Já ninguém confia nos críticos de música. Alguma vez confiaram?

by Miguel Caetano on 9 de Julho de 2008

De vez em quando lá aparece uma empresa de estudos de mercado com uma pesquisa que pretende supostamente demonstrar aquilo que já toda a gente sabia. É o caso da Avail Intelligence, uma consultora de comércio electrónico, que acaba de revelar através da Vnunet como se fosse uma grande novidade que cerca de oito em cada dez dos “consumidores” de música dispensam as críticas de profissionais em favor de recomendações encontradas em lojas de música online ou sites de redes sociais.

Para dar mais consistência à coisa, a peça refere que 40 por cento dos inquiridos disseram preferir descobrir música nova em lojas como a do iTunes ou aplicações de redes sociais como o iLike para o Facebook. Mas o método mais popular é mesmo o word of mouth, o “passa-a-palavra” ou “boca a boca” por parte da família, amigos e outros utilizadores.

Mas afinal de contas, dizer que a grande maioria das pessoas não liga às opiniões dos críticos de música não é propriamente revolucionário porque quase nunca ninguém se deu até hoje ao trabalho de ler as críticas de música de publicações especializadas, mesmo antes da massificação da Web. Mas o grande defeito deste estudo é mesmo a ligeireza dos dados apresentados. É que pelos vistos, nem sequer perguntaram aos inquiridos porque é que eles não gramavam os críticos. Por outro lado, os autores da pesquisa distinguem entre as recomendações obtidas das redes sociais das provenientes da família e dos amigos, o que não faz qualquer sentido uma vez que as pessoas com que nos relacionamos em sites como o Facebook são essencialmente familiares ou amigos. Para além, parece que para os consultores da Avail a rádio, a televisão, os videojogos ou a publicidade não existem.

Obviamente que o marketing viral é e sempre foi importante e que foi sempre apenas uma minoria de fãs de música que deu importância às críticas de música de publicações como o Blitz, a Rolling Stone, o New Musical Express ou – para usar exemplos mais contemporâneos – a Pitchfork ou o Metacritic. Mas esta pesquisa não explora em profundidade quais os mecanismos de funcionamento do marketing viral online. Limita-se a debitar lugares comuns acompanhados de algumas percentagens. O que faz com que duvidemos ainda mais destes dados é saber que a Avail Intelligence é uma empresa que, entre outras coisas, disponibiliza serviços Web concebidos para monetizar o word-of-mouth online.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e pertence a ario_J.

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diga cultura
9 de Julho de 2008 às 19:06

{ 2 comments }

1 xadoc 10 de Julho de 2008 às 9:48

Acho que este artigo (“The Pitchfork Effect – How a tiny web outfit became the most influential tastemaker on the music scene.”) também é interessante, Miguel http://www.wired.com/wired/archive/14.09/pitchfork.html

2 Miguel Caetano 10 de Julho de 2008 às 11:09

Boas, xadoc. Sim, a Pitchfork foi bastante importante para um pequeno nicho de apreciadores de música indie mas penso que gradualmente está a perder importância. O nicho indie está a tornar-se ligeiramente mais fragmentado com o aumento da popularidade dos blogs de MP3 e das redes sociais.

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