Conselhos para salvar a EMI: apostar nos nichos

by Miguel Caetano on 29 de Maio de 2008

Poderá o investimento em pequenas editoras subsidiárias especializadas em determinados estilos de música ser a solução para todas as angústias existenciais dos patrões das grandes etiquetas discográficas? Ian Rogers, antigo director da Yahoo Music sobre quem eu já escrevi aqui, acha que sim e recomenda que a EMI aplique essa receita de modo a que passe a funcionar como um símbolo de qualidade para os fãs de música que se inserem em determinados nichos.

Sendo a EMI a mais pequena de todas as quatro majors, Rogers acha que ela é a que tem menos a perder em inovar. Daí que tenha escrito uma carta aberta a Guy Hands onde aconselha o patrão da EMI a reconfigurar as suas subsidiárias em volta de comunidades de afinidade. E de facto, Hands parece ser bastante receptivo a novas ideias uma vez que até contratou recentemente um vice-presidente da Google para novo presidente da divisão digital da EMI.

Depois de recapitular as principais transformações ocorridas ao longo dos últimos anos em resultado da massificação das tecnologias digitais (ferramentas de gravação e produção de música cada vez mais baratas e facilidade de distribuição), Rogers acaba por concluir que hoje, mais do que nunca, as empresas necessitam de canalisar os seus recursos para o marketing.

O problema é que o marketing massificado passou a ter menos importância – será que é mesmo assim? -, pelo que ele considera que é essencial criar relações directas de confiança com os fãs. Mas poderá uma major desenvolver esse tipo de elo com o público de modo a que um artista veja vantagens em fazer parte do seu catálogo em vez de optar pela via da autopublicação?

Rogers acha que sim, mas apenas no caso dessa major conseguir converter as suas subsidiárias em mini-editoras totalmente centradas em determinados estilos de música de forma a funcionarem segundo um sistema de curadoria ou filtragem de bandas que digam algo a esse nicho. Este modelo de seleccionar o trigo do joio face à enorme quantidade de conteúdos em oferta tem sido empregue desde há várias décadas por inúmeras editoras independentes, bem como netlabels.

Da mesma forma que antigamente os fãs de música mais dedicados compravam imediatamente todos os novos lançamentos de uma 4AD ou de uma Factory que encontravam nas lojas de discos porque já sabiam que iam gostar desse disco, também hoje em dia muitos apreciadores de netaudio descarregam imediatamente todos os novos lançamentos disponibilizados gratuitamente de uma netlabel.

É evidente que, graças ao seu poderio de marketing, uma EMI poderia muito mais facilmente monetizar essa afinidade estabelecida com os fãs do que micro-editoras online. Mas parece-me que a esta altura do campeonato já é demasiado tarde para uma major enveredar por esta via da cauda longa. O comboio já partiu da estação há muito tempo.

O consumidor de música que atribui importância ao nome da editora da sua banda favorita é uma espécie em vias de extinção esmagada entre a grande maioria daqueles que descobrem música apenas através da rádio e os milenários da geração Y que devoram música por todos os cantos da Web, seja blogs, redes sociais, fóruns de discussão, YouTube, messaging, serviços de recomendação,

Só para referir o exemplo de uma das bandas citadas por Ryan Catbird num comentário à carta de Rogers para demonstrar que já praticamente ninguém liga ao nome da editora de um grupo: ao longo dos seus oito anos de existência, os Animal Collective já gravaram para cinco etiquetas (a sua Animal/Paw Tracks, St. Ives, Catsup Plates, Fat Cat Records e Domino). O que é que isto quer dizer? Não é a editora que importa mas acima de tudo o artista ou a banda.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a Santa Cruiser.

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