regularmente o armazém deles na Quinta da Luz em Benfica onde se podiam arranjar CDs a preços relativamente baratos e alugar cassetes de vídeo. Fiquei furibundo quando ele me disse que eu era demasiado gordo e que nem sequer valia a pena falar com eles porque não estariam interessados. Acho que consegui ultrapassar o trauma – ou talvez não
A verdade é que na altura era mesmo muito gordo. No entanto, eu acreditava sinceramente que a oportunidade de desempenhar uma actividade relacionada com algo que eu gostava me iria fazer gastar menos tempo a pensar em comida. Foi preciso esperar mais de uma década para que isso viesse de facto a acontecer.
Rock N’ Roll saved my life
Um pouco antes disso ocorreu uma experiência muito curiosa. Era naquela altura dos meus 15/16 anos em que um pouco por influência do programa “Viva o Velho” do Pedro Albergaria na Rádio Comercial, estava a tentar expandir os meus horizontes musicais para além dos hypes e dos buzzs do momento – ora um ano Madchester, raves e house; ora noutro grunge, guitarradas e camisas à lenhador de Seattle… comecei por comprar uma colectânea do Jimi Hendrix chamada Cornerstones para atirar-me de cabeça ao Let It Bleed dos Stones sem conhecer nada deles.
Armado com O Guia do Rock do francês Philippe Bouchey (edição Pergaminho de Outubro de 1991), senti-me então finalmente preparado para enfrentar os Velvet Underground. Eu já sabia que queria comprar o CD do álbum com a capa da banana, aquele de 1967 com a Nico, e como a discoteca do Centro Comercial Palladium costumava ter estas raridades lembrei-me de tentar ver se eles o tinham lá. Qual não foi o meu espanto quando entrei na loja e um senhor já de idade estava precisamente a colocar a agulha por cima da versão em vinil do disco. Não sei o que é que ele deve ter ficado a pensar de mim quando eu lhe pedi meio a gaguejar o CD daquele álbum…
Outro caso semelhante de uma atracção quase mágica para com um disco ocorreu com o Loveless dos My Bloody Valentine, outro dos discos da minha vida. É engraçado porque eu gostei do disco mesmo antes sequer de o ter ouvido. Era difícil não reparar numa capa tão bela e misteriosa como aquela. E quando o ouvi pela primeira vez a sensação imediata que tive foi que era precisamente aquilo que eu estava à espera. Aquele som indescritível, aquele mar de melodias celestiais repleto de camadas e camadas de ruído e distorção condizia perfeitamente com o ambiente psicadélico captado na capa.
Já na universidade, por volta de 93-95, tive um colega da zona do Restelo que trabalhava na saudosa One-Off do Amoreiras Shopping Center – era assim que o centro era conhecido naquela época – em Lisboa. O tipo era mesmo parecido com a personagem do John Cusack. Ele delirava com todos os gigantes do rock clássico como Cream, Allman Brothers e claro, os gloriosos Led Zeppelin! Eu é que não tinha muita paciência para aquilo e achava isso tudo muito chato, muito sensaborão, mas prontos. A verdade é que ele percebia mesmo do assunto e tinha acesso a todas as novidades. Eu achava o emprego dele espectacular e claro, lá no fundo sonhava estar no lugar dele.
Esse foi o último grande momento de maior proximidade que eu tive com os discos. Nessa altura, também costumava visitar a Torpedo, uma minúscula loja de discos dedicada a sons mais alternativos e que inicialmente se situava no Centro Comercial Terminal, na Estação de Comboios do Rossio, mas que mais tarde passou para o Martim Moniz. A partir daí, tornei-me um maluquinho dos computadores e da Internet. Em Setembro de 94 eu e o meu irmão convencemos o meu pai a oferecer-nos um IBM 486 SX com um processador com uma velocidade de relógio de uns “estonteantes” 25 MHz. Um ano depois consegui arranjar um modem de 19,2 Kbps. Como estas “brincadeiras” da informática e das Nets ficavam algo caras, optei por deixar de gastar dinheiro com música.
Sinceramente, comecei a arrepender-me de diversas más aquisições anteriores e não queria continuar a cometer o mesmo erro de gastar dinheiro inutilmente sem ter informação suficiente que me guiasse nas minhas escolhas. É claro que mesmo para um fã de música independente como eu havia sempre a possibilidade de descobrir música nova através de estações de rádio como a XFM e mais tarde a Voxx ou a Oxigénio, os suplementos dos jornais como o DN Mais e revistas como a Op. Mas isso não me parecia ser suficiente para colmatar o meu desconhecimento.
Com a chegada do Napster então, deixei quase totalmente de comprar música (só para terem uma ideia: o último disco de originais que comprei foi a reedição de luxo de 2001 do What’s Going On do Marvin Gaye). Em parte devido a uma questão de escolha voluntária mas sobretudo – e como eu fiz questão de salientar no início – por necessidade. Por outras palavras: não é por culpa de pessoas sem recursos financeiros como eu que a indústria discográfica se encontra em tão mau estado.
Mas esperem aí: eu não sou o típico fã de música, não fiquem para aí especados a olhar para mim com esse olhar hipócrita recriminador! Quero com isto dizer que se as lojas de discos independentes querem voltar a reconquistar os clientes perdidos ou a atrair clientela nova elas têm que pensar nos interesses daqueles fãs de música que muito embora possam descarregar música de redes e sites de partilha de ficheiros, continuam dispostos a gastar dinheiro com ela, quer directamente através da compra de discos, quer indirectamente. Como Patrick Amory da Matador Records (Cat Power, Lou Reed, Mission of Burma, Mogwai, Sonic Youth, Times New Viking, Yo La Tengo) afirmou recentemente ao Hypebot:
Pagar pela música que se ouve é em 2009 uma opção, sendo a aquisição de música frequentemente expressão da intenção de pertencer (ou parecer pertencer) a uma determinada comunidade de pessoas.
