Longe vão os tempos em que as grandes companhias discográficas se contentavam em ficar apenas com uma percentagem das vendas dos discos dos artistas. Enquanto a indústria do disco assiste a uma descida interminável das vendas, o negócio da música expande-se a olhos vistos. Ao mesmo tempo em que a partilha de ficheiros via P2P oferece o acesso imediato a toda a música que os fãs pretendem ouvir, por coincidência ou não os lucros obtidos com concertos ao vivo, venda de merchandising, publicidade e licenciamento têm vindo a registar um assinalável crescimento.
Neste cenário a música registada em disco começa a ser encarada pelos artistas como um veículo promocional para atrair mais público para os seus espectáculos ao vivo e vender mais camisolas. O que resta então para as tradicionais etiquetas que se dedicam a criar, fabricar, distribuir e licenciar as gravações se as bandas recorrem a outras empresas para todas as outras actividades que realmente dão dinheiro, quando não se encarregam elas próprias dessas funções?
A resposta está num novo tipo de contrato denominado de “360 graus” porque justamente abrange todas estas actividades em que até agora as discográficas não se envolviam. Estes contratos de direitos múltiplos ou de todos os direitos, como também são conhecidos, têm tido maior expressão em regiões como África, Ásia e América Latina onde a contrafacção de CDs é mais grave, como referiu o The Economist num artigo publicado em Julho.
Mas há sinais de que a tendência está a chegar à América do Norte e à Europa. A Original Signal Recordings, uma nova discográfica criada pelo Music Nation, uma rede social onde fãs de música independente podem escolher e votar vídeos de novas bandas, pretende oferecer aos seus artistas esse novo tipo de contrato discográfico (via Listening Post):
Os contratos da Original Signal assentam em quatro plataformas – gravações de música, edição, concertos e merchandising – que funcionam como sectores de negócio separados através de parcerias com empresas reputados como a Sony BMG [gravações de música], Bug Music [edição] e Chanser Merchandise [merchandising]. Estes acordos equitativos destinam-se a funcionar como uma parceria “amiga” do artista, estabelecendo várias fontes distintas de receitas para artista e etiqueta que, por sua vez, permitem o crescimento, evolução e desenvolvimento de uma carreira a longo prazo para os nossos artistas.
Até ao momento, a Original Signal conta no seu catálogo com três bandas: Blanche, The Barons e Something For Rockets. Do lado das quatro grandes majors, contudo, ainda são poucos os casos de artistas que aceitaram até agora assinar contratos 360º. Os exemplos mais conhecidos referem-se à EMI. Em Outubro de 2002 ofereceu a Robbie Williams 80 milhões de libras (115 milhões de euros) adiantados em troca de uma percentagem sobre todas as outras fontes de receitas. Mais recentemente, em 2005, foi a ver dos “metaleiros” Korn receberem um cheque no valor de 25 milhões de dólares (cerca de 18 milhões de euros) em troca de uma fatia nos lucros gerados pelas outras actividades da banda.
Mas a verdade é que as discográficas têm tido grandes dificuldades em fazer com que os artistas “mordam o isco”. De repente as condições do jogo mudaram, num contexto em que é cada vez mais barato gravar um disco, distribuí-lo aos seus fãs através do seu site, de uma página no MySpace ou do P2P e até vendê-lo, se pretender, nas lojas online de downloads legais. Mas não foi só para os novatos que as coisas se tornaram mais fáceis; também as vedetas já estabelecidas podem manter as relações com os seus fãs e comunicar directamente com eles. Daí que algumas optem por manterem-se ligadas às empresas tradicionais de gestão de carreiras de artistas.
Mas ultimamente as majors têm optado por uma via mais fácil e expedita de contornar a obstinação dos músicos, através da aquisição de companhias desse tipo. No final do mês passado, a subsidiária alemã da SonyBMG comprou a maioria das acções da MTS, uma empresa de representação de artistas, e da Bucardo, uma companhia de promoção de espectáculos. Em Junho, a Universal Music já tinha adquirido a britânica Sanctuary por uma oferta no valor de 44,5 milhões de libras (64 milhões de euros). Para além de ser uma discográfica, a Sanctuary representa também músicos como Elton John e Robert Plant, estando ainda envolvida na edição de música e na venda de merchandising.
Visto desta perspectiva, a era da Música 2.0 constitui um “pau de dois bicos”: se a Internet oferece aos artistas os meios para desenvolverem a sua carreira de uma forma DIY (Do It Yourself – “Faça Você Mesmo”), a estrutura económica em que o negócio tradicional da música se baseia privilegia uma consequente concentração do sector. E embora as etiquetas independentes também pretendam apostar nos contratos de 360º – durante a feira industrial Popkomm da semana passada em Berlim, Christof Ellinghaus, proprietário da indie alemã City Slang, chegou mesmo a dizer que esta era a única forma de assegurarem a sua sobrevivência -, o que é facto é que elas nunca irão atingir a dimensão e escala necessária para sobreviverem aos apetites vorazes de uma major.
O que é que isto tudo significa para um artista que começa agora a dar os primeiros passos na sua carreira e que ainda não têm um contrato firmado? Bem, talvez o melhor mesmo a fazer seja seguir os conselhos do veterano Dick Dale…
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