XKCD justifica a pirataria com a DRM

by Miguel Caetano on 14 de Outubro de 2008

Eu gosto das tiras do XKCD, mas às vezes acho que recorrem a argumentos demasiado simplistas e demagógicos para justificar os seus pontos de vista. A tira de cima é um exemplo claro disso. A esta altura do campeonato já toda a gente está farta de saber que a DRM é má para o consumidor porque prejudica os seus direitos sobre os conteúdos que adquiriu legalmente.

Mas será que isso pode servir de desculpa para recorrer ao P2P e àquilo a que geralmente se designa de “pirataria”? Quanto a mim, parece-me evidente que não. Porque hoje em dia as alternativas legais de música online sem DRM são bastante superiores às que existiam há um ano e meio atrás. Os norte-americanos em particular têm várias opções à escolha: Amazon MP3, Wal-Mart, Rhapsody… Todas estes sites comercializam downloads de MP3 sem restrições tecnológicas, dispondo de uma oferta muito mais abrangente do que o iTunes, que continua a contar apenas com o catálogo da EMI e de editoras independentes num formato desprotegido. Os europeus – incluindo os portugueses – também podem encontrar o catálogo das quatro grandes editoras discográficas do mundo na 7Digital.

A verdade é que desde há muito que a DRM deixou de poder ser usada como desculpa para copiar ilegalmente downloads de música e usar isso como arma de arremesso a favor da partilha de ficheiros começa a soar como um cliché demasiado fácil. Se se pretende defender o P2P, creio que existem argumentos muito mais poderosos do que esse, nomeadamente o facto dos downloads de música digital serem ainda comercializados a preços demasiado altos comparativamente com o custo efectivo de distribuição que, como todos nós sabemos, são muito inferiores ao custo de impressão e distribuição de um CD – ainda para mais se o protocolo empregue for o P2P.

Outro argumento poderoso é que boa parte das receitas vai parar não ao bolso dos artistas e compositores mas dos executivos das editoras que são simples “intermediários” que não estiveram de todo envolvidos no processo de criação, composição, gravação e produção do disco.

Por fim e mais importante do que isso, ninguém tem por si só um direito irrevogável e inalienável de cobrar pelo acesso a conteúdos online apenas porque dispõe do monopólio legal para o fazer. Lá porque a lei o diz, não quer dizer que tenha a legitimidade para o fazer. Uma coisa são suportes físicos offline que exigem investimentos avultados em capital que apenas um grupo restrito de pessoas dispõe, outra completamente diferente são suportes online onde a oferta é abundante e não escassa, precisamente porque os custos de produção e distribuição são bastante inferiores. Porque é bastante fácil fazer uma cópia e é quase impossível impedi-la. E isto aplica-se não só à música, como ao cinema, aos livros e à produção notíciosa/jornalística. Neste sentido, o recurso à DRM foi apenas uma mera tentativa frustrada da indústria cultural de adiar o inevitável.

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1 paula 14 de Outubro de 2008 às 13:12

Apesar de perceber as razões que apontas, continuo a achar esta tira muito boa. Não vejo esta tira como uma justificação para os downloads ilegais, mas antes como um alerta a como o DRM é mau (principalmente por causa da legenda em baixo)
A maior parte dos casos que apontas são nos EUA, mas mesmo a 7Digital não é uma opção.
Obviamente que se a Sony continua a meter DRM nos CD e nos DVD, ainda que seja possível comprar uma música, sem DRM, de um artista que esteja na Sony, na 7Digital, estás a dar dinheiro à Sony (que continua a meter DRM nos seus produtos) na mesma.
Em Portugal, ainda tens a situação caricata de se fores um utilizador de GNU/Linux não consegues ver legalmente um DVD que tenha DRM (provavelmente acontece o mesmo com os CD, mas estes não experimentei). A lei proíbe que neutralizes o DRM e as bibliotecas que podes instalar em GNU/Linux para ver esse tipo de DVD (tipo libdvdcss) actuam neutralizando essas medidas. A lei diz ainda que deves pedir à IGAC o acesso ao conteúdo, mas se os contactares depois de tentarem dar-te explicações mal amanhadas lá te confessam que não têm depósito de nenhum conteúdo.
Por isso acho esta tira muito certeira.

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2 Mamutti 1 de Novembro de 2008 às 18:02

Caso esteja interessado, há traduções para as tirinhas mais recentes do xkcd, incluindo esta, no blog onde participo.

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