As 10 questões da Música 2.0

by Miguel Caetano on 13 de Maio de 2008

Dizer como será a Música 2.0 é como baralhar um baralho de cartas e escolher algumas à sorte

O Bruce Houghton publicou no Hypebot um Top 10 dos obstáculos que a Música 2.0 terá de enfrentar ao longo dos próximos anos. Achei a lista um excelente resumo do negócio da música a médio e longo prazo. É óbvio que é impossível traçar cenários que de alguma forma envolvam a Internet, dada a própria natureza volúvel da ecologia dos media da Rede mas mesmo assim tentei responder a algumas questões.

  1. A MORTE DO ÁLBUM - Os downloads de faixas individuais estão a matar o mercado do álbum e as receitas que este anteriormente garantia. Poderá o album ser salvo? Deverão os artistas lançar pacotes de uma a três faixas?

    RESPOSTA – Se é verdade que com o iTunes a obra de um artista deixou de estar “acorrentada” a um álbum, também é certo que as grandes máquinas de fazer dinheiro no negócio da música sempre estiveram associadas ao single. A fórmula da rádio sempre esteve assente neles. Com o surgimento da MTV no início dos anos 80, o videoclip voltou a dar a importância ao single que este tinha vindo a perder desde o final dos anos 60. Por outro lado, alguns dos discos mais vendidos de sempre foram compilações. O bom da Internet é que possibilita o florescimento de vários modelos que não se canibalizam uns aos outros. Os Nine Inch Nails ganharam milhões com o lançamento de Ghosts I-IV porque souberam tirar partido do valor do objecto tangível álbum.

  2. IMPOSTOS SOBRE A MÚSICA - Será que a resposta está em taxar a música ao nível do dispositivo e/ou do ISP? Ou serão estes impostos injustos, contribuindo apenas para reduzir ainda mais a confiança dos consumidores?

    RESPOSTA – No caso de serem impostos, é claro que a proposta será sempre mal recebida pela maioria dos cidadãos, em particular aqueles que não utilizarem o dispositivo em questão ou a Internet para acederem a músicas protegidas por direito de autor. Em vez de imposto porque não falar em licença – isto é, uma modalidade opcional (“opt-in”) para quem quer copiar e descarregar música?

  3. A MÚSICA COMO SERVIÇO - Costumávamos chamar a música de “produto”. Será que o pêndulo girou excessivamente nessa direcção? Ou é a música um serviço – subscrições, “Comes With Music”, licenças opcionais dos ISPs?

    RESPOSTA: Concordo quase inteiramente. As duas estratégias não são incompatíveis. A música pode ser disponibilizada “como se fosse grátis” – disfarçada sob a forma de um serviço – e fornecida como produto se oferecer experiências e sensações que a Internet não é ainda capaz de proporcionar convenientemente.

  4. MÚSICA MÓVEL - Será que vamos comprar e escutar mais música a partir de dispositivos móveis? De que forma é que isso afecta a música?

    RESPOSTA: As plataformas móveis não devem ser perspectivadas como uma “caixa negra” totalmente à parte da Internet. Graças ao Wifi e ao 3G, a Rede já é móvel. Dentro em breve, os utilizadores irão perceber que não vale a pena pagar mais pela música adquirida a partir de telemóvel. Face a este cenário operadoras, fabricantes e fornecedores de conteúdos não terão outra solução senão introduzir subscrições mensais ou serviços de acesso ilimitado acrescentados ao preço de venda dos terminais.

  5. NOVAS FONTES DE RECEITAS - Do YouTube ao Imeem passando pela We7 e pela Nokia, estão a ser geradas receitas por tudo quanto é lado. Quem daqui a 5 anos vai estar a distribuir esse dinheiro às editoras e de que forma é que essas receitas serão distribuídas?

    RESPOSTA: Esta é uma das questões de resposta mais incerta. Se as tendência actuais subsistirem, iremos com certeza assistir a uma consolidação do mercado em que apenas as grandes editoras irão ver esse dinheiro ou pelo menos grande parte dele. Os mais pequenos – artistas e editoras – acabarão por ficar com menos.

