Freakonomics discute futuro da indústria musical

by Miguel Caetano on 21 de Setembro de 2007

FreakonomicsNum artigo de opinião publicado ontem no New York Times, Stephen J. Dubner, co-autor de Freakonomics, perguntou: “O que é que aconteceu de facto à indústria musical e como é que ela será daqui a cinco ou dez anos?” As respostas foram dadas por cinco personalidades que estão por dentro do negócio da música, quer como investigadores, quer como jornalistas ou profissionais da indústria.

Dos testemunhos recolhidos o que me pareceu mais interessante e completo foi o de Koleman Strumpf, professor de economia empresarial na Escola de Negócios da Universidade do Kansas e co-autor, juntamente com Felix Oberholzer-Gee da Escola de Negócios da Universidade de Harvard, do estudo “O Efeito da Partilha de Ficheiros nas Vendas de Discos: Uma Análise Empírica onde se coloca em causa a tese frequentemente promovida pela RIAA e IFPI de que a partilha de ficheiros está directamente relacionada com a descida das vendas de CDs.

No texto agora publicado por Dubner, Strumpf volta a sustentar o seu argumento e indica uma série de outros possíveis “culpados” para a descida das vendas – que, faz questão de lembrar, não é uma situação nova, assemelhando-se em sua opinião com o início dos anos 80. Se na altura as pessoas deixaram de comprar álbuns de disco sound, hoje é o pop adolescente que deixou de vender e até agora não surgiu nenhum género tão popular capaz de seduzir os consumidores.

Outra razão da redução de vendas reside, para Strumpf, nas medidas abruptas de reduções de custos tomadas pelas discográficas, como o despedimento de milhares de funcionários. Uma terceira hipótese elencada é a dificuldade crescente da música em competir com outros produtos de entretenimento como DVDs.

Mas a que parece à partida mais bizarra é o crescimento dos downloads digitais pagos. Se não há provas que demonstram que os utilizadores de P2P passaram também a utilizar o iTunes é bem mais provável que os consumidores de música que costumavam comprar álbuns inteiros passaram a pagar apenas pelo download de uma ou duas faixas, ou seja, a sua despesa desceu de 15-18 euros para 2 euros apenas. Embora pareça estranha, a ideia faz sentido.

Apesar de não adiantar quaisquer previsões, Strumpf recusa-se a aceitar a propalada morte da música registada em disco que alguns dão como iminente ao relembrar que os incentivos financeiros à criação de música nunca foram muito elevados. Outros parágrafos a recordar:

George Drakoulias, produtor e executivo de A&R da American Recordings:

Uma opção que não parece viável é tornar tudo gratuito e eliminar os direitos de autor. Tenho esperança de que alguém mais esperto do que eu apareça com a fórmula certa para fazer com que a música chegue aos consumidores da forma que eles querem e cobrar uma taxa a ser distribuída equitativamente. Espero que essa pessoa surja em breve.

Peter Rojas, fundador do Gizmodo e da rede de blogs sobre tecnologia Engadget, bem como co-fundador da RCRD LBL, uma companhia discográfica a ser lançada dentro em breve e que irá publicar música grátis financiada por publicidade:

A Internet, combinada com ferramentas digitais de baixo custo (ou mesmo custo zero), levou a uma explosão de criatividade, com milhões de amadores a criarem música em cada género, sub-género e microgénero concebível e a partilharem as suas criações online. Andrew Keen poderá menosprezar estes resultados e não há dúvida que 99,9 por cento da música criada hoje em dia é horrível; mas isso não é o que importa. Mesmo esse um décimo de um por cento significa que nunca nenhum de nós terá tempo para ouvir toda a boa música que está a ser criada – e isto sem tomar em linha conta toda a música “profissional” que ainda é feita hoje em dia. Muitos artistas profissionais estão a descobrir que, independentemente de a sua música ser ou não um sucesso de vendas, ainda são capazes de fazer uma boa vida só à custa dos espectáculos ao vivo, merchandising e licenciamento – e a Internet apenas lhes permite construir mais facilmente uma comunidade de fãs. São as Britney Spears do mundo que acabam por ser mais atingidas por toda esta mudança. A Pop fabricada industrialmente não funciona tão bem quando os consumidores têm melhores opções à escolha.

Steve Gottlie, presidente da TVT Records:

Independentemente de quem foi o responsável por esta confusão, se aceitarmos que a música grátis se transformou no modelo de consumo, então não nos resta outra escolha senão investir em serviços gratuitos financiados por publicidade de modo a tornar lucrativo este tipo de consumo. Este passo irá exigir paciência, capacidade de liderança e uma perspectiva a longo prazo. Depois de conceber uma forma de voltar a captar as receitas que está a perder, a indústria poderá então passar ao desenvolvimento de um novo formato seguro de ficheiros que ofereça áudio, metadados e outras funcionalidades adicionais superiores às dos MP3. Isto deverá ser uma tarefa fácil e irá conceder à indústria o acesso a MP3 grátis de “qualidade iPod” financiados por anúncios e produtos digitais de qualidade superior que possam ser vendidos directamente.

Bookmark e Compartilhe

Artigos relacionados:

  1. Tribunal alemão trava ataque da indústria musical contra o P2P
  2. França discute mecenato global para financiar cultura
  3. “Aprende com o Passado, Cria o Futuro”, Partilha
  4. Indústria discográfica australiana também quer caçar utilizadores de P2P
  5. Parlamento Europeu chumba planos da indústria discográfica para bloquear P2P

{ 2 trackbacks }

Estudo volta a analisar o impacto da partilha de ficheiros nas vendas de discos
1 de Outubro de 2007 às 18:40
P2P responsável por apenas 18% da descida das receitas do mercado discográfico
19 de Outubro de 2007 às 18:13

Comments on this entry are closed.

Previous post:

Next post: