Descomplicar a música digital

by Miguel Caetano on 14 de Fevereiro de 2008

É, eu reconheço: às vezes eu sou um bocado complicado quando escrevo e falo sobre música digital, “música 2.0″ e música online. Por vezes quem está mais embrenhado nas questões nâo tem a sensibilidade suficiente para fazer uma apresentação acessível e realista do que está realmente em questão para uma pessoa que não contacta diariamente com este “novo mundo” de MP3, iPods, P2P e MySpace.

Para mim, há muito que deixou de haver diferença entre o que alguns consideram ser o novo mundo e o “velho mundo”. Na verdade sinto-me no novo ecossistema digital como um peixe debaixo de água. Com isto, eu esqueço-me que há muita gente que continua a achar que a música é como um carro ou uma casa que pode ser roubada – na verdade acho como o David Bowie que ela é mais como a água… – que a música só é música se estiver em vinil ou em CD e vier com o selo de “qualidade” de uma grande editora. Mas é preciso descomplicar para que as pessoas que estão de fora não se sintam desconfiadas e percebam as vantagens da partilha e da abertura, para que elas entrem também na festa e não entrem de rompante, estragando o clima, impondo restrições sem sentido, querendo mandar em tudo e em todos como se as mesmas regras do “velho mundo” ainda valessem de alguma coisa.

Mas hoje eu encontrei um texto do Alexandre Matias no seu Trabalho Sujo que parte de uma reflexão sobre o In Rainbows dos Radiohead para chegar à futura condição da música em que os discos deixarão de existir. Coloco aqui alguns excertos para abrir o apetite mas o texto completo é de leitura indispensável justamente porque descomplica aquilo que para muitos parece bastante complicado:

Fora todo o papo ético, econômico, legal e criativo ao redor do lançamento de In Rainbows, o disco que o Radiohead disponibilizou ao público em versão digital, há uma questão semântica que, pela banda, parece estar mais bem resolvida do que com a gente, os ouvintes. Logo depois que o disco deu as caras era muito comum ouvir as pessoas falarem que “a banda vazou o próprio disco”, como se não só em MP3 não estivesse valendo.

(…)

A gratuidade da música com a era digital é fato. Basta digitar o nome de qualquer música em programas ou buscadores específicos na internet que você vai encontrar. O mesmo pode ser dito sobre filmes, programas de TV, quadrinhos e livros, mas em escalas menores. Música, eu já disse, é o boi de piranha das transformações. É quem encabeça primeiro os tremores de mudanças sociais e, inevitavelmente, acaba sofrendo com isso. O Radiohead resolveu pagar pra ver – ou pedir pra você pagar (…) Não sentiu – pelo contrário.

(…)

Mas e a música vai ser de graça? “O artista vai viver do que?”, me pergunta sempre um carinha da MPB ou um roqueiro camisepreta. Perguntas ainda sem resposta, mas se você baixa arquivos por um provedor de internet é provável que este seja quem melhor sabe quem está sendo ouvido, lido, assistido. O U2 já fez a sua parte, tornando-se o Metallica dos provedores de acesso ao ameaçar processar todos os servidores que contivessem material pirata do grupo irlandês. Não me assustaria se o final dessa história viesse com um aumento no preço da assinatura à internet no provedor de qualquer um como desculpa de repassar (aham) o valor para os autores das obras. Mas me espantaria se liberassem tudo de graça – que é o único jeito de dar certo na internet atualmente. Mas aí era bem fácil que as pessoas fizessem festas de computador (as famosas Lan Parties) só pra trocar conteúdo entre si. Ou seja: controle? Esquece.

Nota: a imagem que acompanha este texto está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e pertence a Simon Pais-Thomas.

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1 MrCool 15 de Fevereiro de 2008 às 9:59

Agora fiquei baralhado “- que a música só é música se estiver em vinil ou em CD e vier com o selo de “qualidade” de uma grande editora.” isto é mesmo o que pensas?

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2 Miguel Caetano 15 de Fevereiro de 2008 às 11:12

Agora fiquei baralhado “- que a música só é música se estiver em vinil ou em CD e vier com o selo de “qualidade” de uma grande editora.” isto é mesmo o que pensas?

Não, é claro que não. Mas isso é o que a maioria continua a achar, infelizmente…

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3 MrCool 17 de Fevereiro de 2008 às 10:23

acredita que li como 10 vezes… que susto!!!!! ahahahaha

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