Recapitulando (II): P2P

by Miguel Caetano on 12 de Dezembro de 2008

Depois de ter despachado a actualidade nacional na entrada anterior, passo agora a dar conta do que na minha opinião de mais significativo se passou no terreno do P2P e da partilha de ficheiros em pequenos pontos. Desde empresas que pretendem inundar as redes de partilha de ficheiros com lixo electrónico à “piratização” da Amazon, passando pela chegada do uTorrent aos Macs e ao encerramento da loja de vídeo da BitTorrent.com, muita coisa se passou durante a minha pausa forçada que convém aqui realçar.  Na próxima entrada, trato do que mais importante se passou na indústria discográfica e no domínio da Música 2.0.

Mais toneladas de spam nas redes de P2P, agora disfarçado de publicidade

A linha entre o famigerado lixo electrónico e os anúncios comerciais está-se a tornar cada vez mais fina e tende mesmo a desaparecer. Mas uma coisa é publicidade que acompanha os resultados de termos de pesquisa realizados em sites de torrents ou aplicações de partilha de ficheiros como o LimeWire ou o eMule. Isto é basicamente o que a empresa norte-americana Brand Asset Digital tem vindo a fazer desde há alguns meses com o seu serviço P2Pwords: uma espécie de Adwords do Google mas direccionado para o P2P em vez da Web.

Outra, muito diferente, é a tecnologia “revolucionária” AdMorph que a PeerMatrix de Toronto desenvolveu e que se trata resumidamente de uma técnica destinada a enganar os partilhadores de forma a levá-los a descarregar e visualizar anúncios pensando que se tratam de músicas ou filmes comerciais. Na verdade, o AdMorph limita-se a gerar um ficheiro falso de áudio, vídeo ou texto com exactamente o mesmo nome do termo de pesquisa introduzidos pelo utilizador. Apesar da aplicação ser gratuita, para ganhar dinheiro a PeerMatrix insere também os seus própios anúncios para além daqueles que os anunciantes decidirem incluir. Futuramente, a companhia pretende comercializar uma versão paga do programa que apenas irá distribuir o conteúdo do anunciante original. Podem ler mais pormenores no BetaNews e no TorrentFreak.

Não obstante centenas de spammers já recorrerem a este tipo de truques baixos há uma série de anos, o que é aqui de salientar é que a tecnologia da PeerMatrix se baseia num pedido de concessão de patente rídiculo apresentada pelo seu presidente Bernard Trest em 2006. Mais um exemplo da total estupidez do sistema vigente de propriedade intelectual. Como se não bastasse, o senhor Trest ainda tem a lata de dizer que o seu serviço é igual ao de qualquer motor de busca que recorre a publicidade. Seja como for, esta é mais uma boa ocasião para relembrar aqueles que costumam usar o LimeWire, eMule ou Shareaza que convém estar atento ao que se descarrega.

Apesar de tudo, os fieis do BitTorrent têm mais motivos para estarem descansados, pois os spammers são mais fáceis de detectar e sempre se pode utilizar a extensão Adblock para o Firefox de modo a bloquear os anúncios mais “indesejáveis”.  Contudo, isso não demoveu a TorrentAds, uma companhia britânica sediada em Cornwall, de lançar aquilo a que chama a primeira rede de publicidade do mundo destinada a trackers de torrents. Os seus responsáveis prometem mesmo CPMs de um dólar e asseguram que já contam com algumas das marcas mais reconhecidas da Internet – isto apesar de só ter assinado até agora com dois sites (Mininova e TorrentRelay)...

LittleShoot, o navegador que combina a Web com o P2P, chega à versão oficial

LittleShootJá tinha aqui falado do LittleShoot em Junho passado. Na altura, o serviço de partilha de ficheiros encontrava-se ainda em modo beta privado mas a versão oficial foi lançada a 21 de Novembro passado. Confesso que ainda não experimentei esta release mas a avaliar pelas referências no Mashable e no Lifehacker, parece que Adam Fisk, o responsável pelo projecto e um dos programadores originais do LimeWire, aproveitou para introduzir uma série de funcionalidades novas e melhorias.

Assim, para além de permitir a pesquisa e download de conteúdos do YouTube, o serviço de vídeos do Yahoo, Flickr, LimeWire/Gnutella, bem como dos discos rígidos de outros utilizadores do LittleShoot, a aplicação integra também o leitor de música do Yahoo de modo a que seja possível escutar automaticamente MP3s a partir do navegador.  Uma funcionalidade a ser incorporada em versões posteriores é o suporte para o Twitter. Assim, cada vez que fizermos o upload de ficheiros teremos a opção de tweetar um link para esses ficheiros. Vejam também a entrevista de Fisk ao Janko Roettgers do P2P Blog.

