Warner Music remove discos do iTunes por este não vender apenas álbuns completos

by Miguel Caetano on 29 de Agosto de 2008

Tal como em muitos outros pontos do globo, o mercado discográfico norte-americano tem registado ao longo dos últimos anos uma tendência clara para a queda acentuada dos álbuns e  ascensão imparável dos singles. O grande responsável por esse subida do single tem sido o sector digital: durante o ano passado o aumento nos singles foi de 45 por cento ao passo que os downloads de álbuns apenas cresceram 10 por cento.

Há quem diga que o iTunes da Apple é o principal culpado pela redução da importância do álbum enquanto formato de consumo de músico na medida em que permite que os consumidores escolham apenas aquelas duas a três músicas – ao preço de 99 cêntimos cada uma – que valem realmente a pena das 10 ou 11 que compõem o álbum e impede que as bandas e editoras obriguem os fãs a comprar o álbum completo – só recentemente e passado um braço de ferro de cinco anos com a Apple é que os Radiohead permitiram a venda individual das músicas pertencentes a todos os seus álbuns de estúdio no iTunes.

É evidente que se o consumidor pode gastar apenas dois euros em vez de dez ou 15 e ficar igualmente bem aviado, ele irá optar por essa solução mais económica em detrimento da compra do CD físico ou da versão digital do álbum numa loja que esteja disposta a ceder às pressões das editoras como a Amazon. Quem não fica nada satisfeito com essa poupança proporcionada pelo modelo a la carte do iTunes são as grandes editoras e alguns artistas que marcam regularmente presença nos tops e que ainda acham que estamos em plenos anos 90 quando a indústria podia induzir os consumidores a comprar carradas de CDs a preços caríssimos recorrendo a uma estratégia promocional centrada no não lançamento de singles. 

Eles consideram que esse modelo acaba por prejudicar as suas vendas. Acontece que quem raciocina assim está rotundamente enganado. Vem isto a propósito de um artigo publicado esta semana pelo Wall Street Journal que recicla pela enésima vez o combate secreto entre as majors e o iTunes. Como não podia deixar de ser, o nome do rapper/rocker de country rap Kid Rock veio à baila. Há uns tempos, Kid Rock veio a público afirmar que decidiu boicotar o iTunes porque achava que os artistas não estão a ser devidamente pagos pela Apple.

Parece que a estratégia de Kid Rock e da sua editora Atlantic Records (subsidiária da Warner Music) correu bem, pois o seu disco Rock ‘n Roll Jesus vendeu mais de 1,7 milhões de cópias nos Estados Unidos desde o seu lançamento no final do ano passado. Mas a questão é que este álbum integra “All Summer Long”, uma música que já se tornou no hit de Verão das playlists das rádios norte-americanas. Se as faixas que compôem Rock ‘n Roll Jesus tivessem disponíveis para venda individual no iTunes, o mais provável é que a maioria das pessoas optasse por descarregar apenas esta música. Visto deste prisma, a decisão da Atlantic Records faz sentido.

O problema surge quando a Atlantic Records pretende alargar esta estratégia promocional que se revelou eficaz num caso pontual a outros lançamentos de artistas pertencentes ao seu catálogo. Na semana passada, a editora decidiu remover do iTunes o álbum Shine da cantora de R&B Estelle que tinha estado disponível para venda desde o seu lançamento há cerca de quatro meses atrás. Poucos dias antes, o seu single “American Boy” entrou no Top 10 das músicas mais vendidas do iTunes. Segundo o jornal, até então o álbum apenas tinha vendido 95 mil cópias.

De acordo com a Warner Music, esta remoção enquadrou-se num plano de estratégias de lançamentos digitais “adaptadas de uma forma única a cada artista e à sua base de fãs num esforço de optimização de receitas e no sentido de promover o desenvolvimento da carreira do artista a longo prazo.”

Mas será que essa medida se justificou? Nem por sombras. Na verdade, revelou-se um “flop absoluto”, de acordo com Chris Molanphy do Idolator: “Na mesma semana que o seu single ficou indisponível no iTunes, o seu álbum Shine caiu 24 lugares na tabela de vendas dos álbuns e registou uma redução de 16 por cento nas vendas de cópias (cerca de 4.200) do que na semana anterior.”

No fim de contas, as majors – e a Warner Music em particular – estão a todo o custo tentar novamente acabar com os singles. Tal e qual como o fizeram durante a década de 90, os anos dourados do CD em que conseguiram convencer os fãs de música a gastar dinheiro para adquirir uma cópia no novo formato dos mesmos discos que já tinham em vinil. É verdade que a história dessa Guerra aos Singles que Molanphy descreve no seu artigo comprova que a decisão de não lançar singles força um certo subsector da audiência composto por “labregos” a pagar pelo registo de longa duração.

E como Kid Rock deve ser muito apreciado pelos labregos do interior dos Estados Unidos para quem o P2P e os torrents são bichos estranhos ou crimes mais graves que a posse ilegal de armas ou a condução sob o efeito de álcool, a decisão de boicotar o iTunes até poderá fazer algum sentido. Afinal de contas, se essa gente não puder descarregar as músicas na loja da Apple o mais provável é que opte por comprar o CD apenas porque é o disco do tal tipo que está sempre a dar na rádio.

Mas na esmagadora maioria dos casos, trata-se de uma estratégia sem lógica nenhuma que apenas irá levar os fãs a descarregar o disco completo através de sites de partilha de ficheiros. Aliás, esta nova moda das editoras se recusarem a vender as suas músicas no iTunes ainda poderá vir a revelar-se uma excelente forma de promoção do P2P e dos torrents. Acordem para a realidade!! É impossível tentar controlar o circuito de distribuição da música como antigamente, como se o Napster não tivesse existido.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a Patrick Hartford.

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