Bandas indie contratam detectives anti-P2P

by Miguel Caetano on 4 de Abril de 2007

Há pouco tempo abordei aqui o problema dos pré-lançamentos, ou seja, discos novos que chegam às redes de partilha de ficheiros meses antes da sua data de lançamento oficial. Agora fiquei a saber através do jornal britânico Times que vários grupos de rock independente e alternativo que granjearam uma reputação quase unânime no circuito underground por permitirem que os fãs pudessem partilhar ficheiros de música em MP3 estão secretamente a recorrer aos serviços de empresas de detecção de conteúdos na Internet para encontrarem e removerem “fugas” não autorizadas de novos álbuns antes que estes cheguem às prateleiras das lojas de discos.

Uma das bandas que o jornal refere são os Arctic Monkeys, aquele grupo inglês que tanto furor fez no ano passado graças ao marketing viral proporcionado pelo MySpace e dos fãs que ajudaram a divulgar as faixas da banda, tornando-se assim numa das primeiras bandas a gerar sucesso sem recurso aos media tradicionais como as estações de rádio e fazendo com que o seu primeiro álbum Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not se tornasse no disco de estreia a vender mais num curto espaço de tempo na história dos Tops do Reino Unido – mais de 360 mil cópias só na primeira semana. Pois bem, alcançado o sucesso os Arctic Monkeys e a sua editora EMI (através da subsidiária Domino) decidiram trancar a sete chaves o seu segundo disco de nome Favourite Worst Nightmare: para ouvir antecipadamente as músicas os jornalistas necessitam de se deslocar ao quartel-general da banda de Sheffield; ninguém recebe cópias do CD por correio, o método habitual de divulgação de novos trabalhos na indústria da música.

Mas afinal de contas, o hype por detrás do MySpace nem foi uma estratégia deliberada deles, uma vez que como referiram à Prefix, os rapazes nem sequer sabiam o que era o MySpace, adiantando que a página com o nome da banda por lá não é da sua responsabilidade. Aliás, o que ressalta da entrevista é que eles são uns ingleses comuns com parcos conhecimentos de utilização da Internet.

Mas há mais bandas a tentarem impedir que os seus lançamentos cheguem primeiro aos discos rígidos dos fãs. É o caso dos Bloc Party e da sua editora V2 que quando viram que A Weekend in the City, o segundo álbum do grupo, já estava disponível online – com cerca de um milhão de ficheiros MP3 em circulação – três meses antes do dia previsto do lançamento oficial, em Fevereiro, contrataram os serviços da empresa Web Sheriff de Londres, especializada na remoção de material online como pornografia infantil e vídeos de terroristas.

Segundo o Times, o processo empregue pela Web Sheriff que também ostenta George Michael no seu portefólio de clientes passa por monitorizar os sites de fãs e “solicitar” aos utilizadores que retirem os links para os álbuns. Em último recurso, a empresa identifica os indivíduos que mais cópias disponibilizaram através dos seus fornecedores de acesso à Internet e envia-lhes em seguida intimações judiciais.

A V2 assegura que os downloads ilegais do álbum baixaram para “um nível comercialmente insignificante” num período de três meses, tendo o disco chegado à marca de Ouro na Inglaterra e entrado no Top 20 dos EUA. Quanto a mim, isto é mais publicidade encapotada a estes detectives anti-P2P do que outra coisa. Todo o teor da notícia é semelhante a um comunicado saído do gabinete de relações públicas de uma empresa.

O que é engraçado é que se pode encontrar um paralelismo desta táctica num episódio anterior da história da música. Nos primeiros anos do século XX, um grupo de editores ingleses especializados na publicação de partituras musicais constituiu uma associação industrial, a Musical Copyright Association (MCA), para travar uma cruzada contra os piratas que estavam então a provocar prejuízos avultados à indústria, numa altura em que o piano se tornava uma peça de mobiliário comum nos domícilios de toda a família burguesa.

Agindo inicialmente de modo ilegal, a MCA contratou os serviços de detectives privados e recrutou polícias na reforma, bem como outros indivíduos dotados de uma elevada constituição física para desencadear rusgas por toda a Grã-Bretanha, invadindo armazéns, pubs, sotãos, caves e uma série de locais para apreender folhas de pautas, incinerando-as em seguida. A história desta saga e o seu fim podem ser lidos no artigo “Pop music pirate hunters

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