A cauda longa afinal é bastante curta

by Miguel Caetano on 26 de Dezembro de 2008

The Long Tail

A charlatanice de certos gurus da Web 2.0 tem penas curtas. Há uns dois anos toda a gente andava a apregoar loas a Cauda Longa, o livro de Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired que continha uma tese tão simples e banal como esta: O futuro do negócio dos conteúdos online está em vender menos cópias de um maior número de diferentes items. Desta forma, bastaria apostar nos nichos que o dinheiro acabaria por chegar, mais tarde ou mais cedo – e isto tanto para os retalhistas como para os próprios criadores.

Mas nos últimos meses, esta visão optimista e rosadsa da produção e distribuição de conteúdos tem vindo a ser arrasada com uma série de dados empíricos. Em Novembro, o economista Will Page da sociedade de cobrança de direitos de autor britânica MCPS-PRS divulgou os dados preliminares de um estudo segundo a qual 80 por cento das receitas de um serviço de música online provieram de apenas 52 mil faixas. Na altura, Chris Anderson reagiu às críticas afirmando que Page não tinha revelado a que serviço de música online é que esses dados se referiam mas que na medida em que o estudo foi elaborado em colaboração com Andrew Bud – fundador do serviço de música móvel mBox – tudo dava a indicar que se tratavam de downloads efectuados a partir do telemóvel, suporte onde as pessoas tendem a apostar menos em compras arriscadas.

Depois, um outro estudo baseado numa análise estatística do mercado discográfico francês entre 2002 e 2005 verificou que menos de 10 por cento dos CDs comercializados representaram mais de 90 por cento das vendas.

Esta semana, Will Page voltou à carga através de um artigo do jornal The Times onde revela um conjunto de dados mais pormenorizados retirados desse mesmo estudo. Os resultados são demolidores:

  • 10 milhões dos 13 milhões de temas disponibilizados online no ano passado no mercado britânicos não tiveram qualquer comprador.
  • Apenas 173 mil dos 1,23 milhões de álbuns disponibilizados online venderam uma cópia no ano passado.

Ou seja, 85 por cento dos álbuns não venderam nem uma única cópia. Tal como da primeira vez, Anderson voltou a acusar os autores do estudo de falta de transparência. Ainda assim, acrescentou que os mercados com bons filtros de recomendação e descoberta de música nova tendem a seguir o modelo de uma power law correspondente ao gráfico da cauda longa, ao passo que os mercados com filtros medíocres tendem a seguir o modelo de uma distribuição log-normal semelhante aos retalhistas das superfícies comerciais físicas.

Mas talvez o grande problema com a teoria original da cauda longa de Anderson é que ela pretendia ter alcance universal. Partia-se do princípio simplista de que a partir de agora as coisas passariam a ser assim em todo o lado e para todos os artigos. Ora, é bem sabido que receitas universais dão sempre mau resultado. A cauda pode de facto ter aumentado significativamente em comparação com há três ou quatro décadas atrás, como Seth Godin acredita. Mas em lugar de encarar esta transição como algo a acontecer já aqui e agora, devemos antes tentar perceber o quadro evolutivo do contexto cultural e cognitivo a longo prazo sem nos ancorarmos na banha da cobra impingida por um qualquer guru da Web 2.0. Dito isto, tanto os críticos como os defensores da cauda longa precisam de ser mais cautelosos e menos eufóricos/disfóricos. 

(foto de LarimdaME segundo licença CC-BY-NC 2.0)

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Cauda Longa FAIL? « papagoiaba
27 de Dezembro de 2008 às 6:42
Notícias do Front Baixacultural (8) « BaixaCultura
29 de Dezembro de 2008 às 14:58

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1 Ludwig Krippahl 27 de Dezembro de 2008 às 18:14

Eu suspeito que a cauda longa seja amputada pelo copyright. Com um sistema de remuneração baseado no número de cópias e na restrição ao acesso, cada pessoa vai preferir escolher o que já conhece ou o que considera melhor pelo que julga da publicidade.

Mas se remunerassem o serviço de criar as obras em vez do número de cópias penso que haveria mais motivação para procurar a diversidade e promover a inovação (o que já está feito é de borla; o que é preciso pagar é para que se faça coisas novas).

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2 Miguel Caetano 27 de Dezembro de 2008 às 19:27

Mas se remunerassem o serviço de criar as obras em vez do número de cópias penso que haveria mais motivação para procurar a diversidade e promover a inovação (o que já está feito é de borla; o que é preciso pagar é para que se faça coisas novas).

@Ludwig: umm, não sei se é bem assim. Os dados que existem em relação às redes de P2P são inconclusivos, mas o Top das músicas mais descarregadas de 2007 encontrava-se todo ocupado por nomes que ocupavam também a lista dos singles mais vendidos no iTunes. É claro que isso não quer dizer nada, uma vez que não temos acesso a dados totais. Seria interesante também verificar o que se passa com os serviços online de música grátis. Se calhar é precisamente por isso que as grandes editoras estão a tentar esmagá-los…

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