Continuando onde eu fiquei. Pretensões menos ambiciosas que as do Maay e do Solipsis – se bem que sem deixar de ser igualmente interessante – tem o projecto Peerple, um software Peer-to-Peer desenvolvido por duas equipas de investigadores franceses do Instituto Nacional de Pesquisa em Informática e Automatização (INRIA), entre os quais o próprio Anh-Tuan Gai. Escrito na linguagem Objective-Caml, esta aplicação é administrada através de um interface Web (compatível com Internet Explorer, Firefox e Safari). Uma versão beta instável encontra-se já disponível para Linux e Mac OS X segundo licença GPL. O Peerple promete combinar as funcionalidades do Soulseek com a de um browser: partilha de pastas seleccionadas com os nossos contactos e navegação pelos ficheiros segundo um sistema de visualização por ícones ou em árvore a partir de um domínio próprio. Tudo isto sem limites de número e tamanho dos ficheiros partilhados.

Confesso que ainda não o testei, mas as capturas de ecrã da ferramenta em acção deixam adivinhar as suas múltiplas potencialidades, nomeadamente na criação de darknets absolutas – redes friend-to-friend (F2F, entre amigos), para a partilha e armazenamento remoto de um modo seguro e privado, de acesso apenas por convite. Isto porque todos os dados são encriptados segundo o protocolo AES com uma chave de 256 bits, os utilizadores são autenticados por SSL e as comunicações baseiam-se em HTTPS. De igual modo, ele pode ser utilizado numa rede local sem ligação à Internet. O cliente inclui também módulos próprios de DNS e correio electrónico que podem ser configurados pelo utilizador de modo a que todos os serviços e dados sejam directamente enviados a partir do software, sem passarem pelos servidores do Peerple.

Em breve serão incluidas outras funcionalidades como o backup P2P automático, motor de busca local e editor de HTML. Muito embora os seus criadores avisem que este software não se destina à violação dos direitos de autor mas apenas à cópia privada é caso para dizer: adeus RIAA, MPAA, IFPI; viva a partilha livre entre iguais!
É claro que já existem ferramentas de partilha privada com recurso a encriptação, mas nenhuma me parece oferecer o mesmo grau de segurança, intuitividade e liberdade. Por exemplo, o Allpeers é uma extensão para Firefox (compatível com Linux, Mac e Windows) baseada no protocolo BitTorrent sobre a qual eu já falei aqui e cujo código foi recentemente aberto. Mas apesar de prometer a privacidade e flexibilidade na partilha privada, esta aplicação apresenta alguns problemas de segurança, nomeadamente porque a autentificação dos contactos que têm acesso aos nossos dados é feita a nível dos servidores do serviço.
Por outro lado, a ergonomia também é inferior ao Peerple, pois o drag’n'drop é feito a partir do exterior do navegador e não a partir de um explorador de ficheiros personalizados, como no caso do projecto francês e não permite a partilha de pastas completas. Enfim, embora o Allpeers esteja “agarrado” ao Firefox ele podia perfeitamente ser disponibilizado como um cliente P2P isolado, tendo em conta os únicos extras que oferece (chat e partilha de URLs). A este respeito, aliás, convém acrescentar que o NUWeb que está a ser desenvolvido deverá ir ainda mais longe que o Peerple, pois segundo o que se refere aqui irá permitir que os utilizadores criem blogs e páginas Web personalizáveis, galerias de imagens e salas de vídeo. Em contrapartida, a sua arquitectura implica a existência de um servidor central para administrar funções como autenticação e pesquisa global.
Outro concorrente é o Gigatribe, desenvolvido pela empresa francesa Shalsoft, mas que apenas está disponível para Windows, não é open-source e na sua versão gratuita somente oferece a possibilidade de efectuar um download simultâneo. Se quiserem downloads ilimitados e com fontes múltiplas, bem como a garantia efectiva de segurança e privacidade dos conteúdos do vosso disco rígido (encriptação Blowfish com chave de 128 bits) têm que desembolsar 3,99 euros por mês ou 24,95 euros a pronto por uma versão Premium.


