Agora que a poeira suscitada pelo encerramento do Muxtape em resultado da pressão da RIAA e que surgiram vários herdeiros para ocupar o lugar deixado vago pelo site de partilha de playlists, o seu fundador Justin Ouellette decidiu quebrar o silêncio e contar tim tim por tim tim como tudo se passou numa longa mensagem deixada na página inicial.
No texto, o antigo funcionário do site de partilha de vídeos Vimeo narra a história do Muxtape, desde as suas origens ainda quando Ouellette era locutor de um programa de rádio na estação da sua universidade até à recente decisão de abandonar a mesa das negociações com as quatro grandes companhias discográficas e de relançar o serviço como uma plataforma para promoção de novas bandas sem contrato que pretendem estabelecer uma presença online.
Apesar de não o confessar directamente no texto, o relato de Ouellette comprova aquilo que já muitos sabiam: as majors estão dispostas a atolar todos os empreendedores que desenvolvem serviços de música online inovadores que possibilitam a descoberta de música nova por parte dos fãs com o máximo de burocracia e exigências técnicas e financeiras possíveis de modo a transformar esses sites licenciados em algo completamente desinteressante e chato.
Tudo é feito de modo a impor um sem fim de restrições obtusas e inundar os utilizadores com anúncios irritantes e intrusivos. Na opinião dos executivos das grandes editoras, só deste modo é que eles conseguem evitar o “roubo” da sua propriedade intelectual. Mas na verdade, ao agir deste modo eles estão apenas a contribuir para degradar a experiência do utilizador final e para, consequentemente, reduzir o número de visitantes ao fim do mês.
No caso de Ouellette, ele bem que tentou negociar calmamente algum tipo de acordo com as quatro grandes, mas quando o programador pensava que estava finalmente a chegar a algum lado a RIAA apareceu inusitadamente e acabou por estragar tudo, quando decidiu entrar em contacto com a Amazon para esta empresa lhe cortar o acesso aos seus servidores onde os ficheiros MP3 do Muxtape se encontravam alojados. No fundo, a RIAA agiu mais uma vez de livre vontade, independentemente das suas associadas.
A ideia com que se fica é que parece que a indústria discográfica possui uma personalidade esquizofrénica: enquanto a sua faceta “empresarial” está disposta a chegar a compromissos e entende que serviços como o MuxTape podem constituir simultaneamente fontes de receitas para os seus artistas e locais agradáveis de descoberta de música para os fãs, a sua faceta “legal” não hesita em intimidar, processar, extorquir… Como o Justin explica, chegará inevitavelmente um dia em que a indústria terá que domesticar a sua personalidade malévola de modo a assegurar a sua sobrevivência.
Uma coisa que não apreciei lá muito na mensagem é que Ouellette pretende utilizar o nome Muxtape para designação oficial do seu novo serviço, a tal plataforma que irá permitir que artistas sem contrato criem perfis e façam upload das suas músicas de forma a que os utilizadores possam façam streaming ou comprem downloads, quer no próprio site quer através de um widget próprio como este que pode ser inserido em qualquer página ou blog da Web.
Porquê utilizar o mesmo nome quando as funcionalidades e o espírito do novo serviço legal serão completamente diferentes ao que existia anteriormente de modo ilegal? Como já se viu com o caso do Napster, isso nunca dá bom resultado…
Nota: as imagens que acompanham este artigo estão disponíveis aqui e aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e CC-BY-NC 2.0 e pertencem a minorjive e Zach Klein.
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