  6. MODELO DE NEGÓCIO NÃO IDENTIFICADO - Antigamente, as editoras discográficas ganhavam dinheiro a vender discos e as bandas a tocar ao vivo. Será que o futuro irá ser mais diversificado (NIN, Radiohead, contratos de 360º e parcerias com marcas)?

    RESPOSTA: Todas as pistas apontam nesse sentido. Algumas bandas – provavelmente as de maior dimensão – irão optar por concentrar à sua volta todos os sectores de negócio, outras acharão mais conveniente estabelecer sinergias com empresas comerciais, entre as quais as tradicionais editoras discográficas. Contudo, quanto mais controlo cederem, mais acabarão por cair na mesma situação de dependência típica dos contratos da era analógica.

  7. 1000 VERDADEIROS FÃS - Quer sejam precisos mil, 10.000 ou mesmo 100.000 fãs verdadeiros fãs, como é que descobrimos, relacionamo-nos com e monetizamos uma base de fãs?

    RESPOSTA: Não existe um modelo único, mas sim uma multiplicidade deles que variam consoante a sonoridade, a mensagem e a imagem estética construída por um artista.

  8. A ASCENSÃO DA CLASSE MÉDIA MUSICAL - Será que a fragmentação dos media e o aumento do défice de atenção significam a morte da superestrela? Quais serão as empresas que irão ganhar dinheiro a ajudar uma cada vez maior classe média de músicos com menos fãs mas carreiras de maior duração?

    RESPOSTA: vamos por partes. Uma coisa não invalida automaticamente a outra. Apesar da Internet e dos milhares de blogs de MP3, podcasts, fóruns e redes sociais, a rádio continua a ser a principal forma das pessoas descobrirem música nova. Mesmo se a rádio vier algum dia a tornar-se um media minoritário – o que é altamente duvidável a longo prazo -, continuarão a existir sites e publicações capazes de determinar os gostos musicais de milhões de pessoas. O mercado não vai passar a ser nem de perto nem de longe uma grande “causa longa”.

  9. A DEMOCRATIZAÇÃO DA DESCOBERTA DE MÚSICA - Antigamente, os DJs diziam-nos o que devíamos ouvir. Agora o que ouvimos resulta de recomendações de amigos ou somos nós que vamos à procura e partilhamos o que descobrimos. De que modo é que isso altera a forma como a música é promovida?

  10. RESPOSTA: redes sociais, widgets e blogs devem ser utilizados como ferramentas complementares aos recursos tradicionais de marketing de música como o CD-R enviado às rádios e o kit de media distribuído aos críticos de jornais e publicações especializadas.

  11. O PODER DO “AO VIVO” - Serão os concertos ao vivo mais importantes do que nunca, na medida em que não se pode copiar a experiência e que são um óptimo espaço para erguer uma comunidade de fãs e vender produtos? Ou será essa uma noção típica da Música 1.0? O Twitter é o bar/pub do século XXI?

  12. RESPOSTA: As actuações ao vivo continuam a ser as ocasiões indispensáveis para monetizar o trabalho de um artista. Se é realmente verdade que estamos a viver numa economia da atenção, então os concertos são a pedra de toque da relação dos artistas com os seus fãs. Se uma banda consegue atingir regularmente desempenhos memoráveis nos concertos, então terá todas as condições para transformar os fãs ocasionais em “verdadeiros fãs”. Quanto ao Twitter, sim, trata-se não só do bar como também do café, o intervalo para o cigarro, etc. Toda a banda deveria ter uma conta no Twitter não só para publicar links para o blog e vender bilhetes para concertos e músicas, mas também para durante algumas horas por dia interagir com o seu público.

NOTA: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e pertence a watz.

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{ 2 trackbacks }

diga cultura
14 de Maio de 2008 às 8:23
Excelente artigo sobre música 2.0 | Andrezero
15 de Maio de 2008 às 18:38

{ 1 comment }

1 Jorge vieira 14 de Maio de 2008 às 0:01

+ 1 bom post! ;)

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