A marca de água volta sempre ao local do “crime”

by Miguel Caetano on 13 de Setembro de 2007

A marca de água digital – digital watermarking -, a tecnologia destinada a substituir a DRM como arma de combate contra a partilha de músicas online, promete cada vez mais ser a solução de todos os males de uns – companhias discográficas e retalhistas online – e o inferno de outros – bloggers, críticos e fãs de música. Em termos sucintos, a marca de água destina-se a proteger os direitos dos detentores de conteúdos através da identificação do proprietários originais dos ficheiros ou CDs que acabam por vazar ilegalmente nas redes P2P, com a vantagem de não impor quaisquer tipos de barreiras tecnológicas à sua livre distribuição

Assim, se na teoria o utilizador pode copiar a música ou o vídeo quantas vezes quiser para quantos dispositivos quiser, na prática a possibilidade de vir a ser posteriormente perseguido e acusado da difusão não autorizada da obra é suficiente para intimidar a consciência de qualquer um: “O Grande Irmão está sempre à vigiar-te”.

Infelizmente, as empresas da indústria informática tendem a manifestar-se menos preocupadas com a defesa da privacidade dos seus clientes do que em agradar às quatro grandes companhias discográficas (EMI, Warner Music, Universal Music e Sony/BMG), não hesitando em tornarem-se suas aliadas no combate à partilha de músicas. A Microsoft em particular tem vindo a desenvolver uma tecnologia designada Stealthy Audio Watermarking, tendo até no mês passado licenciado a sua marca de água à empresa Activated Content para a sua oferta de downloads de música financiados com publicidade personalizada.

Mais recentemente, a 4 de Setembro a gigante de Redmond foi agraciada com a patente número 7.266.697 pelo Organismo de Patentes e Marcas Registadas dos EUA. Na verdade, o pedido da patente foi apresentado em Maio de 2004 pelos investigadores Darko Kirovski e Henrique Malvar da Microsoft Research, o que quer dizer que a MS já andava a trabalhar na tecnologia desde há muito tempo.

Kirovski e Malvar garantem que a sua marca de água é mais robusta do que todas as outras soluções anteriores, na medida em que o sinal áudio inaudível ao ouvido humano que contém os dados de identificação não pode ser modificado ou retirado por terceiros, podendo desse modo subsistir a uma vasta gama de “ataques plausíveis”. Daí que não hesitem em qualificar a sua solução como um misto de “El Dorado” e “Santo Graal” da tecnologia de marca de água.

Mesmo sem a eficácia que a solução da Microsoft promete, o que é certo é que as marcas de água já começam a provocar alguns pesadelos a jornalistas, DJs, bloggers, promotores, distribuidores e outros agentes da indústria musical que por uma razão ou por outra costumam receber cópias promocionais das companhias discográficas. Nos últimos anos, estas últimas têm vindo a recorrer a este estratagema para evitar as fugas de novos discos antes do dia do lançamento oficial. Por vezes a coisa não resulta, mas quando resulta pode também dar para o torto…

Erik Davis, crítico de música em revistas especializadas como Blender e Arthur e autor da obra-prima genial TechGnosis, foi um dos apanhados nas malhas invisíveis desta nova tecnologia de controlo. Ele recebeu uma cópia promocional de The Flying Cub Cup, o segundo álbum dos Beirut, a banda-sensação da blogosfera de 2006, que só deverá estar disponível nas lojas a partir de 9 de Outubro. Semanas mais tarde, Davis acabou acidentalmente por vender o CD numa loja de discos usados.

Para seu azar, alguém comprou o disco e acabou por vazá-lo no dia 26 de Agosto para uma rede de partilha de ficheiros. Para seu duplo azar, esse CD continha uma marca de água digital, embora não o indicasse explicitamente e apesar do nome do jornalista estar inscrito no disco. Ben Goldberg, o proprietário da etiqueta independente Ba Da Bing!, conseguiu traçar a origem da fuga até à cópia de Davis graças à marca de água e em seguida deixou uma série de mensagens no voicemail do jornalista. Como Davis não estava contactável, Goldberg não pensou duas vezes e alertou por email todos os responsáveis de selos independentes e editores de media especializados da sua lista de contactos relativamente ao crime de lesa majestade cometido pelo escriba.

Em resposta, Davis escreveu um artigo no seu blog em que teoriza sobre os efeitos secundários não intencionais do controlo invisível das marcas de água da atitude paranóica que esta tecnologia poderá incutir no crítico de músico. No final, é mais uma vez a indústria discográfica que acaba por contribuir para aumentar a desconfiança por parte dos outros agentes do negócio da música:

How is anyone supposed to enjoy music after such an Orwellian negotiation! It is as if, as the loss of the physical storage medium continues to undermine the economics of the record industry, the industry is using the object to fight back. It sends humble scribes packages that speak, that has powers of command, that can manipulate behavior and—if you dare to rip it open—even grant pleasure.

Moreover, the watermarked disc itself is, in some informational sense, alive, or at least virally infected with the digital ghost of my life. When I let that Beirut advance slip out of my hands, a little piece of me went with it, a chunk of virtual identity that I hadn’t agreed for it to appropriate and that I didn’t even know about. Instead of the old informal economy of circulating copies of music, I had become enmeshed in an emerging and far more claustrophobic world of endless virtual contracts and licenses, a world where objects command and the turn against you, where music has become data, and enjoyment little more than the processing thereof.

Nota: A imagem que acompanha este post está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 e foi tirada por Atomic Q.

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