Pesquisa e download de torrents via iPhone facilitada

Soluções para quem pretenda descarregar remotamente torrents para um computador doméstico através do iPhone não faltam. Agora, uma aplicação Web promete facilitar ainda mais a tarefa. Baseada no WebUI do uTorrent, a aplicação recorre ao interface JSON do IsoHunt. Para além do telemóvel da Apple, funciona também a partir de qualquer telemóvel ou navegador da Web para desktops.

Tribunal dinamarquês confirma bloqueio ao Pirate Bay

O apelo do ISP Tele2 contra a ordem de bloqueio ao maior site de BitTorrent do mundo ordenada por um tribunal dinamarquês em Fevereiro deste ano não foi suficiente para evitar a confirmação da decisão da primeira instância por um tribunal de recurso. Quem deve ter ficado bastante satisfeito foi a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a entidade representante dos interesses das grandes editoras que teve a iniciativa de instaurar um processo. De qualquer modo, a Tele2 já anunciou que pretende levar o caso ao Supremo Tribunal.

uTorrent chega aos Macs

É verdade. Embora já andasse por aí a circular desde há algum tempo uma versão alfa não autorizada do popular cliente de BitTorrent, só no final de Novembro é que ficou finalmente disponível uma versão beta do uTorrent para os computadores da marca da maçã que pode ser descarregada a partir daqui. De momento, apenas é compatível para máquinas com o Leopard instalado e processadores Intel.

Os piratas invadiram a Amazon

Pirates Of The Amazon A ideia foi genial. Dois estudantes do mestrado em Media Design do Instituto Piet Zwart de Roterdão, na Holanda, lembraram-se de desenvolver como trabalho chamado Pirates of The Amazon no âmbito do projecto trimestral do curso uma extensão para o Firefox que na prática consiste num script do Greasemonkey que permitisse que os utilizadores descarregassem filmes, álbuns, videojogos, ebooks e séries de televisão do Pirate Bay a partir das páginas da Amazon correspondentes a CDs, DVDs e livros, bastando para tal clicar em “Download 4 free”. Quem não gostou nada deste mashup entre a Amazon e o Pirate Bay foram os advogados da empresa de comércio electrónico que enviaram uma intimação aos estudantes.

Em consequência, estes não tiveram outro remédio senão remover a extensão do site. Contudo, por esta altura já era demasiado tarde: o Ernesto do TorrentFreak, que foi o primeiro a divulgar a história, guardou uma cópia que pode ser descarregada a partir daqui. Para saber mais pormenores sobre as reais intenções dos autores do projecto, podem ler esta mensagem do professor Florian Cramer enviada para a mailing-list Nettime onde ele explica que mais do que uma paródia artística se tratou de uma crítica da cultura comercial e de massas. Eu por mim acho que dá bastante jeito pois costumo utilizar bastante a Amazon para obter opiniões dos utilizadores sobre livros e discos.

RIAA processa adolescente à espera de transplante

Justamente quando se pensava que a Associação da Indústria Discográfica Norte-americana, a famigerada RIAA, não podia descer mais baixo, fiquei a saber através do P2PNet que os advogados do lobby das discográficas processaram uma adolescente de 19 anos que sofre de pancreatite e que está à espera de um transplante de células, precisando por isso de ser hospitalizada uma vez por semana. De seu nome Ciara Sauro, esta residente de Pittsburgh, na Pensilvânia, não conseguiu defender-se em tribunal e arrisca-se agora a pagar multas no valor de oito mil dólares (seis mil euros) à RIAA por ter alegadamente partilhado 10 músicas online. Ciara, por seu lado, afirma estar inocente.

Sourceforge elege Shareaza para projecto do mês de Novembro

Estupidamente, a SPPF (Sociedade Civil dos Produtores de Fonogramas em França) recebeu luz verde da justiça francesa para processar o Sourceforge, o site que aloja várias aplicações de código-fonte aberto, de forma a ir atrás do Shareaza. Recentemente, a Information Week deu conta de que a RIAA francesa optou por perseguir o Sourceforge não só pelo mero facto do site alojar o Shareaza, mas também porque acha que os seus engenheiros estiveram envolvidos no desenvolvimento do software de partilha de ficheiros. Ah sim? Não me digam… E eu que pensava que o Shareaza era open-source. Os responsáveis pelo site é que não se ficaram com meias medidas e atribuíram ao Shareaza o prémio a projecto do mês, com direito a destaque na página de entrada.

BitTorrent.com encerra loja de vídeo online e reintroduz pesquisa de torrents

Pesquisa da BitTorrent.com
Tal como se previa, os problemas financeiros da BitTorrent.com e o actual clima de recessão económica que se faz sentir nos EUA levaram a companhia a fechar as portas à sua loja de vídeo online introduzida com grande pompa e circunstância em Fevereiro de 2007. Quanto a mim, creio que a grande razão do fracasso da plataforma residiu sem dúvida na utilização das DRMs impostas pelos estúdios de Hollywood. Em seu lugar, optaram por reintroduzir um serviço de pesquisa de torrents – uma funcionalidade baseada no motor de pesquisa Ask.com que será de certeza bastante do agrado dos partilhadores que preferem com certeza as alternativas grátis ainda que ilegais.

