No final da semana passada, ficámos finalmente ao corrente do mau estado da ex-quarta maior companhia discográfica do mundo. Com efeito, ser uma major já não é o que era, principalmente com o surgimento da Merlin, uma coligação de mais de 12 mil etiquetas indie.
O balanço de todas as maleitas encontra-se disponível num relatório de 101 páginas publicado recentemente pela Maltby Capital (via Coolfer), a companhia utilizada pela empresa de fundos de investimento Terra Firma para adquirir a EMI em Agosto de 2007.
O documento abrange todo o período referente ao ano fiscal encerrado a 31 de Março deste ano e permite-nos ficar a saber que a EMI perdeu 757 milhões de libras (937 milhões de euros) durante esse período. No anterior, as perdas tinham sido de “apenas” 287 milhões de libras (355 milhões de euros). Por seu lado, as receitas diminuiram 19 por cento, situando-se agora nos 1,45 mil milhões de libras (1,80 mil milhões de euros).
Um motivo de interesse adicional deste relatório é que lá pelo meio é possível encontrar pormenores deliciosos que dão realmente conta do descalabro a que a antiga administração da EMi tinha chegado como contas de táxi de 700 mil libras ao ano (861 mil euros). Alegadamente, a editora discográfica foi mesmo o quarto maior cliente de uma importante empresa de táxis londrina, ficando apenas atrás de três bancos de investimento. Estão a detectar as semelhanças, não estão? Anteriormente, já tinham surgido histórias de despesas no montante de 200 mil libras (perto de 250 mil euros) gastos apenas em “pequenas extravagâncias” como bebidas, drogas e prostitutas.
Para além disso, também é possível confirmar que cerca de 88 por cento dos artistas com contrato com a EMI nunca deram lucro para a companhia, tendo os 250 artistas mais vendidos representado mais de 75 por cento das vendas. Como se isto não bastasse, entre Abril e Maio de 2007 50 por cento dos CDs enviados para as lojas ficaram por vender. Se isto não é dinheiro estupidamente mal gasto… No entanto, a empresa garantiu que já começou a reduzir a produção de CDs.
Outro indicador bastante preocupante para a EMI é que a sua quota de mercado desceu de 12 para nove por cento durante este período. Observando mais em pormenor, podemos ver que as vendas físicas, sobretudo CDs, diminuiram 28 por cento durante o período, tendo as vendas digitais crescido 19 por cento. As receitas da EMI Music, a divisão de discos da companhais, desceram 23 por cento, ao passo que as da EMI Publishing subiram uns míseros dois por cento.
A incompetência ou desleixo da antiga direcção da EMI fica também patente quando ficamos a saber que as vendas de CDs da EMI desceram 45 por cento entre 2005 e 2007 face a uma descida média do mercado de 19 por cento. Será que é possível descer ainda mais baixo do que isto? Fala-se desde há alguns tempos da possibilidade da EMI se desfazer da sua divisão de discos para ficar apenas com o sector de Publishing que continua ainda a render (algum) dinheiro. Mas se contnuarem a sair mais artistas do calibre de uns Radiohead, Paul McCartney ou Rolling Stones, as coisas não vão ficar nada fáceis. E depois, quem é que no seu juízo perfeito quererá nos dias de hoje comprar uma gravadora que só dá prejuízo? Só se for um benemérito.
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível na Wikipedia.
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