Da mesma forma que os investigadores Birgitte Andersen e Marion Frenz chegaram à conclusão de que os utilizadores canadianos de redes de partilha de ficheiros acabam por comprar mais CDs do que o público em geral, Maria Styvén entregou em Novembro passado uma tese de douramento em Administração de Empresas na Universidade Técnica de Luleå (Suécia) que aponta para o facto de que os utilizadores de P2P tendem a recorrer mais aos serviços comerciais de música online como o iTunes do que os não utilizadores. Mais uma vez, o estereótipo do pirata que se dedica alegremente a “roubar” música é deitada por terra.
Intitulada Exploring the online music market: consumer characteristics and value perceptions, esta pesquisa visou, como o nome indica, analisar as características-base dos principais tipos de consumidor de sites de música online e a sua percepção do valor deste tipo de bem intangível.
A tese envolveu um estudo quantitativo que implicou numa fase inicial a realização de entrevistas exploratórias com cinco indivíduos de diferentes sexos e ocupações, bem como uma análise de 537 comentários escritos pelos leitores em artigos sobre música online e partilha de ficheiros publicados entre Fevereiro de 2005 e Fevereiro de 2007 em publicações online suecas. Numa segunda fase, a investigadora enviou 2282 questionários a consumidores suecos entre os 16 e os 60 anos, tendo recebido 870 questionários completos.
A tese de Styvén resume algumas das preocupações mais frequentes sentidas pelos consumidores de música online. O principal problema reside no facto do valor atribuído à música descarregada da Internet é bastante baixo: Entre cinco a seis coroas suecas – entre 50 a 60 cêntimos de euro – por single, ou seja, metade do preço actual cobrado em lojas online. Parece-me, contudo, que este valor ainda seria bastante elevado para atrair um número suficiente de utilizadores.
É curioso que esta recomendação é exactamente oposta à de Ramon Casadesus-Masanell, professor de Estratégia nessa famosa faculdade de gestão e Andres-Hervas Drane da Universidade Autónoma de Barcelona num estudo conjunto em que sugerem que a indústria deveria aumentar os preços de forma a atrair os consumidores que estão dispostos a pagar devido ao congestionamento das redes P2P – isto, claro, se a oferta aumentasse significativamente.
Segundo Styvén, as empresas do sector poderão tentar aumentar a disponibilidade dos consumidores em pagarem mais se oferecerem mais valor através do recurso a benefícios como uma maior flexibilidade de utilização – mediante a remoção de todo o tipo de restrições digitais e DRMs que dificultam a livre utilização das músicas -, maior qualidade áudio e um catálogo.mais vasto. Outra preocupação dos consumidores consiste nos riscos à sua privacidade associados ao pagamento online com o cartão de crédito, pelo que a investigadora recomenda a adopção de métodos de pagamento alternativos.
Apesar destes e outros dados não serem grandes revelações por aí além – em particular o facto dos potenciais clientes dos serviços de música online serem indivíduos entre os 25 e os 45 anos, têm uma apetência por música superior à média e são utilizadores mais experientes – é sempre importante desmitificar certos mitos espalhados pela IFPI e pela RIAA de que quem descarrega álbuns via P2P compra menos música.
Contudo, acho que certos resultados não são extrapoláveis para os restantes países europeus. Não tenho dados empíricos que o sustentem mas parece-me que a popularidade dos serviços de downloads legais não é muito grande entre os verdadeiros melómanos, que continuam a preferir o objecto físico CD ou esse suporte fetiche chamado vinil.
(via Copyriot)
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-SA 2.0 e foi tirada por Pacfolly.
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