
A concentração no mercado da música ao vivo poderá atingir o seu ponto máximo nos Estados Unidos – e por arrastamento, em boa parte do mundo ocidental… – se a fusão anunciada ontem pelo Wall Street Journal entre a Live Nation e a Ticketmaster se vier de facto a concretizar. Estamos a falar de, nada mais, nada menos, do que a maior promotora de concertos do mundo e da maior empresa de venda online de bilhetes para espectáculos ao vivo.
A notícia deve ter certamente apanhado muito boa gente de surpresa, tanto mais que no mês passado a Live Nation decidiu no mês passado lançar a sua própria divisão de venda de bilhetes na Internet. Esta era uma medida que a antiga subsidiária da Clear Channel – o maior grupo empresarial de rádio nos EUA – já estava a ponderar desde há algum tempo, uma vez que ela sabia que o seu contrato de dez anos com a Ticketmaster terminaria no final de 2008.
Desde há alguns anos que a hostilidade entre ambas as empresas vinha a aumentar de tom. Mas com a entrada da Live Nation no mercado da venda de bilhetes, muitos representantes do sector independente bem como fãs de música que detestavam a Ticketmaster por esta cobrar preços exorbitantes pensaram que isso iria trazer uma maior concorrência no mercado. Alguns chegaram mesmo a pensar que isso poderia representar a entrada em cena de mais empresas de venda de bilhetes e em consequência, uma diminuição do preço médio das entradas.
Mas a fusão agora dada como certa pelo Wall Street Journal vem arrasar com todas essas expectativas optimistas. Segundo o jornal, que não especifica bem qual a empresa que irá adquirir a outra -, a companhia a formar a partir da fusão entre as duas deverá chamar-se Live Nation Ticketmaster e tudo indica que o negócio não deverá envolver qualquer transacção em dinheiro.
É claro que uma fusão tão importante como está que poderá colocar boa parte dos concertos de música ao vivo de todo o mundo sob o controlo de uma única empresa deverá ger alvo de fortes reticências pela Comissão Federal do Comércio (FTC), a entidade reguladora encarregada de defender e velar pela livre concorrência nos EUA. Mas será que a FTC abrirá um inquérito antitrust à fusão? Essa é a opinião do executivo de uma editora discográfica contactado pela Reuters, que acrescenta ainda que a nova administração do Presidente Obama não deverá ver com bons olhos tamanha concentração num dos sectores mais importantes da indústria musical da actualidade.
Da mesma opinião não é Bob Lefsetz, que alerta para o facto da fusão não mudar grande coisa em termos práticos. De facto, a verdade é que a Ticketmaster já controlava o mercado de bilhetes ao passo que a Live Nation apenas tinha agora começado a entrar no sector. Mais ainda, porque caso o negócio se concretizasse ainda continuaria a haver uma importante promotora de concertos, a AEG Live, que anteriormente já tinha sido cobiçada tanto pela Live Nation como pela Ticketmaster.
Quem na sua opinião mais irá perder serão as editoras, uma vez que apesar de tentarem impingir contratos de 360 graus a todos os novos talentos, elas não têm arcaboiço para oferecer uma infra-estrutura de digressões e merchandising capaz de aliciar os artistas com um prazo de validade mais longo do que as bandas Pop que assinam com elas.
Como é óbvio, os fãs também não irão ganhar grande coisa com este negócio. Alguém gosta de pagar preços caríssimos pelos concertos? Se a concentração no mercado discográfico já era por si suficientemente forte com quatro empresas, o que dizer quando surge o risco de uma única empresa passar a dominar um mercado cada vez mais importante para a projecção e sustento de uma banda como o dos concertos?
(foto de DavidDMuir segundo licença CC-BY-NC-ND 2.0)
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