
David Byrne é para além de um dos músicos mais reputados no circuito independente/alternativo norte-americano um prestigiado pensador e blogger. Daí que a revista Wired tenha decidido incluir no seu mais recente número duas peças com Byrne. Uma delas é uma entrevista informal com Thom Yorke, o vocalista dos Radiohead – aquela banda responsável pela iniciativa que maior repercussão gerou na indústria discográfica em 2007 ao ter disponibilizado online o seu novo álbum In Rainbows segundo um modelo em que os fãs é que decidiam o quanto queriam pagar.
Na entrevista, Yorke confirma a Byrne que no que se refere às receitas geradas com a versão digital, a banda ganhou “mais dinheiro com este disco do que com todos os outros álbuns dos Radiohead em conjunto, desde sempre.” Outro dado a salientar é que os Radiohead geram grande parte do seu dinheiro com as digressões – tal como acontece, aliás, com grande parte das bandas e artistas que não são super-estrelas, ou seja, a esmagadora maioria. Contudo, Yorke admite que não gosta muito de digressões devido ao dispêndio de recursos ecológicos que acarretam.
Segundo Yorke, a ideia de lançar o disco segundo o modelo “você decide o preço” partiu do empresário da banda Chris Hufford, mas acrescenta que a única razão pelo qual a experiência foi bem decidida deveu-se ao facto do grupo se encontrar naquela altura sem contrato e dispor dos recursos para gravar e distribuir um álbum por si própria.
Apesar de realçar que o modelo não funciona para outras bandas que não possuem a mesma dimensão de culto global – o que não é bem verdade, pois existem vários outros grupos menos conhecidos em todo o mundo que recorreram com sucesso ao mesmo modelo embora a menor escala -, Yorke recomenda aos artistas que estão agora a começar que não assinem um contrato discográfico que envolva quantias avultadas mas que apenas irá fazer com que fiquem privados de todos os seus direitos digitais.

Este ponto é aliás salientado pelo próprio David Byrne num segundo artigo da Wired em que ele apresenta uma espécie de “guia de navegação” para os novos artistas que estão prestes a entrar nos mares revoltados da música digital. Byrne começa por identificar as mudanças ocorridas na indústria da música aos longos dos últimos dez anos (tendência para o custo de gravação, produção e distribuição de música registada em disco se aproximar do zero e concomitante aumento do valor dos concertos) e que estão a fazer com que as editoras discográficas sejam relegadas a um papel cada vez mais secundário.
Byrne caracteriza em seguida seis possíveis modelos de negócio à disposição de um artista nos dias de hoje, desde aquele característico dos contratos de 360 graus em ele cede todo o controlo sobre a sua obra a uma companhia em troca de uma quantia avultada e de responsabilizar todos os aspectos da sua carreira a outrem ao modelo DIY em que ele retém o controlo mas fica encarregado de tratar de tudo: concertos, distribuição, gravação, merchandising, licenciamento.
Apesar de concordar com quase tudo o que Byrne refere, é impossível não notar uma certa incongruência no seu pensamento. Como é que é possível que ele recomende aos artistas que retenham ao máximo os seus direitos conexos – relativos à difusão pública da música – e copyrights/direitos de autor depois de ter afirmado precisamente que o preço da música está a atingir um custo zero e que os concertos tendem a ser cada vez mais importantes? O que é mais importante é que o artista faça chegar a sua música ao maior número de pessoas possível. Só assim é que poderá cobrar mais pelo preço dos bilhetes dos concertos.
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