Parece milagre! Alguém descobriu um feitiço para acabar de repente com os conteúdos “piratas” que grassam pelos discos rígidos de milhões de pessoas em todo o mundo. A coisa, chamada Grooveshark, funciona assim: a partir do momento em que uma faixa ilegal transferida de alguma rede promíscua de P2P entra no sistema, ela transforma-se por artes mágicas numa música legítima. É isso mesmo que a empresa Escape Media Group promete fazer: legalizar a partilha de ficheiros de áudio (MP3, Ogg e FLAC) sem qualquer tipo de tecnologia de DRM através de um serviço totalmente baseado na Web. Em troca, assegura, os artistas, os detentores dos direitos de autores e os utilizadores que fizerem o upload dos seus ficheiros vão ser recompensados. Recorrendo a dinheiro ou a pontos, os utilizadores adquirem downloads de outros membros da comunidade. Para ganhar pontos, pode-se fazer uploads de faixas, corrigir as tags de identificação ID3 (artista das músicas, denunciar faixas indesejadas ou escrever críticas. Os membros que mais contribuirem para a comunidade recebem mais pontos.

O preço de cada faixa será variável, mas a empresa garante que nunca será superior a 99 cêntimos. Actuando como uma espécie de intermediário comercial, a Grooveshark transfere a percentagem dessa quantia correspondente aos royalties para os detentores dos direitos de autor sobre a música e retira para si uma comissão. Soa óptimo no papel, mas como é que isso tudo vai funcionar na prática?
Em entrevista ao ZeroPaid, Michael Vroegop responde que a integração das bibliotecas de música dos membros na rede do Grooveshark será feita através de um pequeno plugin escrito em Java que se encarregará de indexar cada um dos ficheiros e facilitar as transferências das faixas via P2P. Acrescenta ainda: “Não nos interessa como é que os utilizadores arranjaram as suas músicas; tudo o que nos importa é que os detentores do copyright serão adequadamente pagos pelo seu trabalho no nosso mercado. Nós estamos a abraçar o poder do P2P, permitindo ao mesmo tempo que haja uma renumeração pelo copyright. De certa forma, estamos a legitimizar ficheiros que até então eram considerados pirata – a partir do momento em que um ficheiro entra no Grooveshark, todas as transacções desse ficheiro dentro do nosso sistema serão legais e a pagar, compensando assim os detentores do copyright.”

Segundo Vroegop, os utilizadores que contribuirem com conteúdos para download irão receber uma percentagem fixa do produto de cada transferência creditada na sua conta. Os pontos adquiridos podem ser gastos na compra de mais músicas, bilhetes de concertos, t-shirts de bandas e outro merchandising. A alocação dos pontos baseia-se num algoritmo que classifica os utilizadores de acordo com o seu grau de participação na comunidade. Quanto mais um membro ajudar a colocar as tags correctas numa faixa, publicar críticas de álbuns e recomendar músicas e artistas, mais elevada será a sua classificação, o que resultará numa ordem de prioridade mais elevada de compensação numa transferência.
Apesar de todo esse rol de promessas fabulosas, o que é certo é que por enquanto o Grooveshare é apenas vapourware. Vroegop e a equipa por detrás do serviço não se comprometeram até agora com datas concretas, adiantando apenas que a versão beta estará disponível aos utilizadores que se registarem no site algures no final do trimestre, início da Primavera. Mas tendo em conta as reacções das quatro grandes companhias discográficas em relação à venda de música online sem DRM – ontem mesmo a Warner rejeitou a proposta que Steve Jobs fez nesse sentido -, é bastante duvidoso que o Grooveshark venha de facto a funcionar como é referido nesta página do site e no blog do serviço. Ainda para mais, porque os responsáveis não explicam muito bem como é que pretendem transferir o dinheiro para o detentor dos direitos de autor; por outro lado, por mais controlo dos ficheiros que tentem fazer, será sempre impossível assegurar que as faixas dos artistas que não desejam integrar o sistema ou dependam de um acordo exclusivo com um distribuidor não estejam disponíveis para download.

Na verdade, este modelo de P2P pago já foi proposto em 2004 pela Wurld Media para o seu serviço Peer Impact às quatro majors, que o rejeitaram imediatamente. Para contar com os conteúdos de Sony BMG, EMI, Time Warner, Universal, bem como de outros conglomerados multimédia como a Fox e a NBC, a Wurld Media teve que ceder nas suas ambições. Hoje oferece um serviço pouco ou nada popular, restrito ao Windows, apenas disponível para os residentes nos Estados Unidos e que utiliza a tecnologia de DRM da Microsoft, o Windows Media DRM, limitando a cópia dos ficheiros a três PCs. O utilizador adquire os downloads de músicas – 99 cêntimos cada – , filmes, séries de televisão ou jogos a partir de um software proprietário específico e depois pode redistribuir os ficheiros a outros membros através da rede de partilha de ficheiros do Peer Impact.

