
Mademoiselle é uma jovem francesa de vinte e poucos anos que toca piano. Fiquei a conhecer o trabalho dela por ocasião de uma visita ao site da netlabel portuguesa Merzbau. Em pano de fundo podia-se ouvir a sua voz infantil, ingénua e melífua sob acordes de piano rodopiando pelo ar. Era “Alice”, a faixa de apresentação do seu EP de estreia homónimo, um disco onde se podem encontrar mais seis canções recheadas de um romantismo despretensioso a fazer lembrar o melhor da velha chanson française. O EP foi o 19º lançamento da netlabel de Tiago Sousa e estava disponível segundo uma licença Creative Commons BY-NC-ND 2.0. Assim que ouviu esta misteriosa cantora, o Tiago acreditou no potencial dela. E fez bem. A artista tem até três datas marcadas para concertos em Portugal (dia 7 de Junho no Lounge de Lisboa, dia 8 no Mercado Negro de Aveiro e 9 no Museu de Olaria em Barcelos).
Mas a partir de amanhã o álbum vai deixar de estar disponível no site da Merzbau. “Alice” já não nos irá saudar de cada vez que passarmos por ali. “Alice já não mora aqui” e Mademoiselle, cujo verdadeiro nome é Charlène, deixou de ser “senhorita” para se passar a chamar Chat. Isto é o que nos informa o Tiago Sousa na última newsletter do selo de música livre que foi divulgada no Fórum Sons:
(…) Uma das nossas mais bem amadas artistas Mademoiselle, acaba de conseguir um acordo com uma editora major, a Capitol, detida pela EMI. Não sendo algo que nos surpreenda à partida, visto a qualidade da artista ser indubitável e o seu potencial enorme, ficámos de pés e mãos atadas para evitar que as canções até aqui licenciadas livremente pela Creative Commons deixem de o ser. Por este motivo, as canções presentes no seu EP de estreia terão de ser retiradas do site. Infelizmente apenas quem tem dinheiro é que manda neste mundo e nós não passamos de um grão de areia na imensidão da indústria (…)
Devido ao facto das músicas até agora disponíveis sob licença CC passarem a estar licenciadas segundo o sistema vigente de direitos de autor e de a EMI – a tal major que passou a vender música mais cara sem DRM – não permitir a livre partilha das obras no seu catálogo, o EP vai ter que ser retirado do site da Merzbau.
Que uma companhia discográfica como a Capitol Records esteja de olho nos promissores talentos por revelar espalhados pela grande rede não é de admirar. Afinal, uma das contratações mais recentes que vieram rejuvenescer o seu catálogo foi Lilly Allen, uma britânica repescada do MySpace que mistura Ska, Hip-hop, Pop e Calypso. O primeiro álbum de Lilly, Alright, Still, chegou à dupla platina no Reino Unido. Mas será que as novas plataformas online como as netlabels terão sempre que servir de meras rampas de lançamento temporárias para novas estrelas, como se se tratassem de meros reservatórios para preencher as fileiras dos artistas que já queimaram os seus cartuchos na arena da fama?
Compreendo a posição complicada em que este anúncio deixou o Tiago Sousa e valorizo bastante o trabalho que ele tem feito na divulgação de artistas como Lobster e Tape Tum. Vendo as coisas na perspectiva de um responsável de um selo de música livre, esta mudança de uma artista no seu catálogo para uma major é de facto um motivo de satisfação e orgulho, uma vez que a Merzbau acaba por alcançar uma maior projecção. Mas é pena que não se possa fazer nada. Contudo, a verdade é que a artista dispunha da opção de não licenciar os temas já editados pela Merzbau. Neste, como noutros casos a motivação do factor monetário pesou mais do que a ética pessoal…
O ridículo disto tudo é os executivos da Capitol não se aperceberem que será sempre impossível eliminar todas as cópias das faixas já disponíveis em milhares de discos rígidos. É lamentável que ainda não tenham compreendido a natureza não rival e não exclusiva da música. Este é, deveras, um exemplo típico de um novo tipo de emparcelamento do Commons actualmente em curso. Tal como James Boyle refere em “The Second Enclosure Movement and the Construction of the Public Domain”, este movimento de vedação do que antes era de acesso livre para todos aplica-se agora já não à terra mas a bens intelectuais como a informação. Por isso, caros leitores, se gostam de música francesa, aproveitem estas últimas horas enquanto o capital proprietário não estende a sua mão sob mais uma parte da cultura livre: façam download do EP de estreia (disco inteiro em ZIP) de Mademoiselle Chat e, se gostarem do que ouvirem, partilhem-no.
Não existem artigos relacionados.



Comments on this entry are closed.