Todos os anos por altura do final de Janeiro, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) costuma divulgar um relatório com um balanço da evolução do sector da música digital no ano transacto que vem recheado de estatísticas destinadas a convencer os legisladores que a “pirataria” é uma praga incontrolável e que já ninguém compra música. Está de bom de ver que o objectivo da IFPI é convencer os governos de todo o mundo a obrigarem os fornecedores de acesso à Internet a cortarem o acesso aos “partilhadores”.
Assim, se a edição de documento de 2008 ficou marcada pela afirmação bombástica de que por cada música descarregada legalmente realizam-se 20 downloads ilegais, este ano a IFPI resolveu tirar da cartola mais outro número exdrúxulo: em 2008 mais de 40 de mil milhões de músicas foram “sacadas” da Internet sem autorização dos titulares de direitos, o que nas suas contas equivale a 95 por cento de todos os downloads de música. Parece impressionante, mas a verdade é que não encontramos nem no comunicado nem no próprio documento completo do relatório anual de música digital podemos encontrar uma explicação para estes dados.
Mais uma vez, a IFPI limita-se a avançar com um número sem sequer nos tentar convencer de que a metodologia empregue foi minimamente fiável. A única coisa que sabemos é que esta estimativa se baseia num estudo com a duração de três anos que envolveu mais de 16 países.
De qualquer modo, é preciso dar a mão à palmatória: a IFPI suavizou ligeiramente o seu discurso em relação aos anos anteriores. Já não se nota aquele tom tão hostil, repressivo e beligerante para com os fãs de música. Com a força dos factos, a associação representante das grandes editoras foi obrigada a tolerar – ainda que não de braços abertos – a cultura do grátis por intermédio dos serviços de streaming de música digital financiados por publicidade como o MySpace Music – ainda que estes apenas rendam pouco mais do que esmolas -, das subscrições de aluguer de música com DRM como o Nokia Comes With Music, o PlayNow Plus da Sony . Outro dado que teria sido um milagre há apenas dois anos atrás é a menção optimista da venda de música sem DRM através de lojas online como a da Amazon.
Parece-me, no entanto, que este discurso é mais uma postura fingida do que uma posição assumida com naturalidade, a avaliar pelas declarações de John Kennedy, presidente e director executivo da IFPI ao International Herald Tribune: “As pessoas precisam de ser forçadas a comprar [a música] em vez de a descarregar gratuitamente.”
Quanto às vendas digitais legais, essas vão bem de saúde: no ano passado os fãs de música gastaram mais de 3,7 mil milhões de dólares (2,8 mil milhões de euros) em downloads legais, o que representou um crescimento de 25 por cento durante 2008. Essa notícia cairia que nem ginjas para a indústria se não fosse o facto de em 2997 a subida ter sido de 30 por cento e de sector digital representar actualmente ainda apenas 20 por cento das vendas totais de música, contra 15 por cento em 2007.
No fundo, a IFPI chegou à conclusão que sem a ajuda de terceiros as grandes editoras não irão conseguir assegurar a sua sustentabilidade. A única opção realista que lhes restam é suplicar aos governos e aos ISPs que as salvem. Uma última nota: apesar do relatório não referir dados relativos a Portugal, pode-se ler por lá que o mercado digital do Brasil já é o maior da América Latina, tendo mesmo crescido para o dobro em 2008. As vendas digitais representam cerca de 10 por cento do total, sendo a sua grande maioria ringtones (80%).
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