Creio que com todo o que a Apple consegue gerar junto da blogosfera e dos media comerciais em cada lançamento de novos produtos, é quase um serviço público e um dever de sanidade e higiene mental tentar evitar ao máximo fazer qualquer referência à marca da maçã. Mas neste caso, a ocasião merece, porque não é todos os dias que uma empresa introduz no mercado um leitor de música portátil com capacidade para 16o GBytes com um preço de 349 dólares – os que possuem um “apetite” musical menos voraz poderão comprar o modelo de 80 GBytes por 249 dólares.
Como o “Tio” Jobs referiu ontem, “o primeiro iPod colocou 1.000 músicas no vosso bolso – este novo iPod classic pode colocar 40.000 músicas no vosso bolso”. Na altura em que foi introduzido, em Outubro de 2001, o iPod tinha um disco rígido de 5 GBytes e o seu preço era ainda por cima 50 dólares mais elevado do que o modelo actual. O salto tecnológico foi enorme.
Difícil é acreditar que quem comprar essas autênticas jukebox ultraleves irá encher os 160 GBytes com músicas e vídeos adquiridos legalmente em lojas como a do iTunes da Apple. Só um excêntrico é que gastaria 40 mil euros para carregar o seu iPod novinho em folha. E no entanto é nesse mundo de “faz-de-conta” em que as majors e as companhias discográficas em geral vivem. Elas não se convencem que os tempos são outros e que já não é possível levar as pessoas a desembolsar 99 cêntimos por uma faixa.
Enquanto continuarem a discutir assuntos tão mesquinhos como a eficácia ou não dos preços variáveis e das medidas de protecção tecnológica como a chamada DRM, as discográficas vão continuar a perder dinheiro para a Apple. Porque a música já não pode ser vendida à unidade, como produto, mas sim como um serviço que ofereça comodidade e flexibilidade ao consumidor.
Por outro lado, desengane-se quem pensava que a empresa do “Tio” Jobs ganha muito dinheiro com os downloads no iTunes. Os números adiantados ontem por Jobs confirmam-no: até hoje foram instaladas 600 milhões de cópias do iTunes em todo o mundo, tendo os consumidores comprado três mil milhões de faixas a partir da loja online. Isto dá uma média de apenas cinco músicas adquiridas legalmente em cada biblioteca do iTunes, isto é, menos de metade de um álbum: uma autêntica gota de àgua num vasto e imenso mar de faixas descarregadas ilegalmente de redes de partilha de ficheiros e outros locais da Internet….
E agora vem aí o iPod Touch , que apesar de ter uma capacidade bastante inferior ao modelo Classic ( 8 GBytes – 299 dólares; 16 GBytes – 399 dólares) incorpora algo que vem borrar ainda mais a pintura do cenário “cor-de-rosa” de plataformas fechadas e controlo absoluto sonhado pelas majors: o suporte WiFi (802.11 b/g). Com o acesso sem fios à Internet, a partilha fica completamente facilitada.
Deixa de fazer menos sentido andar com a discoteca inteira no bolso, pois é muito mais fácil copiar apenas o que se quer quando se quer seja do nosso computador pessoal, do computador de um “amigo” ou mesmo do iPod Touch desse nosso “amigo”. Música on-the-go, em todo o lado. É claro que a Apple lançou em simultâneo uma versão WiFi da loja do iTunes para tentar ganhar alguns trocos com aqueles utilizadores que costumam fazer compras por impulso e que não querem ter muito trabalho para obterem a sua música. Mas e os outros, a grande maioria suficientemente versada em tecnologia para desembolsar pelo menos 300 dólares com um gadget?
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