Festa da Música Portuguesa ou Elegia?

by Miguel Caetano on 20 de Junho de 2007

A iniciativa chama-se Festa da Música mas podia muito bem chamar-se Elegia da Música tal como a conhecíamos, apesar de ter a mui nobre missão de ajudar a promover a diversidade cultural e encorajar o debate sobre o futuro da música portuguesa. Isto porque este fórum criado pela FNAC no âmbito das comemorações do Dia Europeu da Música a 21 de Junho conta como convidados especiais alguns dos personagens que desde há décadas ocupam o palco principal do cenário musical português.

Um destes ilustres escolhidos é Tozé Brito, presidente da Universal Portugal e vice-presidente da Associação Fonográfica Portuguesa que ficou famoso por afirmar que a pirataria e os downloads de música financiam o terrorismo e o crime organizado embora ele próprio tenha anteriormente incentivado uma espécie de Terrorismo de Estado propondo-se colocar falsos ficheiros de música nas redes P2P para danificar os PCs dos utilizadores. Da sua contribuição:

O grande problema com que se debate a música portuguesa é acima de tudo o de falta de divulgação pelos media e obviamente, como toda a música, a pirataria, nomeadamente na net através de downloads ilegais. Este é na realidade o grande obstáculo para que os editores possam apostar muito mais em novas bandas e novos talentos, já que se a pirataria não desaparecer ou pelo menos não diminuir, a médio prazo ninguém investirá na gravação de novos artistas, o que levará inevitavelmente ao desaparecimento da nossa música gravada, já que os espectáculos ao vivo nunca tiveram tanto público nem nunca se ouviu tanta música como hoje. Mas infelizmente os accionistas das editoras são iguais a todos os accionistas, procuram retorno para o seu investimento, e se ele não existir irão investir noutras indústrias mais rentáveis.

Em jeito de conclusão, os editores que se prezam apostam na música portuguesa. Por quanto tempo mais, se a situação actual se mantiver é que resta saber. Por mim, no dia em que não puder continuar a investir na nossa música, mudo de ramo e dedico-me a qualquer outra actividade. Para importar albuns, canções, producto internacional acabado qualquer pessoa, mesmo surda, serve.

Este é um argumento já muito gasto uma vez que sendo a música um bem imaterial ela não tem fronteiras. As companhias discográficas independentes apostam em todo o tipo de música de qualidade, venha ela de onde ela vier. Algumas não subsistem, é evidente. Mas também é óbvio que hoje em dia ninguém com talento precisa de ver um disco editado em CD para ver a sua música chegar a todo o mundo. Se o senhor Tozé Brito estivesse atento ao que se vai passando pela indústria musical a nível global, verificaria que estão a surgir outros modelos de negócio com origem no mundo online mas não só. Serviços baseados em publicidade, doações via Paypal, merchandising, concertos, subscrições e assinaturas, patrocínios ou mesmo contrafacção de CDs são alternativas viáveis apresentadas por quem não se limita a proferir as exéquias fúnebres da música tal como estávamos habituados a consumi-la, em suporte fonográfico. Talvez por isso já não seja estranho quando surgem notícias como esta no Expresso do último Sábado, dia 16:

David Ferreira deixou o cargo de director da EMI Music Portugal e rescindiu com a multinacional discográfica, por proposta da direcção ibérica. Assim, foi extinto o posto de director-geral em Lisboa e as decisões estratégicas da EMI portuguesa, nomeadamente sobre o catálogo nacional, passam a ser tomadas em Madrid. David Ferreira, que presidia à Associação Fonográfica Portuguesa, é um dos principais rostos da indústria discográfica nacional, tendo começado na Valentim de Carvalho (VC), há 35 anos. Recentemente, a EMI internacional ditou o fim da parceria com a VC, abdicando de um catálogo que inclui nomes de referência, como Amália Rodrigues. Segundo o Expresso apurou, por decisão internacional, serão agora dispensados artistas como Sérgio Godinho.

