A Ars Technica publicou aqui há dias uma notícia onde dava conta de um novo estudo académico no Journal of Political Economy dos economistas Felix Oberholzer-Gee (Universidade de Harvard) e Koleman Strumpf, (Universidade de Kansas) em que concluem que não se pode estabelecer uma relação causal entre downloads de músicas através de redes de partilha de ficheiros e as vendas de discos. Por outras palavras, o P2P não provoca uma descida assinalável das vendas – uns meros 0,7 por cento, o que, em termos estatísticos, é indistinguível de zero.
Intitulado “O Efeito da Partilha de Ficheiros nas Vendas de Discos: Uma Análise Empírica” (resumo), o estudo baseia-se em dados obtidos entre Setembro e Dezembro de 2002 a partir dos ficheiros de registo (logs) de dois servidores da rede P2P OpenNAP e da lista de vendas semanais de álbuns nos Estados Unidos da Nielsen SoundScan, comparando os efeitos de 1,75 milhões de downloads de músicas nas vendas de 680 álbuns diferentes durante o mesmo período. Um aspecto interessante deste estudo é que, com base em dados que apontam para uma elevada correlação entre o número de downloads e de discos adquiridos em CD, os autores do estudo tentaram averiguar qual o efeito que a disponibilização de uma maior quantidade de música partilhada teria nas vendas de discos.
Partindo das estatísticas da empresa de análise de mercado BigChampagne, segundo as quais a Alemanha é a maior fornecedora de ficheiros áudio dos discos rígidos dos americanos – um em cada seis downloads realizados nos Estados Unidos são disponibilizados por alemães – e depois de demonstrarem que o período de férias escolares na Alemanha resulta num aumento do número de downloads e de ficheiros partilhados nas redes P2P, os economistas concluiram que não existe uma correlação entre este crescimento sazonal e as vendas de música no mercado norte-americano.
E mesmo na sua estimativa mais negativa, o aumento apenas representaria uma redução de “umas meras 368 cópias nas vendas semanais de CDs, um efeito demasiado pequeno para ser estatisticamente distinguível de zero”. Ora, segundo a RIAA, a indústria musical vendeu 803 milhões de CDs em 2002, o que significou uma descida de 80 milhões em relação ao ano anterior. A culpa dessa diminuição recai para o “bode espiatório” de sempre, a partilha de ficheiros. Mas os autores do estudo concluem que o impacto nunca poderá ter sido superior a seis milhões de álbuns. Algumas das razões apontadas para os restantes 74 milhões de CDs que ficaram por vender residem, por um lado, no facto de o ano de 2002 ter coincidido com o fim de um período em que as vendas foram superiores ao normal, durante o qual os consumidores substituíram os seus discos em vinil por CDs e, por outro, no aparecimento simultâneo de novos suportes de entretenimento como os DVDs e as consolas de jogos cada vez mais avançadas.
Como a data em que os dados foram recolhidos pode levar a concluir, este estudo de Oberholzer-Gee e Strumpf não é propriamente novo. Conforme refere a Wired, o que foi agora editado é a versão final, sujeita a peer review e revisões, estando temporariamente acessível a não assinantes do Journal of Political Economy aqui. Uma versão anterior tinha já sido publicada em Março de 2004 (para os interessados, o PDF está aqui). Aliás, num post de Dezembro eu referi um ensaio de Rufus Pollock que consistiu numa análise comparativa de várias pesquisas académicas sobre o efeito entre o P2P e as vendas da indústria musical e onde o autor refere uma segunda versão de 2005 do estudo de Oberholzer-Gee e Strumpf. Nas palavras de Pollock, “the excellent dataset and instruments combined with the significant additional work to examine the robustness of the results under a variety of specifications make this the most impressive paper on these issues published to date”.
O estudo tem, no entanto, sido alvo de algumas críticas. Stan Liebowitz, por exemplo, afirma que o método empregue para estimar o efeito dos downloads nas vendas de discos tendo apenas em conta as alterações registadas durante o mesmo período nos dois indicadores é deficiente. Isto porque o efeito de substituição pode ocorrer ao longo e do tempo e não simultaneamente. Por outro lado, a amostra parece ser extraordinariamente pequena para que possa ser representativa (1,75 milhões de downloads constituem apenas 0,01 por cento do total global, como os autores referem).
Para além disso, dados relativos a 2002 já não têm grande validade passados cinco anos, pelo que as conclusões têm que ser interpretadas “com uma pedra de sal”. Hoje em dia, a rede OpenNAP – uma adaptação open source do protocolo do Napster original – não é utilizada por quase ninguém e o único software cliente compatível que continua a ser actualizado é o Lopster. Em 2002 a eDonkey2000 tinha acabado de surgir e o eMule, o programa que mais iria contribuir para a sua consolidação, apenas apareceria no final do ano – tendo apenas começado a popularizar-se no ano seguinte. Quanto ao BitTorrent, seria preciso esperar até 2004. Ligações de “banda larga” eram um privilégio de uns poucos afortunados. Por outro lado, a loja online do iTunes da Apple apenas seria lançada em Setembro de 2003.
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