Como se já não bastasse a recente onda de intimações da RIAA às universidades e estudantes norte-americanos de forma a obrigar estes últimos a pagarem milhares de dólares pelo download ilegal de músicas em redes P2P, veio agora a Ars Technica revelar que uma empresa chamada Red Lambda se encontra a desenvolver uma tecnologia proprietária chamada cGrid que promete controlar o tráfego de pacotes relativos a ficheiros de material ilegal oriundo de redes P2P, servidores de FTP ou grupos de discussão da Usenet – actualmente muito usados pela comunidade de partilha de ficheiros por ser um suporte relativamente ignorado.

O preço é escandalosamente elevado – um milhão de dólares para a instalação e 250 mil dólares para a manutenção -, pelo que será difícil convencer as administrações das universidades dos Estados Unidos a investir na tecnologia. O problema é que a persuasão judicial da RIAA e da MPAA poderá acabar por justificar deitar assim tanto dinheiro para a rua. Outros potenciais interessados poderão ser os fornecedores de acesso à Internet. E aí nem o recurso a darknets altamente encriptadas poderá salvar os utilizadores dos métodos de extorsão dos grandes conglomerados multimédia. Isto porque quando a aplicação suspeita de uma actividade potencialmente ilícita por parte de um determinado utilizador, este é imediatamente desligado da rede em questão.
Ao monitorizar as redes locais, mantém registos históricos dos utilizadores de acordo com os seus endereços MAC e as portas de rede que geram mais tráfego. Para além de diversos clientes de redes P2P, o cGrid permite controlar também o protoclo FTP, a partilha de ficheiros através de redes locais em Windows, software de messaging e outros. Pelo que se pode ler na página do produto, a empresa refere que a tecnologia “respeita a liberdade académica e a privacidade dos utilizadores de rede”. Isto quer dizer, basicamente, que não inspecciona o conteúdo dos ficheiros partilhados nas redes mas sim o comportamento de cada protocolo específico: a frequência de ligação a outros endereços IP, quantidade de tráfego, etc. Ou seja, não importa se o internauta fez o download daquele filme ou álbum. A empresa não adianta, contudo, se e como é que diferencia entre usos legítimos de usos ilegítimos… Sim, porque muito tráfego originário de redes P2P refere-se a distribuições de Linux.
O cGrid começou por ser desenvolvido e testado na Universidade da Flórida em 2003, tendo inicialmente a designação de Icarus. A tecnologia – que pode ser implementada sob a forma de software ou de hardware (network appliance) tem servido para monitorizar as redes dos dormitórios do campus daquela universidade, tendo os resultados alcançados até agora sido positivos. Mas a percentagem de falsos positivos não será elevada?
Outra empresa que também promete um panóptico de controlo indiscriminado da rede às universidades e aos fornecedores de acesso é a SafeMedia que acaba de lançar o Clouseau – notem a referência ao inspector Jacques Clouseau, a personagem do incompetente e rídiculo mas eficaz oficial de polícia francês interpretado por Peter Sellers na série de filmes Pantera Cor de Rosa. Esta network appliance destina-se a subredes e visa “erradicar toda a actividade ilegal P2P e tornar impossível enviar ou receber quaisquer transmissões ilegais P2P”. O Closeau também inspecciona os pacotes de dados transmitidos pela rede.
Para separar o trigo do joio, isto é, filtrar os conteúdos ilegais e deixar passar o material legal sem, utiliza um método de “impressão digital” (fingerprinting) e marcadores de ADN que não gera um atraso significativo. Desta forma, garante a empresa, é capaz de “ver” por entre encriptações de vários níveis e de analisar flexivelmente os padrões da rede e isto sem falsos positivos e sem comprometer o anonimato e a privacidade do utilizador! Cada caixa custa entre 650 e 4500 dólares, o que é substancialmente mais barato que o cGrid.
O que é ainda mais perigoso nesta SafeMedia é o que o site desta empresa está entranhado com um discurso contra a “pirataria” e a “propriedade intelectual” que tresanda a tanga demagógica, chegando ao ponto de recorrer à metáfora estafada do software open-source como bazar para ter a ousadia de proclamar que o P2P é a antítese do open-source:
A Internet é o mercado das ideias e, cada vez mais, do trabalho criativo – um bazar, se quiserem. Mas do mesmo modo que o verdadeiro bazar não pode prosperar se o público puder roubar à sua vontade – sem recompensar aqueles que trazem os seus artigos para o mercado, a Internet não pode prosperar como um medium para a distribuição de artigos do intelecto e da capacidade artística se o público roubar e saquear, sem consideração para com aqueles de cujo trabalho eles tiraram proveito.
O P2P é a antítese do open-source sob várias formas. O open-source consiste em várias pessoas que contribuem para o trabalho criativo no intuito do bem de todos. É uma actividade que acrescenta valor, tornando muitas vezes possível trabalho criativo que de outro modo não teria existido, fazendo com que o trabalho envolvido melhore. O P2P consiste em muitas pessoas que abusam do trabalho criativo dos outros em benefício próprio. É uma actividade que retira valor ao recurso comum de criatividade.
Se estas pessoas são tão espertas, porque é que elas não criam as suas próprias obras artísticas em vez de explorarem as obras dos outros?
O P2P não se refere a artistas promissores e a bandas de garagem à procura de audiências sem terem que passar por estúdios gananciosos. Blogs, sites pessoais e fóruns em evolução como o YouTube e o MySpace, desempenham este papel e fazem-no cada vez melhor. A explosão recente destes canais alternativos de expressão pessoal torna inoperacional o argumento estafado utilizado pelos fornecedores de P2P para mascarar a sua verdadeira motivação.
Há que estar alerta e ter muito cuidado com esta retórica perniciosa. Já conhecíamos as afinidades electivas entre a Open Source Initiative de Eric Raymond e o mundo empresarial. Mas não era preciso chegarem ao ponto de atirar areia para os olhos de duas comunidades que têm tudo em comum: a partilha livre do conhecimento e da cultura.
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