
Talvez por má vontade mais do que por manifesta incompetência ou não, o que é facto é que as quatro grandes editoras discográficas nunca souberam explorar convenientemente as iniciativas de música online lançadas em nome próprio. Foi assim no início do milénio com os serviços MusicNow e PressPlay que ficaram para a história como duas das piores plataformas online já alguma vez criadas e foi o que aconteceu também com o Ruckus e com a TotalMusic.
Lançado em Setembro de 2004, o Ruckus começou por ser um serviço de subscrição de música direccionado para os estudantes universitários norte-americanos que lhes oferecia a possibilidade de descarregar um número ilimitado de músicas em troca do pagamento de uma mensalidade.
Como esse modelo das subscrições nunca foi bem sucedido – a prová-lo está a compra do Napster pela BestBuy a preços de saldo e a venda do Yahoo! Music à Rhapsody -, em Janeiro de 2006 a empresa acabou com as assinaturas e passou a oferecer gratuitamente os downloads, passando então o sistema a ser financiado por publicidade. O grande inconveniente era que em ambos os casos todas as músicas se encontravam protegidas pela tecnologia de DRM do Windows Media pelo que todos os utilizadores tinham que renovar as suas licenças de 30 em 30 dias. Transferir as músicas para um iPod? Completamente impossível. Esta é, aliás, a razão do fracasso de todas as ofertas de subscrição de música.
Pois bem, de acordo com a notícia recentemente divulgada pelo TechCrunch dentro de alguns dias essas músicas nunca mais poderão ser reproduzidas. Os responsáveis pelo Ruckus publicaram recentemente uma mensagem no site com a seguinte mensagem: “Infelizmente, o serviço Ruckus irá deixar de estar disponível.” Segundo Janko Roettgers do P2P Blog, o Ruckus mantinha relações oficiais com 250 estabelecimentos de ensino superior nos EUA e afirmava contar com utilizadores provenientes de mais de mil instituições.
Mas na verdade a percentagem de estudantes que utilizavam o serviço em comparação com os que recorriam às alternativas ilegais devia ser bastante diminuta. Mesmo antes de ter sido vendido para a Best Buy, a Napster já tinha abandonado o mercado universitário.
As três reencarnações do TotalMusic
Nestes últimos anos, o Ruckus tinha passado para as mãos da TotalMusic, uma joint-venture lançada pela Sony Music Entertainment e pela Universal Music Group. Acontece que a TotalMusic também parece ter sido afundada pelas majors. Embora não exista confirmação oficial, o TechCrunch foi também neste caso o primeiro a dar a informação.
O percurso da TotalMusic é ainda mais atribulado. A primeira reencarnação da empresa esteve associada a um projecto de outro serviço de subscrição de música com DRM apoiado pela Universal mas desta vez direccionado para os telemóveis, à semelhança do Comes With Music da Nokia – que por sinal também tem sido um fracasso. Como o Departamento de Justiça decidiu desencadear uma investigação por abuso de posição dominante, as majors tiveram que fazer marcha atrás.
É aqui que surge a segunda reencarnação do serviço, na forma de uma plataforma de streaming gratuito destinada a disponibilizar música a outros sites. Só mais tarde é que se ficou a saber que um desses sites esteve para ser o Facebook. Mas, infelizmente, e apesar da Sony e da UMG terem convencido a EMI, a Warner quis ficar de fora. Por outro lado, o Facebook não estava disposto a entregar os dados dos utilizadores e uma percentagem sob as suas receitas publicitárias.
Mais recentemente, a TotalMusic passou por uma terceira reencarnação, desta vez sob a forma de um serviço de streaming e playlists de músicas denominado Tunepost que se encontrava associado a um widget que funcionava também como uma loja virtual.
Este sábado, Jason Herskowitz, o vice-presidente de Product Management da TotalMusic, confirmou no seu blog que as editoras cortaram o cano ao serviço justificando a decisão com as dificuldades económicas actuais. Heskowitz lamenta-se do estado actual do negócio da música online em que é impossível arranjar uma solução que seja do agrado de todos os envolvidos na cadeia produtiva da música, desde as editoras e aos artistas, passando pelos fornecedores de conteúdos e acabando no utilizado final, o fã de música. Embora ele não o diga explicitamente, as grandes editoras e a sua cobiça descomunal continuam a ser os principais obstáculos para que todos possamos chegar a esse estádio.
Na mesma entrada, Herskowitz aproveitou também para revelar algumas das suas mais recentes “brincadeiras”. Uma delas consiste num mashup denominado Friendp3 que combina uma lista de músicas que os seus amigos no Last.fm e no agregador de blogs de MP3 Hype Machine escutaram recentemente com um motor de pesquisa de MP3s que devolve essas músicas. Apesar da aplicação apenas funcionar com a lista dos seus amigos, seria bastante interessante obter algo do género para os amigos de todos os utilizadores. Mais interessante ainda seria um mashup baseado nos nossos vizinhos do Last.m. É claro que as editoras irão logo argumentar que a legalidade de mashups como estes é mais do que duvidosa mas a verdade é que os ficheiros se encontram disponíveis por aí, espalhados na Web.
O mais provável é que alguém pegue nas ideias de Herskowitz e tente montar um serviço financiado por publicidade. É assim que a inovação funciona. Através de um processo de cópia e aperfeiçoamento das melhores ideias. Mas as majors nunca defenderam a inovação, pelo contrário.
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{ 2 comments }
Entendo que as majors não desejam inovar porque o único caminho da inovação estaria em mudar seu modelo de negócio antigo e rentável no passado, coisa que mostram claramente, desde sempre, não estarem confortáveis em fazê-lo… pelo movimento que estão fazendo no mundo todo em prol da defesa de seu modelo de negócio (ações judiciais e agora acordo com ISPs) també prova que realmente não estão afim de mudá-lo…
A minha opinião sobre estes tipo de modelo de negócios estão claros aqui… http://www.pylemusic.com/blog/o-aluguel-da-musica… não acredito e nunca acreditei nestes modelos de aluguel de música e também nos modelos sustentados simplesmente e unicamente por publicidade…
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