As lojas de discos não se podem limitar à venda de música em pacote. Devem sim proporcionar uma experiência musical total que envolva o fã e que o faça novamente sentir em casa, servindo de ponto de encontro entre todos os melómanos bem como de local de contacto directo entre fãs e artistas. Mas para isso elas precisam de alterar radicalmente a sua estratégia.
Um exemplo do que eu estou a falar é a loja de discos Real Groovy Records de Auckland (Nova Zelândia) que, como podem ver neste vídeo que eu retirei do New Music Strategies de Andrew Dubber, vende não só vinis e cds (tanto novos como usados) mas também instrumentos musicais, gira-discos, sistemas de alta-fidelidade, mesas de mistura, consolas e videojogos musicais, revistas e livros sobre música, camisolas, pins e bilhetes, funcionando ainda simultaneamente como café e à noite sala de concertos. Será este o modelo que servirá de base às lojas de discos do século XXI? Eu acredito que sim. E vocês?
(foto de graciepoo e foto de el frijole segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0; foto de *USB* segundo licença CC-BY-SA 2.0)
Artigos relacionados:



{ 9 comments… read them below or add one }
Baita post! Muito legal o relato, Miguel. Eu também há muito não compro discos. Inclusive, um dos motivos, além dos que você citou no post, é que boa parte das bandas que tenho escutado liberam fonogramas na internet.
Mais uma vez te parabenizo por um ótimo texto e também pela qualidade do blog. E deixo o recado de que o BaixaCultura já publicou hoje o post disponibilizando o Steal This Film e a legenda em português.
Grande abraço.
Edson, valeu pelo comentário. Muito obrigado!
Abraços Atlânticos,
"ao contrario de ti", também não entro em lojas de discos à muito tempo, mas por uma razão igual à tua(falta de dinheiro), sei que se entrar acabaria por gastar o que não tenho, por isso evito as tentações. de qualquer maneira também não compro mp3 na net por me recusar estar a dar dinheiro por um ficheiro que não vale a qualidade que tem
Ai Miguel, bom demais este teu artigo. Me fez lembrar também das minhas aventuras atrás de discos para comprar, fitas para gravar… sou um pouquinho mais velho que você, mas a situação era a mesma que você, pois dependíamos de mesada de nossos pais para adiquirir os sempre caros discos. Meu primeiro disco foi me dado de presente em um dos meus aniversário em meados da década de 70 pela minha mãe – foi o Who's Next do The Who… antes disso ainda no início da década de 70 (acho que em torno de 74) eu curtia numa vitrola da minha tia, quando ia visitar meus avós paternos discos dos Secos e Molhados e Mutantes de minha tia, irmã mais nova de meu Pai. Passava os dias escutando aquilo… adorava. Oh! saudade!
Miguel, bom demais este teu artigo. Me fez lembrar também das minhas aventuras atrás de discos para comprar, fitas para gravar… sou um pouquinho mais velho que você, mas a situação era a mesma que você, pois dependíamos de mesada de nossos pais para adiquirir os sempre caros discos. Meu primeiro disco foi me dado de presente em um dos meus aniversário em meados da década de 70 pela minha mãe – foi o Who's Next do The Who… antes disso ainda no início da década de 70 (acho que em torno de 74) eu curtia numa vitrola da minha tia, quando ia visitar meus avós paternos discos dos Secos e Molhados e Mutantes de minha tia, irmã mais nova de meu Pai. Passava os dias escutando aquilo… adorava. Oh! saudade!
<span class="topsy_trackback_comment"><span class="topsy_twitter_username"><span class="topsy_trackback_content">record store day http://tinyurl.com/dn6opz</span></span&g...
<span class="topsy_trackback_comment"><span class="topsy_twitter_username"><span class="topsy_trackback_content">por detrás desta minha “casca” d pirata/partilhador inveterado esconde-se um grande fã d música q adoraria comprar http://tinyurl.com/d2sdx5</span></span&g...
Grande post Miguel! Eu finalmente comecei a minha coleccao de vinyl. Sendo um jazzman tenho visitado as lojas de Brighton quase todas as semanas, empoeirando os meus dedos a procura daqueles discos antigos, que embora tenha encontrado na net em formato mp3, nao posso deixar de querer em vinyl.
O livro Jazz Covers do portugues Joaquim Paulo, publicado pela Taschen foi o teaser final para que eu desse este passo. Estou a adorar, ate agora ja tenho cerca de 20 discos, sendo que o mais caro me custou 10 libras e o mais barato 3.
Dorothy Ashby, Donald Byrd, Freddie Hubbard, Horace Silver, Mark Murphy sao alguns dos artistas que ja constam na minha audioteca. Um destes dias vou passar musica num jardim
Na internet a minha loja predilecta <a href="http://www.dustygroove.com” target=”_blank”>www.dustygroove.com
Um abraco!
Não conheço quase nenhum desses nomes mas deixaste-me com a "pulga atrás da orelha". No campo do Jazz gosto bastante de Pharoah Sanders, Alice Coltrane, Albert Ayler e algumas coisas de Miles Davis mas tenho que alargar os meus horizontes musicais