Para defender o que é nacional não é preciso uma Lei para implantar quotas nas rádios. Basta promover a qualidade e não o que é de consumo fácil, o que parece ser a via trilhada pelos poucos executivos de grandes conglomerados do audiovisual que restam em Portugal. Felizmente que a música portuguesa não depende só das majors e existem mais de uma dezena de netlabels nacionais que divulgam nomes portugueses mas não só para toda a rede, como esclarece o Pedro Leitão da Test Tube, uma das poucas vozes no Fórum da Festa da Música que não entram no coro das lamúrias do costume:

Todo este fenómeno explodiu – e continua a explodir – longe dos holofotes da indústria mainstream e massificada do entretenimento, mas com segurança. Cresce aliado a outro fenómeno, o do Mp3, que também explodiu na altura certa. Milhões de consumidores de música no mundo inteiro já não conseguem imaginar a música sem o leitor de Mp3 no bolso. O mercado de discos em suporte físico já está saturado e caminha agora para trás. E as Netlabels convivem muito bem com ambos os formatos, muitas editam CD-R e mesmo edições de fábrica em tiragens limitadas, que encontram escoamento nos pequenos nichos de consumidores fiéis.

Esta opinião é também compartilhada por Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta que explica porque é que não é contraditório que “num momento de profunda alteração dos cenários com que a indústria musical se habituou a contar, da qual a vertiginosa queda das vendas de discos é talvez a consequência mais visível, florescem, no entanto, as editoras independentes, ou para sermos mais correctos, as micro-editoras”. De destacar ainda o testemunho de Pacman dos Da Weasel pelo facto de ter uma visão lúcida no que está em jogo nas partilhas de música via P2P:

O álbum “Re-Definições” dos Da Weasel vendeu perto de 90 mil cópias e eu tenho vergonha de dizer o quanto ganhei de royalties referentes ao mesmo. Quem é que são os verdadeiros artistas? Não somos nós, certamente. Haja concertos. Para mim, pirataria é fazer cópias de cds e dvds e vendê-los em feiras: quanto a isso acho que se pode e deve fazer muito mais do aquilo que que as autoridades competentes têm feito. E não tenho pena nenhuma de quem por isso for sancionado.

Quanto aos downloads, temos pena, mas desde que ouço música que me lembro de a partilhar com os meus amigos
– de vinil para cassete, de cassete para cassete, fazendo as mesmas mix-tapes que hoje em dia faço no meu iPod. Como tudo o resto, as coisas evoluiram muito rapidamente. Só tenho pena que as editoras não tenham aberto a pestana mais cedo em relação aos downloads legais, e muito boa gente – sempre o mexilhão – ande a perder empregos à pala disso. Hoje em dia, 80% dos discos que compro são adquiridos através da Music Store do Itunes: pelo preço, pela comodidade e porque simplesmente muitas vezes o cd físico não oferece uma mais valia para além da música.

Desde que os downloads legais apareceram que deixei os outros de parte. Mas não tenho moral para criticar quem o decida fazer: há-de haver uma boa parte dessas pessoas que realmente gosta da música e não tem meios para a comprar, sendo tão fã ou mais que os outros.

Apoio quase totalmente as declarações de Pacman, ainda mais surpreendentes quando é raro ver um artista estabelecido e reputado no mercado vir a público dizer que os downloads através do Peer-to-Peer não são pirataria. Apenas discordo quando o músico aponta o dedo para a cópia massificada de CDs e DVDs em feiras. O fenómeno do que entendemos por pirataria é muito complexo e deve ser analisado de vários ângulos.

Grande parte dos vendedores ambulantes não têm sequer meios para aceder a um computador com acesso à Internet e copiar os conteúdos para um CD. Essa tarefa é executada por outros que se encarregam de distribuir o material a indivíduos que por sua vez colocam o disco ou o filme à disposição nos pontos de venda. O circuito da economia paralela ou informal emprega muitas pessoas que não têm outro meio de subsistência senão aquele porque são rejeitados pelo mercado de trabalho oficial. Todos os indícios levam também a concluir que os consumidores são pessoas desfavorecidas que não dispõem dos recursos financeiros e cognitivos para “sacar” os ficheiros do eMule ou do BitTorrent.

E a pirataria já provou que pode também dar dinheiro a ganhar aos artistas. Em Belém, no estado brasileiro do Pará as bandas de tecnobrega disponibilizam CD-Rs aos vendedores ambulantes e aos DJs dos seus discos para atraírem mais público para os concertos ao vivo. Porque todos ficam a lucrar. Menos as gravadoras tradicionais (editoras é outra coisa), porque não se podem dar ao luxo de investir uma balúrdios num “cavalo” que pode depois acabar por dar prejuízo…

Apesar de não concordar com as posições de todos os participantes e de o site ter uma usabilidade péssima, vale no entanto a pena ler algumas declarações. De passagem leiam também o Manifesto pela Diversidade Musical. Se ao menos alguns dos autores desse documento soubessem que a melhor forma de assegurar a diversidade musical é fomentar o acesso generalizado dos cidadãos ao vastíssimo património cultural apenas disponível nas redes de partilha de ficheiros e deixassem de perseguir injustamente aqueles a que chamam de piratas…

Bookmark e Compartilhe

Não existem artigos relacionados.

{ 2 trackbacks }

David Ferreira, o
30 de Julho de 2007 às 11:46
Amália Rodrigues, Boss AC e Carlos Paredes no iTunes | Remixtures
3 de Fevereiro de 2008 às 21:48

{ 3 comments… read them below or add one }

1 MAS 30 de Julho de 2007 às 21:59

“Tozé Brito, presidente da Universal Portugal e vice-presidente da Associação Fonográfica Portuguesa que ficou famoso por afirmar que a pirataria (…) de música financiam o terrorismo”

Bem, em Portugal, não creio, quanto mais não seja porque a venda de pirataria faz-se em feiras e por ciganos.
Agora em Espanha a situação esta bem documentada e isso é verdade.

Não só é um dos meios de financiar o terrorismo de base islamita, como é um dos motores que alimenta a explora o trafico ilegal de pessoas.

Por isso, as acusações não sao assim tão descabidas quanto isso… só no que toca a realidade territorial concreta.

Abraços

MAS

Responder

2 Miguel Caetano 30 de Julho de 2007 às 22:39

Marco, fazendo copy & paste do que eu escrevi aqui:

3. Gangues de crime organizado e mesmo grupos terroristas usam a venda de CDs falsificados para angariar receitas e “lavar” dinheiro.

Um exemplo clássico de como provocar Medo, Incerteza e Dúvida. Desde Junho de 2004 que a RIAA garante ter provas de que Dawood Ibrahim, um muçulmano indiano considerado um “perigoso terrorista global” pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, financia algumas fábricas ilegais de produção de CDs no Paquistão mas até hoje não apresentou qualquer prova concreta. E mesmo que isso fosse verdade, se as vendas resultantes da contrafacção constituem fonte de receitas para os terroristas, isso apenas seria mais uma razão para incentivar a livre partilha de ficheiros e o P2P através de uma licença voluntária global que remunere os detentores dos direitos.

Responder

3 MAS 31 de Julho de 2007 às 6:19

Miguel,

o que estou a dizer é que a afirmação dele não é de todo descabida.

Claro que a RIAA pode utilizar esse argumento para provocar medo, causar a confusão etc etc.

Mas, a realidade que conheço, portuguesa e espanhola, faz-me saber que pelo menos aqui em Espanha, há dados que demonstram que há essa ligação, não só ao terrorismo, mas também ao tráfico ilegal de pessoas (falo mais dos chamados “manteros”, sem contar com o fenomeno dos chinos).

Abraços

Marco

PS: Já agora continua com o bom trabalho do blog. Apesar de não o comentar sempre, já me é leitura obrigatória diária :)

Responder

Leave a Comment

Previous post:

Next post:

geciktirici hemsire kiyafetleri ayakkabi modelleri Sesli Sohbet Sesli Chat ankara nakliyat escort ankara eskort eskort ankara