Estudo conclui que P2P custa quase cinco mil milhões de dólares anuais aos ISPs

Depois de ter estimado anteriormente que o valor monetário de música não licenciada partilhada a partir de redes P2P ascendeu no ano passado aos 69 mil milhões de dólares (54,60 mil milhões de euros), a companhia de estudos de mercado Multimedia Intelligence volta a avançar com outro número redondo que fará com certeza as delícias de todos os anti-piratas que querem cortar o acesso à Internet dos partilhadores.

Segundo os dados da consultora citados pelo P2P Blog, os ISPs norte-americanos gastaram quase 700 milhões de dólares (524 milhões de euros) em despesas operacionais apenas com o P2P durante este ano e 4,1 mil milhões de dólares (três mil milhões de dólares) em despesas de capital – isto é, na aquisição de novo equipamento para aumentar a capacidade das suas redes. Tudo somado, dá a quantia de 4,8 mil milhões de dólares (3,6 mil milhões de euros) E depois? Se o P2P desaparecesse de um momento para o outro, sempre nos restariam os sites de alojamento de ficheiros ou os serviços de streaming de vídeo e áudio.

Cliente de P2P FrostWire destaca artistas desconhecidos

Sean Fournier no FrostWire

Quem ainda acha que os programas e sites de partilha de ficheiros se limitam a facilitar a pirataria de filmes e discos convém pôr os olhos na experiência da FrostWire. Desde há algumas semanas que a empresa responsável pelo software open-source de P2P tem vindo a destacar o trabalho de artistas desconhecidos do grande público a partir do ecrã de entrada. Os utilizadores podem assim descarregar gratuitamente via BitTorrent os discos em formato digital disponibilizados segundo uma licença Creative Commons.

O primeiro artista escolhido para fazer parte desta iniciativa foi Sean Fournier. Em apenas quatro dias, o seu álbum Oh My de seis faixas foi descarregado mais de 29 mil vezes. Actualmente e mesmo tendo desaparecido do ecrã de apresentação do programa, o disco já conta com mais de 32 mil downloads – o equivalente a 1 Terabyte de dados transferidos. Quem quiser acompanhar os destaques escolhidos pela equipa da FrostWire pode visitar o blog FrostClick.

Quem também já nos habituou a promover novos talentos musicais é o Pirate Bay. Em Novembro do ano passado, os piratas suecos decidiram destacar os seus compatriotas Lamont na página inicial. Este Setembro foi a vez do rapper sueco Timbuktu.

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Recapitulando (III): Indústria Musical | Remixtures
15 de Dezembro de 2008 às 20:57

{ 5 comments }

1 Gil Brandao 13 de Dezembro de 2008 às 18:41

“Estudo conclui que P2P custa quase cinco mil milhões de dólares anuais aos ISPs”

Que parvoíce… a isto chama-se economia capitalista, mercado, procura e oferta, etc… coitadinhos do ISPs que tiveram de investir em infraestruturas para melhorar as suas redes, mas afinal estamos num mundo capitalista ou não? Não é este tipo de coisas que a teoria prevê precisamente como aspecto positivo? Inovação, concorrência e afins? mais um (in)argumento “espectacular” que aparece por ai…

2 dna 13 de Dezembro de 2008 às 21:23

Olá Miguel!

Antes de mais queria manifestar o meu contentamento por voltares a escrever, bem hajas!

Em segundo lugar, e em relação directa ao tópico “Os piratas invadiram a Amazon”, talvez te interesse dar uma olhada aqui. Basicamente é a mesma ideia aplicada ao Last.FM… (aceitam-se sugestões!)

Continuações de boas re-misturas!

3 Miguel Caetano 13 de Dezembro de 2008 às 23:29

@dna obrigado pela dica mas no caso do Pirates Of The Amazon a piada residia sobretudo no facto do script permitir “sacar” conteúdos comercializados pela maior empresa de comércio electrónico do mundo. Esse teu script para a Last.fm é engraçado mas pessoalmente dá-me mais jeito o dos tracker privados ;-) Já conheces o OinkPlus? Permite exactamente o inverso.

4 dna 14 de Dezembro de 2008 às 15:56

Ehe.. pois realmente na Amazon ganha outra envergadura.
OinkPlus não conhecia. Aliás, com muita pena minha, até hoje fiquei sempre à porta desses núcleos privados (não haverá uma chavezita para mim, que tanto gosto de bolachas? :D )…
Continuações!

5 Miguel Caetano 14 de Dezembro de 2008 às 16:28

@dna: inspecciona a tua caixa de correio ;-)

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