Uma alternativa proprietária é o FolderShare, que desde 2005 pertence à Microsoft, pode ser utilizado em Windows e em Mac OS X, encontrando-se dividido em dois componentes: o My FolderShare, uma pasta no domínio do serviço que permite sincronizar e partilhar ficheiros com outros dispositivos e utilizadores, e o FolderShare Satellite, um software que precisa de ser instalado nas outras máquinas para que a partilha se realize. Apesar de ser gratuito, este serviço apenas permite o download de ficheiros até 2 Gigabytes (o que exclui desde logo DVDs) e, pelo que eu pude ver no site, parece-me que a autenticação dos utilizadores é executada nos servidores deles… Isto significa que não pode funcionar numa rede local.
Num comentário à primeira parte deste artigo, o Marcos Marado AKA Mind Booster Noori deu a dica do Gnunet, “uma rede 100% descentralizada (p2p), anónima, encriptada, segura, auto-suportada e resistente à censura”, inspirada na Freenet. Mas a questão é que esta geração de aplicações da Web 3.0 como o Peerple e o NUWeb não visam o download de ficheiros alojados nos computadores de desconhecidos e de um modo anónimo. Pelo contrário, uma vez que a partilha se dá entre uma lista de contactos, o conceito de anonimato não é muito importante, pois sabemos quem tem acesso aos nossos dados. Por outro lado, eles permitem escolher exactamente aquilo que se pretende partilhar e com quem partilhamos de um modo simples. E não obstante todas as suas virtudes, redes como a Gnunet e a Freenet são ainda bastante difíceis de utilizar e pouco apelativas em termos estéticos.
Por enquanto são ainda versões beta instáveis ou simples vapourware, mas tanto o Peerple como o NUWeb prometem. E o cenário do P2P ainda vai ficar mais interessante quando o espanhol Pablo Soto, que foi o criador da rede Manolito (utilizada pelos clientes Blubster e Piolet), lançar a Omemo, uma rede de partilha de ficheiros com um disco rígido virtual à disposição dos pares com base em tabelas de hash distribuídas. Assim, o utilizador poderá gravar um ficheiro no espaço da rede em vez do seu disco rígido individual, sem colocar em causa o seu anonimato e privacidade. Cada membro aloca um determinada percentagem de espaço no seu disco para a rede e contribui para aumentar os recursos da comunidade. Numa entrevista à Slyck, Pablo afirma que a Omemo poderá proporcionar uma quantidade de espaço de armazenamento de dados quase ilimitada. O programador adiantou mais pormenores no seu blog. Será que o gigante Google vai ser ameaçado pelo poder de milhões de “formigas” actuando segundo um modo de cooperação voluntária e completamente descentralizada? É esperar para ver…
Não existem artigos relacionados.



{ 5 trackbacks }
{ 1 comment… read it below or add one }
Atenção que o GNUnet permite a sua instalação numa rede privada, e mesmo que não o faças tem o conceito de collections e directories que te permitem partilhar certas coisas para um grupo seleccionado de pessoas. Na realidade, a questão é que o GNUnet tem um conceito mais alargado do das aplicações que referes. Faz (ou permite fazer) tudo o que referes nas várias aplicações de que falaste, e permite ainda fazer mais coisas. Questões como a resistência à censura e o anonimato servem mais para casos como por exemplo permitir a liberdade de expressão em regimes fechados e com censura como a China (se bem que o anonimato na partilha de ficheiros à rede me parece algo extremamente procurado por aqueles que usam estas tecnologias para a partilha de ficheiros cuja propriedade intelectual está protegida). Enfim, eu acredito que o GNUnet pode vir a ser a “next big thing” a partir do momento em que tenham sido construídas as várias ferramentas _simples_ (a tal coisa que o GNUnet ainda não tem) para fazer todas as coisas que podes fazer com esta rede… A não esquecer – o GNUnet ainda está em desenvolvimento, e sim, a aplicação que já existe fácil de usar é a de partilha “clássica” de ficheiros (comparável a um emule e coisas do tipo), e é visualmente pouco agradável, e talvez pouco intuitiva. Estas coisas demoram a fazer…
Off-topic: existe uma petição que está a ser feita, em relação ao DRM… Agradecia a divulgação