A indústria do P2P apoiou Obama. Mas será que Obama apoia o P2P?

by Miguel Caetano on 5 de Novembro de 2008

Hoje é um dia de festa e de comemoração, o dia a seguir à grande noite de eleições do país que era até há pouco tempo o mais poderoso do mundo. Por esta hora toda a gente já sabe que Barack Obama conquistou não só uma vitória esmagadora em termos de números de delegados mas também que o Partido Democrata aumentou a sua maioria na Câmara dos Representantes e roubou a maioria dos republicanos no Senado. Uma vitória total e absoluta de quem acredita na liberdade, na democracia, na igualdade de oportunidades e – por consequência – no P2P. A partir de agora, todos os norte-americanos vão ter paz, pão, casa, amor e felicidade. Vão poder fazer downloads de tudo e mais alguma coisa sem correrem o risco de serem ameaçados e tratados como criminosos.

Mas será mesmo assim ou as esperanças depositadas por um amplo leque de pessoas com os mais diversos interesses em Obama são infundadas? Não deverá esta euforia esfriar dentro de alguns meses, quando os primeiros impactos da futura nova administração se fizerem sentir não só junto dos cidadãos norte-americanos mas também dos cidadãos do globo que apoiaram esta campanha?

Para além das invasões hostis em países estrangeiros, do agravamento do aquecimento global e da poluição, da escassez de recursos essenciais como energia e água, da privatização e descuido total dos bens públicos em favor dos interesses de particulares, da exploração dos direitos dos trabalhadores e da precarização/flexibilização da mão de obra, das especulações financeiras e da corrupção que estiveram na origem da crise que os EUA e boa parte do globo está presentemente a atravessar, a política de defesa de propriedade intelectual seguida pela Administração Bush Jr. ao longo dos últimos anos tem também sido um motivo de grande discórdia dentro e fora de portas.

Como é sabido, as poderosas organizações transnacionais que controlam a maioria da indústria do disco, software e filme têm conseguido fazer da sua agenda política letra de lei graças ao apoio de elementos-chave do governo federal e de senadores, que são por isso mesmo financiados a peso de ouro por organizações como a RIAA das grandes editoras de discos e a MPAA dos estúdios de cinema de Hollywood. Daí o descalabro das dezenas de milhares de processos instaurados contra simples partilhadores que em muitos casos se viram obrigados a pagar avultadas indemnizações a empresas que deixaram de apostar na criatividade e no talento e só sabem viver à custa de um modelo de negócio tão dispendioso como obsoleto. Daí o clima de ameaça constante e permanente pairando sobre algumas das mentes mais brilhantes do nosso tempo que tiveram a ousadia de inovar e de criar ferramentas disruptoras.

Mas se a política de propriedade intelectual a adoptar pela futura administração Obama depender do apoio dos CEOs e outros altos dirigentes de empresas de software P2P concedido à campanha eleitoral do primeiro presidente negro dos EUA, então é bem provável que nos próximos tempos venhamos a assistir grandes mudanças, incluindo talvez – quem sabe? – a legalização da partilha de ficheiros protegidos por direitos de autor – OK, eu sei que isso é utópico, mas ao menos por este dia deixem-nos sonhar :-P

Seja como for, o que é certo é que grande parte da indústria do P2P financiou a candidatura democrata. De acordo com Janko Roettgers do P2P Blog que investigou os dados públicos divulgados pelo site OpenSecrets, Bram Cohen, o inventor do protocolo BitTorrent e co-fundador da empresa BitTorrent.com, doou 250 dólares a Obama mesmo antes do início das primárias que lhe permitiram derrotar Hillary Clinton. Para além de Cohen, mais outros dois funcionários da BitTorrent entraram com dinheiro, tendo contribuído com um total de mil dólares.

Quem também apoiou financeiramente Obama foram dois empregados da LimeWire que deram 550 dólares. O director executivo da Pando Robert Levitan dooou 2300 dólares a Obama durante as primárias, mais mil dólares durante a campanha eleitoral contra McCain. Mike Volpi, director executivo da Joost, doou 2300 dólares a Obama e os empregados da Vudu, uma empresa fabricante de set top boxes para P2P, cederam 1150 dólares. Mas os mais generosos foram mesmo os funcionários da Skype que doaram 10200 dólares ao candidato democrata.

Por seu lado, John McCain não parece tido grande apoio por parte de personalidades do sector do P2P, a não ser que contemos com Mitch Bainwol, director executivo da RIAA, que doou 2300 dólares ao candidato republicano.

A posição do big boss da associação que representa os interesses das grandes editoras discográficas contrasta com a de Dan Glickman, director executivo da MPAA, que financiou em cinco mil dólares a campanha do congresso democrata, de acordo com o TorrentFreak. Mas será que o apoio do “chefão” da organização que representa os interesses da indústria do cinema é assim tão surpreendente? A verdade é que não só Silicon Valley mas também Hollywood é um grande bastião azul (a cor do Partido Democrata em contraste com o vermelho que simboliza os republicanos).

Aliás, lá por Obama ter recebido tantos apoios por parte da comunidade do P2P nada indica que a sua administração venha a flexibilizar e liberalizar o já de si bastante apertado regime jurídico de propriedade intelectual vigente nos Estados Unidos e que tem servido de modelo para muitos políticos “macaquinhos de imitação” em muitas partes do mundo ocidental. Note-se aliás que a escolha de Joe Biden para o cargo de vice-presidente não augura nada de bom. Este senador do estado de Delaware tem um percurso político marcado por uma proximidade bastante comprometedora com responsáveis da RIAA e da MPAA e é conhecido por ter defendido um programa de mil milhões de dólares para vigiar as actividades ilícitas nas redes P2P. Nunca a máxima “nem tudo o que parece é” fez tanto sentido como no contexto da política contemporânea.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-ND 2.0 e pertence a baidheretic.

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