Pensam que as netlabels e o netaudio são fenómenos de nicho tão insignificantes e à margem da indústria musical convencional que não justificam qualquer atenção por parte da investigação académica? Patryk Galuzka não é dessa opinião. Este polaco doutorado em economia (especialização em indústria culturais) e investigador no Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades bem como da Academia de Humanidades e Economia de Lodz decidiu observar de perto o universo das netlabels.
A 10 de Dezembro do ano passado, ele anunciou através da Phlow Magazine que estava a realizar uma série de inquéritos e entrevistas com representantes da cena do netaudio com vista a ficar a saber mais sobre as editoras de música livre online e promover a cultura associada a elas.
Agora, o Patrick disponibilizou novamente através da Phlow Magazine os resultados preliminares da pesquisa. E, diga-se de passagem, o nível de participação dos inquiridos foi bastante surpreendente tendo em conta as taxas de resposta normais para inquéritos realizados via Internet.
De Setembro a Dezembro de 2008 ele entrou em contacto com 650 netlabels, enviou 569 questionários e recebeu 339 questionários completos – o que dá uma taxa de resposta de 59,58 por cento. E o mais extraordinário é o facto de ele ter conseguido entrar em contacto com netlabels baseadas em 50 países espalhados pelo globo!
Apesar de não serem propriamente surpreendentes, os resultados desta primeira parte da pesquisa são bastante úteis precisamente porque provêm de um estudo rigoroso e académico que poderá abrir portas para outras pesquisas posteriores. Como seria de esperar, a Alemanha é o país com o maior número de netlabels (64), seguida pelos Estados Unidos (41), Espanha (25) e Itália (21). Portugal foi representado por sete netlabels – parece-me que o verdadeiro número é superior a isto, mas prontos…

E não haja dúvida que o fenómeno das netlabels é tipicamente europeu: o número de editoras online é no velho continente cinco vezes superior ao dos Estados Unidos e Canadá. Quanto aos géneros musicais, aqui também não há grandes surpresas: são os estilos menos comerciais como a electrónica, o experimental e o industrial e dark ambiental que dominam. seguidos mais de longe pela música de dança e indie ou alternativa.

Em termos de licenças escolhidas pelas netlabels para disponibilizar os seus lançamentos, as mais populares são de facto as Creative Commons para fins não comerciais (CC-BY-NC-ND e CC-BY-NC-SA). De realçar que apenas cinco por cento das editoras optam por uma licença tradicional de copyright do tipo todos os direitos reservados.

Essa escolha está, aliás, em sintonia, com o facto da grande maioria das netlabels se assumirem como organizações sem fins comerciais que visam distribuir música interessante. Os inquiridos consideram que a função de uma netlabel e consiste em distribuir gratuitamente ficheiros de música na Internet. O trabalho de promoção dos artistas e da sua música na Internet vem em segundo plano.

A postura contra o modelo das editoras comerciais fica aliás bem patente na resposta à questão de quais os parceiros com que a netlabel colabora: a grande maioria afirmou colaborar com outras netlabels, bem como com portais da Internet e ezines; contudo, apenas uma minoria extremamente reduzida declarou já ter colaborado com grandes editoras discográficas e distribuidoras.
Estes resultados referem-se apenas à primeira parte da pesquisa que o Patryck realizou. Neste momento, ele encontra-se ainda a realizar a segunda parte, com um cariz mais qualitativo. O PDF completo pode ser lido aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA.
Artigos relacionados:
- Netaudio.es – um encontro de netlabels para debater a “nova indústria discográfica”
- Emissão do podcast Netwaves de música livre dedicada às netlabels portuguesas
- Beats Play Free: uma noite 100% dedicada à música livre em Coimbra
- MP3 livre e grátis – os melhores de Janeiro segundo a Phlow
- RCRD LBL já abriu: é um blog, uma netlabel ou uma rede social?



{ 2 comments… read them below or add one }
Mais um excelente artigo sobre netlabels e netaudio.
Bom demais isso Miguel…