Desde 1999, quando o Napster original foi lançado por Shawn Fanning, que decorre uma guerra na Internet. Apesar de se circunscrever à rede, esse conflito tem repercussões na forma como acedemos a, consumimos e produzimos cultura. Essa guerra pela partilha livre de música, vídeos e todo o tipo de conteúdos simbólicos coloca em confronto permanente duas partes: de um lado um pequeno grupo de “fundamentalistas culturais” que detém o controlo sobre os direitos de propriedade intelectual relativos a grande parte desses conteúdos . Graças ao seu poderio económico e alicerçada numa retórica faliciosa que compara a distribuição de ficheiros por via de redes digitais ao roubo de bens tangíveis como o pão, esta minoria tem alcançado uma cobertura mediática esmagadoramente favorável.
Do outro lado da barricada, temos um “exército” composto por uma multidão de hackers, fãs acérrimos ou simples utilizadores avançados espalhados pelo mundo que se dedicam a disseminar a informação que os outros tentam controlar à força e de uma forma artificial, colocando barreiras onde elas não existem. Estes milhões de “criminosos” e “piratas” – para utilizar os termos do discurso dominante – digilitalizam as colecções de discos em vinil dos seus pais, gravam DVDs de séries de televisão e colocam tudo isso nos seus discos rígidos para partilhar com outros tantos “amigos” de outros países, sem cobrarem ou receberem nada. Mais, alguns ainda se dão ao trabalho de legendar para outros idiomas os vídeos de filmes e séries, bem como criar metadados de identificação dos ficheiros. Não satisfeitos com o seu papel de simples utilizadores, os mais exigentes recriam as obras originais, desenvolvendo inúmeras adaptações e modificações como mashups (música e vídeo) e mods (vídeojogos).
É sobre essa guerra pela partilha livre que versa o documentário On Piracy and The Future of Media (“Sobre a Pirataria e o Futuro dos Media” – via TorrentFreak) realizado por Julien McArdle, um estudante canadiano de 21 anos. O filme, que foi rodado com um orçamento ridículo – inferior a dois mil dólares canadianos -, dura 107 minutos e dá-se ao trabalho de analisar de uma forma bem mais aprofundada que os media comerciais os dois lados da barricada desta guerra. Centrando-se no Canadá, conta com entrevistas a representantes de todos os principais interessados nesta contenda: companhias discográficas, editoras de música, cadeias de cinema, sociedades de gestão colectiva de copyright, produtores independentes, associações de defesa dos consumidores, juristas, rádios locais e online, Creative Commons, membros da comunidade BitTorrent e Linux e simples utilizadores de redes P2P. É só pena que ele tenha escolhido para título a palavra “pirataria”, contribuindo para aumentar a confusão entre contrafacção em massa de DVDs e CDs e partilha de ficheiros. Mas talvez, no fundo, esta utilização errónea do termo seja um prenúncio de uma alteração no significado original, de que ele está a adquirir uma conotação positiva e não denegridora – veja-se o Piratbyrån (Bureau of Piracy) sueco e os inúmeros Partidos Piratas que despontaram por todo o mundo a partir deste grupo. Em baixo podem ver o vídeo das duas partes, mas se quiserem podem fazer download do torrent do ficheiro ISO do DVD no Pirate Bay (4,3 GBytes) que inclui extras como comentários de McArdle, divisão por capítulos e um menu inicial. Já agora, agradeçam ao rapaz e façam-lhe uma doação de um ou dois euros. Recomendo também a leitura da entrevista que a Slyck fez com o realizador em Maio.
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