O MP3 e os iPods estão a matar a música Pop e outras histórias da carochinha

by Miguel Caetano on 15 de Setembro de 2007

Já começa a ser um hábito: volta e meia surge um artigo onde os engenheiros de som e produtores se queixam que a transformação do MP3 num padrão tecnológico em lugar do CD tem vindo a acarretar uma grande perda de qualidade da música que ouvimos devido à compressão do som original que esse formato implica. Provavelmente esses técnicos da indústria discográfica devem ter sido os mesmos eternos saudosistas que se lamuriaram pela deterioração provocada com a passagem do vinil para o CD.

Há algumas semanas foi o Público Digital que publicou um artigo de destaque sobre este assunto (não acessível online), chegando mesmo a incluir a descrição dos resultados de uma sessão de audição comparativa entre MP3, vinil e CD de Surfer Rosa dos Pixies e a Banda Sonora de Pulp Fiction em que foi pedido a um painel de não-especialistas que adivinhasse qual era o quê. Todos os participantes afirmaram notar uma diferença de qualidade em relação às versões MP3 dos álbuns. Mas o que é que seria de esperar de ficheiros com um bit rate, isto é, um nível de compressão, com uns medíocres 128 Kbps?

Por volta da mesma altura, o jornal norte-americano The San Francisco Chronicle lançou uma peça em que produtores como Phil Ramone se queixam de que os MP3s e outros formatos comprimidos representam menos de dez por cento da música original nos CDs. Na sua opinião, a razão porque os fãs de música não se queixam – para além, é claro, do facto da grande maioria não pagar nada… – é que já estão habituados a ouvir música nos auriculares brancos que vêm com os iPods e que oferecem uma experiência sonora abominável. Ou seja, para estes técnicos, todos nós já estamos tão habituados a escutar apenas os vestígios da verdadeira música que já nem damos conta disso. Daí que, de acordo com o jornalista, estejamos a viver numa “Idade das Trevas” da música gravada.

Mas segundo ele o MP3 não é o único culpado por esta situação trágica, pois o CD já continha apenas metade de toda a informação gravada nos estúdios!! Está-se mesmo a ver o que ele quer dizer com isto: “Não há nada que ultrapasse o velho vinil!”, em especial se estiver todo riscado, não é?

Na última semana o Wall Street Journal repegou no tema sob outro ângulo, dando a entender que os MP3s e os iPods estão a contribuir para nivelar por baixo a qualidade da música gravada em disco, uma vez que os engenheiros já sabem que o álbum não será tocado numa aparelhagem topo de gama, mas sim num leitor portátil ou, pior ainda, numa página do MySpace. O resultado é que muitos começaram a dedicar menos tempo a aperfeiçoar a qualidade do som de uma faixa:

“Actualmente, quando acabamos de gravar uma faixa a primeira coisa que a banda faz é transferi-la para um iPod para a ouvir”, afirmou Alan Douches, que já trabalhou com os Fleetwood Mac, entre outros. “Há alguns anos atrás, poderíamos testar o som num Walkman mas ninguém acreditava que isso era o melhor que podera soar. Hoje, os jovens artistas pensam que os MP3s são um suporte de alta qualidade e que o iPod é som topo de gama”.

(…)

Por exemplo, explica o veterano Skip Saylor, proprietário de um estúdio em Los Angeles, as frequências mais altas que podem parecer esplêndidas num CD poderão não soar tão bem sob a forma de um ficheiro MP3 e deste modo acabarão por ser removidas da mistura. “O resultado poderá ser razoável num MP3, mas não seria razoável num CD,” refere. “Estou satisfeito por fazer isto? Não. Mas é o mundo real e por isso temos que fazer ajustes.”

Do mesmo modo, a música produzida hoje em dia é registada num volume mais alto partindo do pressuposto que a música com som bem alto se vende melhor. Isso leva, contudo, a que no processo se elimine algumas das características distintivas da faixa. “Há dez anos atrás a música era mais quente; era rica e densa, com mais tons e mais poder real”, de acordo com o engenheiro Jack Joseph Puig (Rolling Stones e Eric Clapton). “Mas os discos novos são mais quebradiços e brilhantes. Têm aquilo que eu chamo de poder implícito. É tudo feito com delays, reverberações e compressão para enganar a nossa mente.”

O problema, segundo o autor do artigo, não reside na compressão dos dados usada para converter as músicas de um CD para ficheiros MP3, pois se apenas fosse isso bastaria que os utilizadores passassem a convertê-las para um bit rate de 256 Kbps pelo menos – embora 320 Kbps seja ainda melhor -, de modo a que com a passagem se perdesse o mínimo de informação possível. Outra hipótese seria recorrer a formatos lossless onde não ocorre qualquer perda de dados como o FLAC.

A questão reside no facto de, com o iPod a tornar-se no aparelho por excelência para ouvir música, os produtores e engenheiros terem adoptado como prática corrente a compressão do som durante a fase de masterização do disco por partirem do pressuposto que a música irá ser testada nos altifalantes de um computador portátil e ouvida pelos fãs em auriculares baratuchos no meio de contextos ruidosos. Tendo em conta o deficiente material de origem, a predominância de cópias com bit rate de 128 Kbps apenas contribui para piorar a situação…

O que este e os outros artigos do género não mencionam é que a música Pop foi durante muito tempo concebida para soar bem em auto-rádios, telefonias domésticas e rádios a pilhas, com uma qualidade de frequência modulada (FM – estéreo) ou mesmo onda média (mono). Para além de um substancial ganho de qualidade face a estes formatos inferiores, o MP3 bem como, em certa medida, os iPods oferecem aquilo que nenhum suporte anterior ofereceu: flexibilidade, conveniência e acima de tudo, facilidade de gravação e distribuição.

Nota: a imagem que acompanha este post está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e foi tirada por Captain Midnight.

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1 gilson 16 de Setembro de 2007 às 4:56

Mas, tudo se resume ao que o público da música pop quer ouvir. Concordo que hoje não existe exigência do público quanto a qualidade. Todos baixam arquivos da internet e ouvem em caixas de som ridiculas colocadas no computador. Mas, existe uma diferença incrível de qualidade entre os formatos. Sem sombra de dúvidas o que oferece melhor qualidade de som é o vinil. O problema é que o contato físico com a agulha desgastava o material. O CD parece melhor por conta do som limpo, sem os barulhos causados pelo atrito da agulha no vinil. E o MP3 é horrível. Serve apenas para ouvir no computador ou mp3 player. Embora antigamente o pessoal ouvisse músicas no carro e em rádios FM, nada substituía o prazer de pegar aquele vinil novo e colocar em um aparelho de som de qualidade. Mas, apreciadores de música com qualidade sempre vão existir.

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2 João Sérgio 18 de Setembro de 2009 às 16:33

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3 Cesar Cardoso 18 de Setembro de 2009 às 16:46

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4 Fábio Emilio Costa 18 de Setembro de 2009 às 16:53

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5 Mega Não ! 18 de Setembro de 2009 às 16:54

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6 Marcelo 18 de Setembro de 2009 às 17:09

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