Lala.com: da troca de CDs para o streaming ilimitado de música

by Miguel Caetano on 5 de Junho de 2007

Lala.com

E de repente surge uma start-up que promete revolucionar por completo o mercado da música online. A Lala.com começou por ser um serviço comercial de troca de CDs físicos a partir da Web que remunerava os artistas mas agora lançou uma nova funcionalidade que oferece aquilo que nenhuma empresa conseguiu até hoje: o streaming ilimitado, gratuito e sem qualquer tipo de publicidade (pelo menos por agora…) de faixas completas e downloads sem DRM compatíveis com o iPod da Apple. De início oferece mais de 200 mil faixas do catálogo da Warner Music Group, graças a um acordo estabelecido com esta major. Neste lote incluem-se os novos álbuns de Wilco (Sky Blue Sky), Björk (Volta) e The Arctic Monkeys (Favourite Worst Nightmare).

Os serviços tradicionais de música online por assinatura como o Napster, Rhapsody e Yahoo! Music exigem o pagamento de uma quantia mensal em troca da possibilidade de ouvir um número ilimitado de músicas a partir de um leitor de desktop. Por seu lado, o iTunes apenas oferece excertos de 30 segundos para dar a conhecer a faixa antes de a comprar. A Lala vai mais além destes dois modelos ao disponibilizar a canção integral de graça na esperança de que o utilizador compre depois o álbum – tudo a partir de um qualquer navegador comum da Web.

Outra funcionalidade é um serviço que retoma o modelo original do MP3.com. Tal como o serviço de Michael Robertson que foi obrigado a fechar devido à pressão judicial das majors, a Lala permite que os utilizadores possam armazenar os ficheiros de música disponíveis nos seus discos rígidos num “cacifo digital” de modo a que os possam escutar através da sua conta a partir de qualquer dispositivo com acesso à Internet via navegador da Web. O upload é dispensável se empresa já tiver o CD nos seus servidores, sendo nesse caso esta a cópia utilizada. Os utilizadores podem criar, administrar e partilhar playlists ou até transferir as faixas para o seu iPod ou telemóvel, tal como se fosse o iTunes.

Mas tanta fartura não sai barata: a empresa deverá pagar cerca de um cêntimo em royalties por cada tema reproduzido à companhia discográfica detentora do copyright. Nos próximos dois anos a empresa prevê desembolsar 140 milhões de dólares só em taxas de licenciamento, isto partindo do princípio que o site irá atrair cinco milhões de utilizadores, adiantou Bill Nguyen, fundador e director executivo da Lala, ao New York Times.

Ganhar dinheiro à custa de downloads sem DRM

Então como é que a empresa pretende ganhar dinheiro para pagar essas somas exorbitantes? Através da venda de CDs e de downloads de álbuns completos no formato AAC sem DRM a partir do seu site que apenas podem ser transferidos directamente para um leitor portátil compatível – por agora a empresa exclui a opção de compra de faixas individuais. Os preços deverão variar entre 6,50 e 13,50 dólares por álbum, dependendo da procura pelo disco em causa e da colecção pessoal de música de música do utilizador, entre outros factores. Nguyen esclareceu ao Wall Street Journal que o sistema de preços deverá também funcionar como um programa de lealdade do cliente: quanto mais discos se comprar, menor será o preço final de cada nova compra.

Inicialmente, a Lala apenas facilitava a troca de CDs usados via Web. Segundo este serviço, para receber um disco pelo correio o internauta paga 1,49 dólares (já incluindo os 49 cêntimos de portes de envio). Desse montante, 20 cêntimos são alocados pela empresa a uma fundação em benefício dos autores e intérpretes. Actualmente, este negócio conta com 300 mil subscritores activos. Mais recentemente passou a propor rádios personalizadas. A ideia de introduzir a oferta de streaming surgiu quando os responsáveis pelo site descobriram que os utilizadores que criavam e ouviam mais rádios eram aqueles que mais compravam o CD em seguida.

Com este novo serviço a Lala lança assim uma oferta ambiciosa que promete transformar radicalmente o mercado da música online. É o tudo ou nada: se a aposta for bem sucedida, para além de mostrar que é possível competir com a partilha ilegal de música via P2P, a empresa poderá vir a disputar taco a taco o mercado com o iTunes da Apple. Caso contrário, a experiência poderá afastar outras start-ups das águas turbulentas da indústria musical. O que é certo é que a companhia já angariou cerca de 140 milhões de dólares em capital de risco. Resta saber quanto dinheiro será necessário para dar resposta às exigências faraónicas em termos de espaço em servidores e largura de banda que o streaming completo de centenas de milhares de músicas requer.

Actualização (6 de Junho): Mais uma vez Bob Lefsetz “descalça a peúga” e descobre que a Lala.com utiliza uma marca de água (watermark) permanente em cada faixa em formato AAC que vende para download e que associa essa música aos dados do cliente. Segundo John Kuch, um responsável da empresa, afirmou por telefone a Lefsetz, se o utilizador partilhar o tema com um “amigo” esse “amigo”não poderá escutá-lo. Isto a menos que a “posse” seja transferida para essa pessoa, mas aí será o comprador original que não poderá tocá-la.

Será que, como Lefsetz refere, este tipo de novos truques baixos (veja-se o caso do novo iTunes Plus) se insere num plano conspirativo da indústria musical no sentido de acabar com o CD a médio prazo? Afinal, tendo em conta que as músicas que acabam por parar nas redes P2P são quase sempre copiadas a partir de CDs desprotegidos, faz todo o sentido para as gravadoras matarem a fonte dessas “fugas”. Nesse caso, elas apenas estariam a repetir a canabalização provocada com o fim da edição comercial em vinil…

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