David Ferreira, o “Dom Quixote” do combate aos downloads

by Miguel Caetano on 30 de Julho de 2007

Depois de há cerca de mês e meio ter sido dispensado pela direcção ibérica da EMI, David Ferreira regressou agora à carga numa entrevista publicada na revista Única do semanário Expresso da semana passada onde vilipendia mais uma vez aquilo que chama de pirataria, isto alguns dias após a acção da PJ e da ASAE contra o BTuga.

Numa conversa em tom pessoal, quase intimista, o ex-director da EMI Portugal revela a sua mágoa por ter sido derrotado pela vitória do download ilegal e pelo encerramento da subsidiária portuguesa daquela companhia discográfica, com a passagem do centro de decisão para Espanha – todas as decisões estratégicas da EMI portuguesa envolvendo o catálogo nacional são actualmente tomadas do lado de lá da fronteira.

De acordo com David Ferreira, sobrinho de Valentim de Carvalho que começou na indústria discográfica a trabalhar na loja do tio na Avenida de Roma, em Lisboa, a vitória da “pirataria” representa “a morte da edição” e, consequentemente, “de uma parte substancial da liberdade”. Na sua perspectiva foram as empresas de telecomunicações que ocuparam esse espaço :

as telecomunicações ganharam um poder que não deveria ser delas. É um poder usurpado. E nessa autofagia saímos todos prejudicados. Só a estrutura do capitalismo financeiro impediu que as editoras de processar as telecom. A realidade é que não estamos perante a ilusão dourada de que se acabou com a propriedade privada. Dá-se cada vez mais importância á propriedade física e menos à propriedade intelectual. Continuo absolutamente convencido que uma dúzia de acções exemplares teria um efeito psicológico…

Considerando-se trucidado pela máquina do “capitalismo financeiro”, refere que este é um completo embuste:

Primeiro acreditou-se que se ia travar a pirataria por via da legislação. Depois achou-se que seria do ponto de vista técnico, com o sistema anti-cópia (…) O que nos pediram, sobretudo depois de 2001, foi que reinventássemos o negócio continuando a dar lucro de antigamente. Era a missão impossível.

Tal como muitos outros responsáveis da indústria, David Ferreira continua a acreditar naquela distinção ridícula e na prática impossível de distinguir entre downloader, o utilizador ingénuo que não sabe que está a prejudicar os artistas e a música quando “saca” impunemente discos das redes P2P, e o uploader, o grande vilão, o mau da fita. O seu desconhecimento sobre a realidade da tecnologia de partilha de ficheiros é tão grave que não tem dúvidas em proclamar que “muitos uploaders fazem daquilo um negócio”. Mais uma vez e para que conste: a maior parte dos programas e sites privados de partilha de ficheiros exigem que o utilizador contribua com uploads para poder descarregar os ficheiros.

E dizer que os uploaders ganham dinheiro com o P2P é uma afirmação sem cabimento quando verificamos que a música, tal como todo o tipo de informação, pode ser copiada um número infinito de vezes. Por mais difícil que isto seja de entender, a partir do momento em que a música é digitalizada o seu preço tende vertiginosamente a descer para zero. Quem, como no caso do BTuga, paga dinheiro para aceder a conteúdos ilegais fá-lo de livre vontade, por generosidade ou por desconhecimento. É que na verdade ninguém obriga nada a ninguém, ao contrário do que acontece no mundo da edição física tão prezado por David Ferreira em que o consumidor é sempre obrigado a desembolsar um preço cujo montante nunca pode variar para além de uma certa margem fixada pelas companhias discográficas.

Por último, se o poder das empresas de telecomunicações substituiu o domínio da tradicional etiqueta de discos, esse é sem dúvida um bom sinal não só para os consumidores mas também para os artistas. É que a liberdade de edição que o ex-responsável da EMI afirma correr um sério risco de desaparecer nunca esteve de tão boa saúde como nos dias de hoje em que existem dezenas de alternativas para um músico que não seja ganancioso e não queira ficar estupidamente rico de um dia para o outro dar a conhecer ao mundo o seu trabalho: MySpace, netlabels, Jamendo, etc.

Actualmente qualquer pessoa pode compor e produzir o seu álbum em casa a partir do seu laptop sem necessitar da “corte” de técnicos especializados de que a indústria da música dependeu até há cerca de uma década. É só pena que este “Dom Quixote” que lutou incessantemente contra os mil e um moinhos da terrível “pirataria” não se tenha apercebido disso antes em vez de se limitar a cantar a canção do desgraçadinho. Talvez tivesse impedido a sua queda se o tivesse feito antes.

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Remixtures » Blog Archive » Confirmado: Terra Firma fica com a EMI
17 de Novembro de 2007 às 15:43

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1 Mind Booster Noori 30 de Julho de 2007 às 17:28

1) A culpa do controle que a EMI faz da Valentim de Carvalho cabe a quem decidiu vender a Valentim de Carvalho à EMI.

2) David Ferreira diz que “as telecomunicações ganharam um poder que não deveria ser delas. É um poder usurpado. E nessa autofagia saímos todos prejudicados. Só a estrutura do capitalismo financeiro impediu que as editoras de processar as telecom”. O que ele se esquece aqui é de dizer que, nas últimas dezenas de anos, as editoras ganharam um poder que não deveria ser delas. É um poder usurpado. E nessa autogagia saímos todos prejudicados. Só a estrutura do capitalismo financeiro impediu que os autores e os consumidores processassem as editoras. Sim, porque esse senhor diz pertencer às editoras um direito que não é delas, os direitos de autor cabem aos autores, e os direitos dos consumidores cabem aos consumidores. As editoras fizeram sentido num cenário em que era necessário um intermediário entre os autores e os consumidores. Hoje em dia esse intermediário é cada vez menos necessário, os artistas chegam ao público de diversas outras formas, incluindo a Internet. Por isso sim, em certa medida a “vantagem” passou para as telecom’s, o que não faz delas “boas” nem “más”, muito menos “processaveis”. O mercado evoluiu, mas as editoras não souberam evoluir com o mercado. A Valentim de Carvalho, em termos capitalistas, não passa de um caso de uma empresa mal gerida. Fazer-se de vítima não vai em nada melhorar a situação do David Ferreira.

3) Ao dizer que “Dá-se cada vez mais importância á propriedade física e menos à propriedade intelectual” mostra simplesmente que esse senhor não entende a base dos dois conceitos de que fala: o da propriedade física e o da propriedade intelectual. Propriedade Intelectual é um termo meramente legal, definido pela OMPI, para que se possa ter um termo legal único que englobe vários conceitos diferentes, como por exemplo marcas registadas e patentes. Neste caso, David queria apenas referir-se aos Direitos de Autor.

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2 Alex 3 de Agosto de 2007 às 9:34

A verborreia mental fascista da RIAA agora com tradução em Português, desta vez por um ex oficial da industria.
Como bons Portugueses que somos, aprendemos rapidamente os maus exemplos que por la fora andam. Um discurso basico (ignorante) que exemplifica o infoanalfabeto que existe dentro destes senhores, que se desmonta facilmente como os comentarios anteriores o comprovam.

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