Tenho lido muitas referências à Web 3.0 que para aí vem, mas grande parte dessas referências centram-se sobretudo num conceito muito específico, o de Web Semântica, aquela que supostamente irá permitir obter respostas coerentes a questões muito complexas, em que agentes de software irão adivinhar as necessidades dos utilizadores de forma a facilitar a pesquisa e o acesso à informação. O problema é que essas odes delirantes ao poder emancipador da rede esquecem-se que a Internet é sobretudo um conjunto de máquinas e de fios, sem grande capacidade de consciência por si próprias. O que faz a rede ser um fabuloso meio de concertação social, cultural e económica são as pessoas, todos nós, os utilizadores, que a alimentamos diariamente de conteúdos.
Infelizmente, contudo, não somos NÓS que estamos ao comando dos destinos da rede, mas sim ELES, quer dizer, o Google e todas as empresas da Web 2.0, bem como da 1.0, que prosperam alegremente à custa do Grande Irmão. O que acaba por acontecer é um centralismo extremo que vai contra todas as premissas iniciais de fraternidade e liberdade dos pioneiros do “ciberespaço”, pois todos os dados vão parar a servidores na Califórnia e noutros estados norte-americanos, como muito bem refere Olivier Auber em Quelle vision politique pour le réseau?, um manifesto a ser publicado este mês no jornal Libération onde se apela ao estado francês que incentive plataformas descentralizadas P2P, financie os programadores de software livre e converta os bens públicos imateriais a bens comuns que possam ser livremente explorados.
Será, contudo, utópico, esperar que o Estado venha a terreno desempenhar o seu papel. E em última análise, devem ser os utilizadores a decidir o que querem fazer com a rede. E se é verdade que os utilizadores das redes ed2k/eMule possuem em conjunto mais poder de processamento e de armazenamento de dados que o Google, então porque é que não será possível criar uma “Web para o utilizador, pelo utilizador e do utilizador” como a que o projecto NUWeb está a desenvolver?

Já aqui falei sobre a contradição inerente entre o Web 2.0 e ao P2P. Num post para o blog Transnets, Anh-Tuan Gai levanta também a questão, elaborando uma curta história das várias gerações da Web e as vantagens dessa nova terceira era face às anteriores. Enquanto que na Web 1.0 os conteúdos eram produzidos e alojados por empresas, na Web 2.0 são os internautas que passam a produzir os conteúdos, mas estes continuam a ser alojados por empresas. Por fim, na Web 3.0, os conteúdos são produzidos e alojados pelos próprios membros da comunidade -, isto é, as imagens e vídeos deixam de estar centralizados no Flickr ou YouTube de modo a serem acedidos pelos demais, para passarem a estarem disponíveis nos computadores dos utilizadores que tiram partido das suas ligações de banda larga ultrarápida para os partilharem com outros.
As vantagens do poder de processamento distribuído são já conhecidas há vários anos no domínio da investigação científica, sendo os exemplos mais famosos o Projecto do Genoma Humano para a pesquisa genética e o SETi@Home para a busca de vida inteligente extraterrestre. Mas agora o objectivo é transferir todos os recursos da Internet para plataformas descentralizadas, sem a intermediação de servidores externos. Passando a controlar a sua informação, o utilizador obtém mais liberdade e segurança sem ter que pagar nada em troca senão a sua largura de banda e o seu poder de processamento informático (que tenderão a ser cada vez mais baratos).

Por terras francesas, já existem exemplos concretos de algumas aplicações capazes de potenciar na prática o poder de cooperação voluntária, desde motores de pesquisa (Maay) a ambientes virtuais multiparticipante semelhantes ao Second Life (Solipsis). Embora não possam ainda concorrer em termos tecnológicos com os gigantes oriundos da Califórnia – em grande parte devido ao escasso investimento dos poderes públicos -, estas iniciativas demonstram a possibilidade de uma Internet mais justa e social. Antes que este post se transforme num lençol enorme de texto, paro por aqui com a promessa de retomar o assunto o mais breve possível numa segunda parte.
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Que dirias de uma rede 100% descentralizada (p2p), anónima, encriptada, segura, auto-suportada e resistente à censura?
Pois é, esse projecto existe e está em andamento.
Essa é uma boa achega a juntar à segunda parte
A web inicial estava baseada em universidades e era adversa ás empresas (ainda me lembro dela). No entanto assim que as empresas perceberam o que podiam ganhar com ela (a Microsoft coitada nunca percebeu) fartaram-se de gastar dinheiros com ela (os datacenters e a largura de banda não são nada baratos) e agora como é óbvio estão bastante resistentes ao facto de alguém lhes estar a gastar esses recursos de uma forma que eles não conseguem comercializar.
Agora as infraestruturas são controladas por empresas e/ou governos, não pelos utilizadores, estes podem fazer umas flores, mas pouco mais. Os ideais iniciais ficam bem no papel, mas como acontece sempre, o mundo encarrega-se de triturar uma parte desses ideiais. No entanto, suportada por Big Brothers ou quejandos, o que é um facto é que essas ideias e uma parte da sua concretização mudaram um pouco o mundo e hoje podemos fazer muito mais coisas do que há uns anos atrás. Bom, falo dos que têm acesso à tecnologia porque muita gente nem acesso aos serviços mínimos tem.
Mário,
(…) e agora como é óbvio estão bastante resistentes ao facto de alguém lhes estar a gastar esses recursos de uma forma que eles não conseguem comercializar.
Exacto. Sem falar na discrepância que existe entre a velocidade de downstream e a de upstream que os serviços comerciais oferecem. É por isso que é preciso encontrar alternativas à infra-estrutura física sem ser o ADSL ou o cabo, tipo redes mesh ou WiMax
No entanto, suportada por Big Brothers ou quejandos, o que é um facto é que essas ideias e uma parte da sua concretização mudaram um pouco o mundo e hoje podemos fazer muito mais coisas do que há uns anos atrás. Bom, falo dos que têm acesso à tecnologia porque muita gente nem acesso aos serviços mínimos tem.
Já ouvistes falar em Metareciclagem? É um projecto brasileiro de “reciclagem” de computadores. Em tempos, tentei implantá-lo cá em Portugal, mas não consegui grande repercussão.
Vê mais aqui:
Low Tech multimídia
Reapropriação da Tecnologia para a Transformação Social
Estive a ver os links, mas não me surpreende que não tenhas tido grande repercussão, o voluntariado tal como a cidadania são escassos. E para cada beneficiado provávelmente aparecem 25 abusadores o que não é agradável.