
É o descalabro. Primeiro começou-se por dizer que eram mil, agora os jornais britânicos já dão como certo o despedimento de dois mil empregados pela EMI, mais de um terço do total do seu quadro de pessoal. Longe vão os tempos em que a major se dava ao luxo de gastar 200 mil libras (266 mil euros) por ano em artigos diversos como “fruta e flores” (eufemismo para bebidas, drogas, prostitutas e outras coisas mais…), de acordo com um artigo recente do The Economist sobre a decadência da indústria discográfica.
Agora Guy Hands, o director executivo da Terra Firma – a nova proprietária da EMI – quer pôr toda a gente na linha, inclusive os artistas que não cumprirem com o esperado. Os detalhes concretos da reestruturação interna da empresa serão anunciados amanhã nas reuniões da nova direcção com os funcionários mas Financial Times, Daily Telegraph, The Times e Wall Street Journal anunciam já que serão eliminados cerca de dois mil postos de trabalho, mais de um terço dos cerca de 5500 funcionários da editora em todo o mundo.
Os cortes irão afectar sobretudo a divisão de música registada em disco e destinam-se a reduzir as suas despesas de marketing. Mas os artistas não serão poupados, já que segundo Hands dos 14 mil artistas em catálogo, apenas 200 contribuem para a maior parte das receitas da companhia. Numa entrevista ao FT, Hands acusa a indústria musical de “enterrar o processo criativo em burocracia” e acrescenta que gasta 25 milhões de libras por ano (33,3 milhões de euros) a destruir CDs que nunca chegaram a ser comercializados.
Também na calha estão um novo esquema de incentivos com base nos lucros, um investimento adicional de 200 milhões de libras (266 milhões de euros) e a separação da empresa em duas divisões – uma ligada ao sector criativo do negócio e outra para o fundo de catálogo, responsável por 70 por cento dos lucros. Hands refere que esta última área “é um dos melhores negócios de edição no mundo. Não tem muito glamour nem é sexy. Não tem repercussão na imprensa mas dá dinheiro.”
A respeito dos Radiohead, a banda que abandonou a EMI no ano passado para lançar o seu novo álbum online com um preço minímo de zero, Hands acha que o grupo fez a escolhe certa: “Eles compreendem os seus fãs. Eles entendem que alguns pretendem a box set premium. Eu sou um dos que a comprou e pagou o preço máximo. O que os Radiohead mostraram à indústria foi que não existe uma resposta única pra todos os artistas ou para cada consumidor.”
Mas caso as medidas de reestruturação venham de facto à avante e o orçamento de marketing seja reduzido para metade, Hands arrisca-se a perder mais dois dos maiores nomes do catálogo da EMI, Robbie Williams e Coldplay. O primeiro anunciou no final da semana da passada que ia “entrar em greve”, tendo adiado o lançamento do seu próximo álbum. O grupo britânico também já ameaçou fazer o mesmo. Tim Clark, o empresário de Williams, acusou Guy Hands de se estar a comportar como um colonialista e de ter comprado a EMI num “gesto de vaidade”. Será Hands capaz de salvar a editora? Ou estará ele antes mais interessado em sanear as contas da empresa para a poder vendê-la o mais rapidamente possível a um preço razoável? A segunda opção parece-me mais viável.
Actualização (15 de Janeiro, 22h00): Tal como esperado, a EMI confirmou oficialmente que pretende despedir entre 1500 a 2000 empregados em todo o mundo ao longo dos próximos seis meses no âmbito do plano de reestruturação da divisão de discos. Segundo a editora, os cortes irão permitir poupar 200 milhões de libras (266 milhões de euros) ao ano. Entre as mudanças, incluem-se também um novo foco nas actividades de A&R (desenvolvimento de carreiras e descoberta de novos talentos), uma aposta redobrada em novas fontes de receitas como serviços digitais e patrocínios empresariais e parcerias com artistas
Nota: A imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY 2.0 e foi tirada por andrew stawarz
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