Cada vez que uma venda é feita a partir do download de um ficheiro guardado na pasta partilhada de um membro, este membro recebe cinco por cento do montante da transacção que é convertida em seguida numa moeda de crédito designada Peer Cash, que pode ser usada para comprar outros conteúdos. As pessoas que recomendarem e promoverem o material que compraram noutros sites e fóruns recebem também cinco por cento da quantia relativa ao download. O objectivo óbvio é aliviar os custos do sistema com largura de banda, marketing e pessoal. No fundo, trata-se de um modelo de distribuição de conteúdos semelhante ao do Weedshare, lançado em 2003 e sobre o qual eu já aqui escrevi, excepto com a diferença de que este último não integra uma rede P2P própria.

Outro serviço que também pretende explorar o filão do P2P legal – como se isso fosse possível… – é o Bitmunk da empresa Digital Bazaar. As vendas podem ser realizadas a partir do próprio site do serviço (WebBuy) ou através do software cliente da rede P2P Bitmunk (PeerBuy), uma aplicação de código-fonte aberto escrita na linguagem Java (com versões para Windows, Mac OS X e diversas distribuições Linux). O artista pode registar directamente as suas músicas e definir os direitos que pretende reservar para si – copyright, copyright com direitos de redistribuição, domínio público ou licenças Creative Commons – e estabelecer o preço pretendido por elas.
Após adquirirem as faixas, os utilizadores podem redistribuí-las a outros, recebendo em troca uma percentagem em dinheiro que fixaram, tomando em conta o esforço na promoção do artista e os custos de largura de banda. Os preços médios das faixas variam entre os 70 e os 94 cêntimos de dólar. Quanto aos álbuns, rondam entre os sete e os 8,80 dólares. A Digital Bazaar controla centralmente todas as transacções efectuadas a partir do Bitmunk e cobra uma taxa de 15 por cento sobre o preço total da faixa. Por seu lado, o artista pode receber até 84 por cento do valor final de venda. Actualmente, a maior parte do catálogo do Bitmunk pertence a artistas e editoras independentes ligados à CD Baby, uma empresa de distribuição de música digital.
Embora a Digital Bazaar garanta que não utiliza tecnologia de DRM, todos os ficheiros pertencentes ao mercado do Bitmunk são identificados por uma “marca de àgua” (“watermark” digital) de forma a impedir que acabem por ir parar a outras redes de partilha não autorizada de ficheiros. Isto faz com que o utilizador que adquiriu inicialmente uma música dessas corra o risco de ser processado pelos respectivos detentores de direitos de autor – mesmo que inocente, pois pode ter acidentalmente passado uma cópia da faixa a um amigo. Feito o balanço, apesar das boas intenções da Digital Bazaar em recompensar condignamente os artistas, o aliciante monetário oferecido ao utilizador não compensa o preço elevado de cada faixa – quando comparado com a oferta imbatível (e ilegal…) do AllOfMP3.com de 10 a 30 cêntimos por música – e o fardo de poder ser injustamente processado.
Será o Grooveshark capaz de concretizar a tão desejada “monetização” das redes P2P prometida anteriormente pelo Peer Impact e o Bitmunk ? Parece-me, sinceramente, muito duvidoso. Na verdade, a única medida viável para encontrar uma solução universal que concilie os interesses dos criadores e dos fãs passa pela adopção de uma licença global voluntária para a partilha de ficheiros incorporada na factura mensal de acesso à Internet. É bem verdade que é difícil de implementar um sistema rigoroso e fiável – exigindo talvez o recurso a “marcas de àgua” – e que seja aplicável ao maior número possível de jurisdições nacionais. Mas vale a pena tentar. A sociedade em geral ficará a ganhar, porque – ao contrário do que afirmam os egoístas – a criatividade irá prosperar por todas as pontas e de todos os cantos do globo e os apreciadores de música e cultura em geral poderão desfrutar de uma quantidade inimaginável de obras de arte. Os intermediários, esses ficarão remetidos a um papel cada vez mais insignificante.
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Excelente análise!
coloquei o link no http://www.linkk.com.br
http://www.linkk.com.br/story.php?title=Lavagem-de-msica-pirataa-por-P2P
parabens
Diego
Diego,
Obrigado. Estou a ver que tenho que arranjar um feedflare ou outro plugin para o linkk. Parece que o pessoal de lá gosta do que eu escrevo
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