Os milenários, a música e a publicidade

by Miguel Caetano on 21 de Maio de 2008

Meet the Millennials

Há uma nova geração de consumidores de fãs de música que não se limita a ir aos concertos e a comprar camisolas. Na verdade, eles já quase que deixaram de comprar música sob a forma de um produto acabado. Para os nascidos após 82, a música tornou-se uma experiência omnipresente para a qual eles próprios podem contribuir em vários graus de profundidade: desde a simples atribuição de etiquetas a bandas no Last.fm até à elaboração de mashups e remisturas passando pelo simples acto de partilhar e recomendar música nova através de redes sociais e de partilha de ficheiros, assim como blogs.

Dentro deste contexto, torna-se cada vez mais difícil para o negócio da música monetizar os hábitos de consumo desta geração que cresceu habituada ao acesso permanente a computadores e à Internet, via redes Wifi. Para Terry McBride, o patrão da Nettwerk Music – a empresa que gere a carreira de Avril Lavigne e dos Barenaked Ladies – a solução passa por associar as bandas às marcas.

No âmbito da conferência de apresentação do relatório Meet The Millennials que ocorreu na semana passada durante o Festival Great Escape de Brighton, McBride chegou mesmo a afirmar que não demorará muito para que apareça a primeira banda patrocinada pelos Doritos, de acordo com o que Andrew Orlowski escreveu no The Register. É um facto que a publicidade é cada vez mais uma importante fonte de receitas para muitas bandas – até mesmo as do circuito independente.

Um artigo recente da Rolling Stone refere que apesar do último disco dos norte-americanos Spoon apenas ter vendido 250 mil exemplares, a banda conseguiu compensar o fraco desempenho do álbum nas tabelas de vendas através de uma série de negócios complementares como o licenciamento de músicas para filmes e programas de televisão e um anúncio da Jaguar. Segundo a peça, uma banda estreante pode receber 2500 dólares por cada acordo de licenciamento, ao passo que uma banda estabelecida chega a receber 250 mil dólares por cada comercial televisivo.

Mas será que o modelo da banda como marca é a única solução? A avaliar pelo relatório encomendado pela organização MusicTank* a McBride e ao seu colega Brent Muhle não existe outra alternativa para um grupo que queira sobreviver à custa da música senão vender-se a uma grande multinacional. Os autores acreditam mesmo que no futuro a música será grátis ou quase grátis – pensem música financiada por publicidade, subscrições mensais, micromonetização de recomendações através de redes P2P -, pelo que os direitos de autor deixarão de representar dinheiro em caixa – como se antes representassem…

Resta saber se é possível “estabelecer uma relação emocional e autêntica” que tire partido das redes sociais quando o artista se vende descaradamente à empresa que lhe atirar mais dinheiro. McBride e Muhle acham que existe um ponto de equilibro entre a imagem de autenticidade de uma banda e os benefícios materiais derivados da participação em campanhas publicitárias.

A minha opinião quanto à polémica relação entre música e publicidade tem divergido muito ao longo dos últimos meses. Depois de ter tido conhecimento de diversas experiências de financiamento directo pelos fãs como as dos Radiohead, Nine Inch Nails, Marillion, Einsturzende Neubaten, etc. bem como de editoras comunitárias como a Sellaband e Slicethepie, creio que hoje tenho uma postura mais negativa a este respeito. O recurso a parcerias com marcas é muitas vezes a solução mais fácil e cómoda. Se os artistas não tiverem cuidado, este tipo de relações perigosas pode minar a relação com os fãs.

* o documento não está disponível para acesso gratuito, mas o António Leite teve a gentileza de enviar-mo por email. O sumário executivo está aqui.

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