Foi impossível não ter reparado. O evento especial “Let’s Rock” organizado ontem pela Apple em São Francisco inundou não só a blogosfera mas também a comunicação social. Mas por detrás do alarido, as novidades introduzidas pelo Tio Jobs não passam mais do que:
- Medidas de cosmética para retocar a linha iPod Touch que passa a ter um tamanho mais fino e um design bastante similar ao do iPhone, bem como uma bateria com maior capacidade (36 horas em vez das anteriores 22 horas de música), estando a partir de agora disponível em três modelos e não apenas dois (8 GB a 219 euros, 16 GB a 279 euros e o novo de 32 GB a 379 euros)
- Um novo iPod Nano de quarta geração disponível em nove cores, consistindo no design mais fino de sempre da Apple e cujo modelo de 8 GB custa 149 euros, ao passo que o de 16 GB pode ser comprado por 199 euros.
- Um novo iPod Classic de 120 GB disponível em preto ou branco com um custo de 249 euros.
Mas uma das notícias que foi mais ignorada por grande parte dos media e blogs especializados é que a empresa de Cupertino decidiu descontinuar o iPod Classic de 160 GB, o que quer dizer que 120 GB é o máximo de quantidade de dados armazenados que o gadget da Apple nos pode oferecer a partir de agora. Isto significa que Steve Jobs se está nas tintas não só para os melómanos que possuem grandes colecções de música e querem usufruir da possibilidade de acedê-la a qualquer momento e em qualquer lugar a partir do seu leitor de MP3 mas também para os que não suportam ouvir MP3s com bitrate inferior a 320 Kbps.
Contudo, o que me chamou inicialmente mais a atenção no evento de ontem foi o prometido lançamento do iTunes 8 que – tal como se esperava – incorpora uma nova funcionalidade de recomendação de música chamada Genius. Basicamente, esta tecnologia que pode ser acedida através de uma barra lateral própria inspecciona a nossa biblioteca de música e sugere-nos outros temas de artistas semelhantes ao que estamos a ouvir num determinado momento, dando-nos a possibilidade de adquirirmos essas músicas na loja do iTunes.
Dito assim, parece tentador mas a verdade é que existem muitas falhas neste “Génio” que Steve Jobs tirou da sua lâmpada mágica ontem à noite. Alguns sites e blogs compararam imediatamente esta tecnologia ao sistema de recomendação do Pandora, mas na prática a Genius não passa de uma versão desktop do motor de recomendação da loja do iTunes que recomenda músicas e artistas com base nas páginas que visitámos ou nas compras anteriores. A grande diferença é que neste caso são tidos em conta indicadores como o número de reproduções de cada faixa, o número de estrelas concedidos e as playlists que criámos. Para além disso, também podemos criar playlists com 25, 50, 75 ou 100 músicas que já dispomos na nossa biblioteca a partir de qualquer música.
Uma coisa que os mais ciosos da sua privacidade não irão de certeza gostar é que o serviço depende do envio de dados sobre as músicas que ouvimos e as nossas preferências musicais para a Apple – muito embora a empresa garanta que isto é feito de uma forma anónima e que apenas afecta os utilizadores que activarem a funcionalidade. Nos bastidores, os metadados da nossa biblioteca de dados são enviados para a Apple passando de seguida por um algoritmo de filtragem colaborativa à la “sabedoria das multidões” que compara esses dados com base numa série de categorias como Álbum, Artista, Nome da Faixa, Género Musical. Por fim, são então criadas uma série de listas similares para cada música tendo em conta o catálogo global e abrando apenas artistas do mesmo estilo.

Mas se alguém pensa que desta forma a recomendação de música passa a ser mais acessível, desengane-se: para activarmos a tecnologia temos que adquirir uma senha de identificação Apple ID que, por sua vez, só nos é fornecida se indicarmos um número de cartão de crédito. Agora comparem esta “acessibilidade” da Apple com a da Last.fm cujo registo apenas exige a indicação de um endereço de email válido. No fundo, a Genius está concebida de forma a servir apenas para as pessoas gastarem mais dinheiro no iTunes. Grande tiro no pé! Não é com este “jardim murado” que a Apple irá fazer com que as recomendações cheguem ao mainstream.
Por outro lado e a acreditar nos testes realizados por Paul Lamere do Duke Listens!, que é um especialista em tecnologias de recomendação dos laboratórios da Sun, até mesmo o desempenho da Genius deixa muito a desejar em relação à concorrência no que diz respeito a factores como relevância, novidade, alcance e transparência.
Nota: a imagem do iPod Classic de 120 GB que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e pertence a John Biehler. A imagem da barra lateral Genius do iTunes pertence a Paul Lamere.
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A questão aqui, em relação ao Genius, não é obrigarem-te a gastar dinheiro na iTunes Store, até porque para te registares não precisas de pagar nada e nem to cobram nenhum tipo de taxa, eu tenho conta e nunca comprei nada, nem uma música sequer, apenas porque ainda prefiro o suporte físico (CDs) como original, faz-me confusão pagar por um mp3. Eles desta forma, já o tinham feito com a questão das capas dos cds no itunes, conseguem imensos registos, que entram para a estatística. Técnicas de marketing…
Rui, eu não falei que o Genius obriga as pessoas a comprarem música no iTunes mas que está concebido tendo em conta esse objectivo final. Quanto a mim, é desnecessário a Apple pedir o cartão de crédito por “dá cá aquela palha”. Seja para obter as capas dos álbuns, seja para obter recomendações. Para além do mais, deste modo estão a desprezar uma boa parte do segmento dos fãs de música: os adolescentes que não têm cartão de crédito.
vc sabia q ão precisa necesariamente ter um cartão de credito pra ter um AppleID?
Como também referes no post, o Genius não se resume à barra lateral com links para a loja – acima de tudo, o Genius permite criar playlists com músicas que já estejam na tua library. Não conto utilizar a sidebar – que pode ser desactivada – mas as playlists geradas pelo Genius têm sido muito interessantes.